um livro em português: “Retratos na Umbanda”.

san giorgio

 

1.

 

Pai Francisco estava chateado com os médiuns, levavam a sério só o momento da incorporação. E o resto?

Pisou no segundo degrau da escada que o levaria ao térreo e depois ao estacionamento. O carro o esperava empoeirado, “Quando terei tempo de lavar ele?”.

O elevador não funcionava e isso acrescentou a sensação de fadiga e de impaciência. Queria se ocupar só do centro, cuidar do santo, das obrigações, mas… e o dinheiro? Quem lhe daria? Devia trabalhar, essa era a pura verdade. E não teria aposentadoria, isto é, poderia se aposentar com um salário mínimo. E a esposa? As filhas? As enteadas? Pelo menos ir ao parque no domingo, comer sanduíches sentados na grama, rezar em silêncio… Entrou no estacionamento e depois no carro. Tomou a direção do Centro e pensou que na manhã seguinte deveria levantar cedo para comprar a carne para a festa de Exu, sábado era dia de Exu e o intermediário, o semideus, gostava de churrasco. Isso significava uma passada no açougue, depois devia organizar a quitanda, averiguar, não podia confiar em ninguém. Quem verificaria se a alface estava boa? Quem contaria as caixas de leite? O entregador só aceitava reclamações na hora.

Ele sabia que os médiuns participariam em quantidade mínima de sua palestra. De trinta, dez no máximo viriam.

Estacionou em frente ao portão azul. Vestia bermuda marrom, uma camisa branca listrada, sandálias marrons. No pescoço um colar de ouro com uma pequena faca e uma figa. Tinha cabelos escuros, o rosto de um egípcio, o crânio africano era a parte evidente de sua fisionomia junto com os olhos profundos e uma espécie de brilho divertido, sarcástico, como o de um palhaço ou de um demônio. Ou de um santo. Os olhos de Francisco tinham presenciado pequenos e grandes milagres, esta era a impressão que davam e que deram ao Zé, que lhe abriu a porta do Centro Espírita Filhos de Xangô.

Cumprimentou-o beijando-lhe primeiro a mão direita, depois a esquerda.

– Como vai Seu Zé? -, disse Francisco.

– Bem, Pai e o Senhor?

– Os médiuns vieram?

– O Plínio e o Ramon, mais ninguém -.

Francisco o fitou. Pediu um refrigerante e um salgado à Dona Tereza, que tirou o salgado do forno, quentinho. Dona Tereza tinha cabelos vermelhos, óculos e sorria, moderadamente.

– Qual vai ser o assunto de hoje, Pai? – perguntou o Zé.

– Estamos na primeira parte da segunda apostila… – A prima do Francisco se chamava Irma, ela o introduzira com quatorze anos. – Descanse, Pai-. Zé o via distraído, talvez estivesse passando mal. Havia um tempo Francisco parecia adoentado, a cabeça nas nuvens.

Zé já tinha arrumado o centro, alinhado as cadeiras, o computador estava ligado, os slides se refletiam na parede, pela Umbanda aquele baiano de setenta e cinco anos tinha aprendido a manusear o computador. Francisco fechou os olhos, “O que é que tem, Pai?”.

“Pai, se o Senhor quiser, posso avisar aos médiuns que o senhor não está passando bem”, disse Zé. Francisco virou a cabeça para um lado e para o outro procurando o Plínio e o Ramon. Não estavam. “Traz um copo d´água, por gentileza”, disse. Zé saiu.

Foi uma entidade da Irma, o Caboclo Mata Virgem, que pediu aos pais de Francisco que o filho vestisse roupa branca.

“A sua água”, disse Zé.

Ramon e Plínio fizeram o sinal da cruz e beijaram as mãos de Francisco, “Não tem mais ninguém?”, perguntou Ramon. A campainha tocou.

Na Irma, depois das sessões, as entidades eram induzidas a aparecer para que os médiuns voltassem às suas casas, descarregados.

“Ogum Beira Mar”, disse Francisco em voz baixíssima e suspirou pensando em sua primeira entidade.

“Desculpa o atraso, Pai”, disse Sofia, o corpo em frente ao portão azul entre a estatua do Malandro e o cantinho do Seu Sete, o porteiro da casa. O Malandro era um senhor de camisa verde e rosa. Aos seus pés havia uma lata de cerveja e um cigarro apagado. Ao lado do Malandro estava uma pequena estátua do Exu Veludo, com uma caveirinha e duas velas vermelhas e pretas. Em frente ao Exu Veludo ficava a casa do Seu Sete, o espírito guardião do terreiro. Seu Sete era respeitado e temido por todos. A casa era imponente: dois quartos, um para ele e outro para Maria Quitéria, a Pomba-Gira. Era um senhor alto, uma perna humana e outra de bicho, chapéu cilíndrico na cabeça, roupa comprida e um facão de três pontas na mão. Olhos alegres. Uma caveira aos pés, com todos os dentes na boca. Três colares pendurados nas pontas do tridente, os anéis estavam na gaveta em baixo de um candelabro com duas velas, a mais alta para Deus, a mais baixa para o Diabo.

“Hoje no trabalho foi difícil”, disse Sofia. “Problema não”, respondeu Francisco sorrindo para ela e para Natália, Ágata e Silvinha que acabavam de entrar. A campainha tocou, Zé foi abrir e ao grupo se juntaram Janaína e as duas Marias. Dez. Um terço dos médiuns estava presente.

Só a Tereza ficou no pátio, ao lado dos salgados, da geladeira, das velas e dos fósforos.

-Estamos aqui… -, disse Francisco, agora no terreiro, em frente ao altar composto pelos Orixás donos da casa, Xangô e Oxum, e por todos os outros também. Oxalá era o orixá supremo, olhar tranquilo, mãos abertas, uma enorme guia entre as mãos que descia até os pés. Era mais alto do que Exu, os cabelos longos, as feições de Jesus Cristo. Aos seus pés Xangô, mestre da justiça, sentado numa cadeira e Oxum, a rainha das águas correntes, de azul. Ogum, no lado esquerdo, em cima do seu cavalo, uma lança na mão, a ponta enfiada na boca do dragão, o guia de aço das sete linhas entre os dentes do dragão.  – Estamos aqui para prosseguir nas palestras de afinamento espiritual… -, – O que encontra um médium no Terreiro? Um guia, um Pai, uma Mãe de Santo que zelou, cuidou do altar, dos santinhos, que acendeu as velas, esta Mãe, este Pai junto com os outros médiuns o levarão para o caminho do conhecimento… – disse Francisco olhando para Zé, Zé clicou no computador e, atrás do Pai de Santo, apareceu uma escada que levava ao meio do céu – De um conhecimento sem fim. E os guias espirituais, os capetinhas, as criancinhas, os pretos, as pretas velhas, os boiadeiros, os caboclinhos, os ciganinhos e as ciganinhas o ajudarão a entender qual é o seu caminho dentro da Umbanda-.

Francisco dizia as mesmas palavras que tinha escutado da Irma. Que horas eram?

Ele dormiria pouco, trabalharia o dia inteiro na loja e depois no Centro, porque sábado era dia de Exu.

“Pai, está tudo bem?”, perguntou Ramon, de cabelo branco e olhar sensível.

Era meia noite, Ramon estava voltando do cinema. Os amigos já tinham ido embora. Desceu na proximidade da casa, em Vista Alegre, perto da Vila da Penha. Viu um homem de pelo menos três metros, com uma capa preta de fundo vermelho, a gola alta, de camisa branca, calça preta, que fumava um charuto e andava de um lado para o outro como se estivesse pensando ou esperando por alguém. Ramon pediu licença. O homem abriu e ele passou, sem olhar para trás. Em casa procurou uma explicação mas não a encontrou.

 

Irma expulsara o pai Francisco por causa das palavras de Ogum Beira Mar: “O meu burro deve cumprir obrigações que o seu Centro não faz…”, Irma adorava o Francisco e tinha certeza que o primo a sucederia no terreiro, mas aquelas obrigações tornaram a sucessão impossível.

“Estou lembrando o dia em que descobri que ia ser pai de santo…”, respondeu Francisco.

 

– Eu tinha acabado de sair do Centro da Irma e a Vanda, empregada da minha mãe, me convidou pra festa de Cosme e Damião na favela de Manguinhos. O chefe do centro veio pra cruzar, benzer a mesa de doces, a abertura da gira. Aí, de repente, a entidade da mãe de santo incorpora, cruza, reza e olha fixo pra mim, sem piscar. Tinha capa, capacete e espada. Estende a mão e me leva pro altar. Eu comecei a não mais me sentir, a entidade da mãe de santo tinha incorporado em mim e saído dela. Era Ogum Beira Mar, o seu Ogum. Conduzi o ritual daquela casa em que nunca estive. A mãe de santo chorou e bateu cabeça pra mim… Mas eu não sei por que estas lembranças estão me incomodando dia e noite-.

– Por que incomodando, Pai?-, perguntou Sofia, – O senhor não tá feliz de ser Pai de Santo?-.

-Tô, mas… Ando muito cansado –

 

– Ouviram?-, disse Sofia aos médiuns, – Pai Francisco tá cansado de nós!-

– Não estou – disse o Francisco, – A verdade é que tenho dor de cabeça, visão dupla -.

– Você não está velho, Pai -, disse Sofia.

– É verdade-, replicou Natália, – o senhor também é muito bonito -.

Francisco pensou na Pomba-Gira da Natália. Fumava cigarro, dava conselhos e ensinava como desfazer feitiços de amor, mas o grande barato era a sensualidade da Pomba-Gira. Os cabelos pretos até as costas, a mão direita empurrando as pontas para trás, parecia mulher bonita na porta do bordel.

– Vamos voltar ao assunto -.

-Não, Pai!-, disse Sofia.

-O que é que tem agora?-

-Agora queremos saber mais!

Francisco olhou para os médiuns e sorriu daquela forma diabólica, infantil e contagiosa.

 

– Fiquei vinte e um dias sem ter contato com ninguém enquanto os bandidos passavam pelo centro armados, eles gritavam “Os hômi!” e eu tinha medo sim, nunca tinha dormido numa favela… O banheiro era de tábuas. O terreiro um barraco, porém muito limpo. Antes do terreiro tinha um chiqueiro. Com o vento a favor, o cheiro era horrível, em pleno janeiro com quarenta e dois graus… Querem saber se eu tinha dúvidas? Tinha sim, pelo jeito que eu saí da Irma, porque não conhecia o ritual da Umbanda com Angola, mas queria acreditar que havia uma necessidade ditada pelas minhas entidades -.

 

– Pai -, começou Ramon, – o senhor disse que um médium entra na Umbanda tanto pelo amor quanto pela dor. E o senhor? –.

Ramon via espíritos. Uma velhinha com traços agonizantes o surpreendeu quando ele saía do banheiro. Buscou informações no kardecismo mas não as encontrou, aí falou com uma Preta Velha, tia Tereza da Bahia, que lhe disse que a senhora agonizante era sua avó, que queria se comunicar com ele, mas não conseguia falar e por isso tinha aquela expressão. Tia Tereza mandou Ramon fazer um trabalho para cada entidade. Ele também participou de um jogo de búzios com o pai Francisco e descobriu que o seu sucesso dependia da caminhada espiritual.

Agora Ramon cuidava das casinhas dos Pretos Velhos e Pretas Velhas, ao lado de Exu. O Preto Velho era um escravo brasileiro, cheio de sabedoria. Ele estava sentado num banquinho, fumava o charuto ou um cachimbo, às vezes até cigarro. Tinha cabelo branco, vestia uma manta vermelha, tinha uma guia no pescoço, preta e branca. Atrás dele a cruz. A preta velha, Maria Conga do Cruzeiro das Almas, estava mais em baixo. Em frente das estatuas havia muitas velas acesas.

Ramon limpava, trocava a água e as ervas.

Obaluaê era o orixá das doenças. Quando era invocado no terreiro, os médiuns batiam três vezes no chão com a mão direita porque ele tinha ligação com a terra. A casa dele era ao lado da casa das Almas, ou seja, dos Pretos Velhos. Ele era coberto da cabeça aos pés por listras de palha amarela. Obaluaê, filho de Nanã Buruquê.

 

– Eu nasci na Umbanda -, disse Francisco. – A Irma dizia, “Francisco, eu vou no centro limpar a casa da vovó, você vem comigo?”, “Francisco, vou acender as velas”, “Francisco  temos que cuidar da casa do Seu Sete…”. A Irma montou a casa dos Exus junto comigo, foi ele que pediu pra ela cultuá-los dentro do centro. Que era de Umbanda Branca e esta Umbanda não é muito chegada ao Exu. Mas a Irma confiava nele, todo o mundo confiava. Ele era querido pelos consulentes, é até hoje, não é? Uma vez, aqui em nosso centro, veio um chefe de quadrilha pra se consultar com Exu Sete Encruzilhadas -.

A primeira gira do Ramon foi numa festa de Exu. Ele acendeu um charuto para o Seu Meia Noite, incorporado no Enzo, Pai Pequeno da casa. O Exu, além de mandar o Ramon cambonar todas as entidades do Enzo, lhe disse que o espírito que ele tinha encontrado em Vista Alegre, na encruzilhada, trinta anos antes, era ele.

 

– Eu estava dizendo… –

Zé percebeu que o Pai ia voltar ao assunto e clicou no mouse. Atrás dele apareceram algumas palavras, dentro de balões coloridos.

 

-Ah não, Pai, agora queremos saber quais são seus problemas, pra tentar resolvê-los junto com o senhor! – disse Sofia.

– Eu não mando mais?-

-É claro que é o senhor quem manda, mas nós estamos preocupados. Por que o senhor não conta pra gente o que se esconde no seu coração?-

-Nem mesmo – disse o Francisco – eu sei… –

Natália o encarou, apaixonada.

Francisco se sentiu mais forte.

– Leiam nos balões. No primeiro: “A Umbanda é só incorporação: não é!”. No segundo: “Então quem são os umbandistas? Os seguidores de uma religião. A Umbanda é uma religião: É. É uma doutrina também?”. E no terceiro: “A Umbanda segue a doutrina do espiritismo, mas é uma religião”. E agora vocês me perguntariam: qual é a diferença entre doutrina e religião? Tentem responder. Natália…”.

Natália alisou os cabelos pretos, pudicamente – A doutrina é o espiritismo e isso significa que nós todos somos espíritas, ou seja, acreditamos na comunicação com os desencarnados, mas o espiritismo é uma doutrina científica que nos explica cada acontecimento, cada detalhe de nossas vidas e da natureza que nos envolve por meio da presença dos espíritos. A Umbanda é diferente -.

 

– A diferença entre Umbanda e Espiritismo -, continuou Francisco, – é que a Umbanda é religião, o Espiritismo é uma doutrina. Nós Umbandistas somos religiosos, acreditamos na magia e a usamos visando o bem. Os espíritas nos discriminam dizendo que nossos espíritos, nossas entidades, nossos queridos pretos velhos e pretas velhas, nossos caboclos, nossas caboclinhas e, principalmente, nossos exus são espíritos menores que não deveriam despertar a atenção de um médium sério. Mas um médium sério, pensamos nós, deve dar atenção a todos os espíritos porque a Umbanda, poucos sabem, é um grande hospital e não só os médiuns e os consulentes estão procurando uma cura, mas os espíritos também, os caboclos, os malandros, os pretos, as pretas velhas nos procuram porque precisam trabalhar junto conosco, nos ajudar para se ajudarem também -.

Zé amava o pai Francisco e cada palavra que saía de sua boca era uma pérola que o faria refletir junto com Sara que agora não estava, mas participaria da festa de Exu.

A mãe da Sara fora lavadeira de um convento de freiras francesas, elas sabiam que tinha ligação com espíritos e não gostavam, achavam coisa do demônio. A mãe dela também não gostava. A filha, porém, via espíritos dentro de casa. Um caboclo, um preto velho e uma preta velha. O pai era um curandeiro e trabalhava com ervas. Um dia, com treze anos, Sara adoeceu. Na perna direita surgiu uma espécie de queimadura que encheu e se tornou uma grande bolha. O médico disse que era um tumor e que devia amputar a perna. Sara ficou desesperada até falar, de noite, com um espírito que apareceu em baixo da mesa. Ela se aproximou e a preta velha lhe explicou quais ervas devia pegar no armário do pai, como devia cozinhá-las e aplicá-las. Sara foi até o armário, pegou as ervas, ferveu, colocou por sobre a ferida. No dia seguinte o inchaço da perna explodiu derramando muito sangue, e a mãe levou a filha para o hospital. Sara foi medicada e voltou para casa. Uma semana depois não tinha mais nada.

– A religião me salvou a vida. Foi a única certeza no labirinto da minha existência. Casei, me separei, tive filhos, estudei na faculdade, arranjei um bom trabalho, perdi o trabalho. Ganhei bem, perdi tudo e cheguei a não ter o que comer. Mas nunca me desesperei e sabem por quê? Porque sempre tive um Centro em que me refugiar -.

-Como é bom ouvir você, Pai!-, disse Sofia.

Francisco olhou para os cabelos castanhos da Sofia. A pele clara.

– Me formei em biologia, nem todos sabiam, não é? E trabalhei na manutenção e controle das estações de tratamento de esgotos dos aeroportos -.

– Eu tinha abaixo de mim os técnicos de laboratório, acima os engenheiros… tínhamos um colega evangélico, Seu Pedro, que ia ao trabalho com a Bíblia. Na hora do almoço, ele lia. Eu gostava observar ele… se eu tivesse ficado, hoje estaria com uma boa aposentadoria e cuidaria só do Centro. Mas de repente a empresa foi terceirizada e eu fiquei recebendo, sem mais nada pra fazer. Aguentei um tempo. Depois pedi as contas e decidi me dedicar ao comércio. Aí sim começaram os problemas…

– E o amor, Pai? – perguntou Natália – como ia naqueles tempos?

Os olhos do Francisco vidraram e ele ficou parecido com Exu. Ninguém disse nada. Francisco não estava gostando daquele interrogatório. Decidira que faria sua palestra e não amava descumprir uma obrigação. Mas a dorzinha chata de cabeça fez com que levasse a mão ao rosto e fechasse os olhos.

– Pai, o senhor está bem?-, perguntou Plínio, alto, magro, cabelo grisalho. Expressão de homem fiel à Umbanda e à esposa, a Tereza dos salgadinhos.

Os slides ainda refletiam na parede e Zé teria gostado de continuar sua projeção.

 

 

Ultimamente o pai interrompia as palestras ou encurtava as sessões para voltar a casa com a esposa. Ou sozinho, quando a esposa não vinha até o Centro. Era quase um costume, curtir a sessão até o cansaço do pai ou escutar uma linda palestra até quando o pai não aguentava mais porque começavam a dor de cabeça e a visão dupla.

Francisco sentou-se junto com os demais. Os médiuns arrastaram as cadeiras e formaram um circulo ao redor dele.

Zé, Plínio, Ramon, Silvia, Sofia, Natália, Maria a loira, Maria a preta, Janaína e Ágata, a gorda.

Francisco pensou que precisava falar. Via duas Natálias, dois Zés. Isso vinha acontecendo, nos últimos tempos. O médico tinha dito que era o estresse. E ele acreditava. Não era nada de espiritual. O comércio, o excesso de trabalho. Há quanto tempo não tirava férias? Nem se lembrava. Via duas Marias, também, mas as Marias, de fato, eram duas!

Sorriu.

Pegou um cigarro do bolso. Acendeu. Fumou com prazer. O Plínio tossiu. Francisco olhou Ramon, o mais tímido. Filho de Xangô, como ele. A mãe de Ramon era Iemanjá, a sua era Oxum. Pensou em sua mãe carnal que não estava nada bem.

– Casei com vinte e três anos, muito novo… com uma mulher chamada Claudia.

Zé relaxou pela primeira vez desde o começo da palestra. Não devia mais clicar no mouse nem se preocupar com o computador. Ia escutar o Pai, junto com os outros.

Ele era o único que não incorporava. Mas adorava os espíritos, as entidades, gostava do caboclo e do cantinho dele, perto do boiadeiro, atrás de Obaluaê. O caboclo era um índio valente e corajoso.

– A gente tinha se conhecido há um tempo, os pais dela eram separados e muito pobres, principalmente a mãe, que morava na Vila Cruzeiro, na Penha, e ela morava com o pai na Piedade. Eu conheci ela por intermédio de uma amiga que frequentava o Centro. Eu não era um garanhão naquela época… Mas, antes de casar, ela engravidou e nós fizemos um aborto, em Bonsucesso, porque não se devia ter filhos sem casar.

Depois da cirurgia fomos prum motel pra Claudia se recuperar. Do motel voltamos pra clínica porque ela tava passando mal. A Claudia era bonita, mas não tão bonita quanto a Júlia ou quanto a Samira…

Zé conheceu Sara no Rio de Janeiro depois da explosão do paiol de munição de Deodoro. Ela vinha da Bahia e estava procurando abrigo em casa de parentes. Zé ainda se lembrava da Sara forrando a cama. Ela o encarou, séria e, de repente, não era mais a Sara mas o Caboclo Cobra Coral que lhe pedia para criar o cantinho dele. Zé disse que não acreditava naquilo.

– A gravidez se tornou o nosso tabu. Claudia queria ter um filho mas não podia porque o aborto criou rugas no útero que impediam que o óvulo se fixasse. Fizemos tratamento, cirurgias, raspagem, quimioterapia, mas nada. A minha esposa se arrependeu do aborto e chegamos quase a adotar filhos. Mas tivemos a interferência espiritual de uma criança; o Zezinho da Mata veio e disse que não era o momento para adotar…

A Claudia me ajudou na fundação do primeiro centro, em Água Santa. Ela era médium e me suportou quando tive que abandonar o centro da mãe Diná. Um empresário que gostava do Seu Sete tinha arranjado alguns ônibus pra eu trabalhar, pra eu dar consultas, no Recreio…  Sim, eu abandonei o centro da mãe Diná também, por causa de ciúmes.

Desta vez não foi a Irma, mas Irma na realidade não era ciumenta, ela tinha planos pra mim e não aceitava que o seu Ogum dissesse que eu devia ir pra outro Centro, ela não aceitava que eu saísse da Umbanda branca porque isso significava que eu não seria seu sucessor. E nós não nos falamos por vinte anos -.

 

As coisas iam piorando: de Realengo, Zé foi parar em Mesquita e o Caboclo aparecia com mais frequência, agora queria um altar perto de casa. O baiano cedeu, mas só passou a acreditar quando viu Sara incorporar a Pomba Gira. Porque ele sabia que sua esposa não gostava de Exu e não dançava nunca.

– Eu me agarrei à mãe Diná. Ia frequentando o Centro dela, na favela, cheio de negros e daquela energia espiritual que só os negros têm… O seu Sete Encruzilhadas logo se tornou querido pelos consulentes. Alguns saíram da Irma pra se consultar comigo na favela de Manguinhos. Ou frequentavam os dois Centros. Os ciúmes foram diversos: os do pai pequeno que não gostava do meu relacionamento com a mãe Diná e da mãe Diná frente ao poder aquisitivo dos consulentes. Quando o Seu Sete dava consultas, os assistentes faziam a fila e a Diná dizia olha que tem um Tranca Rua bonito, por que o senhor não vai falar com ele?

E teve ciúmes espirituais, ciúmes do Tranca Rua dela com o meu Exu.  O dono do terreiro era o Tranca Rua… eu saí e dei consulta dentro de um ônibus. A ideia veio dum homem chegado ao Exu Sete Encruzilhadas. Eu ia sexta à noite ou nos sábados, fazíamos nossos rituais na rua, nas cachoeiras, o empresário ajudava não só com dinheiro mas cambonava também. Naquela época Recreio era mato, só, e praia…

apesar disso o casamento ia decaindo porque a gente fazia sexo só pensando em ter filhos. Claudia tirava a temperatura da boca e me dizia Francisco é o momento certo. Eu nem tinha tesão –

Ágata se lembrou de que não tinha almoçado e que, se o Pai continuasse falando muito, nem jantaria.

Plínio olhou para o relógio e Natalia enrubesceu.

– Eu tinha que transar, vocês me entendem?

A Claudia devia ficar de cabeça pra baixo porque assim era mais fácil a fecundação e eu a possuía, em pé. Me esforçava para me excitar, pensava em tantas coisas, em outras mulheres, e aí me excitava e conseguia cumprir a função de reprodutor. Mas era tudo inútil, porque ela tinha aquelas rugas que impediam a fecundação.

A Claudia se tornou ciumenta, eu saía de casa às oito da manhã e só chegava às sete da noite. Tava trabalhando, mas ela não confiava mais em mim, convencida de que eu tentava engravidar outras mulheres. Ou que eu repetia nossos malabarismos no trabalho também. Nas salas vazias do aeroporto… Decidimos tentar a inseminação artificial em São Paulo. Estávamos cheios de esperança, convencidos que dessa vez ia funcionar. Viajamos de ônibus e planejamos o filho, que deveria ser homem. Sonhamos com ele, a Claudia mais do que eu, eu desconfiava por causa da intervenção do Zezinho da Mata mas não queria tirar a ilusão dela.

Na volta, decidimos pela separação -.

Zé e Sara tiveram sete filhos. O baiano se tornou mestre de obras e a família foi morar no Méier. O Caboclo Cobra Coral pediu a ele que levasse Sara a um centro espirita e um belo dia lhe salvou a vida.

– Claudia se tornou outra pessoa. De repente ela viu em mim um erro do destino, uma pedra. E planejou tirar proveito do nosso fracasso. A gente ia se separar na boa, cientes dos desentendimentos. Eu ia pagar uma pensão, mas a Claudia sabia que ia sair do emprego pra ir atrás dos meus sonhos. Sempre quis ter um comércio, até pequenino como o da minha mãe que vendia as roupinhas, os completinhos de criança. Comecei vendendo artigos de Umbanda e tive algum problema no pagamento da pensão alimentícia. O que é que a Claudia fez? Ela foi parar no tribunal! Um oficial de justiça veio pra casa dos meus pais e cobrou o pagamento da pensão!

Ágata levantou, a cadeira escorregou e fez muito barulho. Pai Francisco parou de falar.

“Mil desculpas”, disse a mulher.

Ela saiu do terreiro para ver se Dona Tereza estava.

Viu-a atrás do balcão, no pátio, em frente à casa das Almas e à do Seu Sete Encruzilhadas. “Dois salgadinhos”, disse, “um de presunto e queijo e outro… Tem pastel?”.

“Tem”, disse Tereza.

“Dois salgadinhos, um pastel e uma coca…”

“O segundo salgado é de que?”

“Queijo e presunto, os dois, e o pastel de camarão”

Tereza colocou o pastel e os salgados no embrulho, abriu o refrigerante, enfiou o canudo e deu para Ágata. Ela pagou e voltou para a palestra.

Sentou-se e começou a beber e comer, baixinho. Pai Francisco estava falando.

– Num aniversário numa boite. Ela também tinha acabado de sair de um casamento, tinha onze anos a menos do que eu. A Claudia era tímida e de uma beleza discreta, Júlia era mais vistosa e ainda gostava do marido dela.  Eu logo me apaixonei pelos seus cabelos loiros, mesmo ela sendo morena, quase mulata. Eu presenteei ela com muitas flores e com todo o meu charme… Eu queria ficar com ela e ter uma filha, tava doido pra ter uma filha. E assim foi. A Júlia engravidou quando eu percebi que o gênio dela era forte demais.

Júlia não era mãe, ela brincava de boneca. Não tinha cuidado. Não intendia que nós, seus familiares, seus convivas, precisávamos de carinho, de atenção. Todas as noites, todos os dias durante o ano todo ela preparava arroz, feijão e carne moída. Só. Não mudava nunca, este era o cardápio de todos os dias, almoço e janta. Nasceu a caçula e eu insistia, dizia que as filhas estavam enjoando, mas ela não gostava de cuidar da casa-.

 

Zé foi agredido por um operário com uma barra de ferro. Caiu e a obra parou, os operários também.  O homem foi em cima dele. Ninguém reagiu, ninguém tentou defender o patrão. Zé chamou pelo Caboclo Cobra Coral e levantou, agarrou a garganta do sujeito, o dominou. E mandou chamar a policia.

– Eu tava preocupadíssimo porque todas as vezes que a filha mais velha tinha febre, vinham as convulsões. Eu achava que a Júlia não tava recebendo os cuidados necessários e pedi ajuda pra duas moças do Centro… tava cansado, de noite não dormia, mas a Júlia não tinha paciência.

 

– Passei a loja de artigos religiosos e comecei a pensar que, se tivesse aguentado mais um pouco, taria aposentado! E poderia cuidar só do Centro…

Pai Francisco parou e o terreiro ficou silencioso. Ágata comia em silêncio. Natalia, Maria a loura, Maria a preta estavam com a cabeça entre as mãos, os cotovelos apoiados na cadeira. Zé, na última fila, tinha a cara constrangida de quem gostaria de fazer alguma coisa para agradar ao pai. “Um copo d´agua, pai?”, disse Plínio, Zé levantou. Plínio tinha acabado de sair do terreiro e Zé já tinha voltado com a água na mão.

Francisco bebeu. “Já é tarde”, disse, “não quero atrapalhar vocês”.

– Continue, Pai!- exclamaram Silvia e Janaína.

– Pai, os médiuns querem escutar sua história! – insistiu Sofia.

 

Zé levantou e disse: “Os senhores não repararam que o pai está cansado?”.

Francisco, de fato, estava cansado. Por isso tinha parado de falar. As lembranças doíam. Porque, se tivesse aguentado, se tivesse aproveitado a situação e levado adiante, agora… Mas ele fora um líder, tinha técnicos e funcionários abaixo dele e não gostara de ficar ocioso.

– A Júlia até hoje me chama de safado – disse Francisco – porque eu me envolvi com uma pessoa, uma consulente, ela acha que eu armei a separação. Eu tinha quarenta anos e via meu casamento ir por água abaixo, a situação financeira estava piorando e o remorso de ter deixado um emprego certo para o incerto crescendo. Desde criança eu sempre tive o melhor dentro das possibilidades e não acreditava que ia passar até fome…

– Pai- disse Ágata, baixinho.

– Pai,- repetiu, limpando a boca, ainda suja de salgado e pastel, – o senhor passou fome mesmo?-.

Alguns médiuns riram.

Outros observaram a estatua da Beijada, no lado direito do altar.

Nas festas de crianças os espíritos corriam, bebiam refrigerantes e comiam doces à vontade.

Ágata adorava aqueles momentos, mas se sentia culpada porque comia demais.

 

– Samira tinha lábios carnudos e belas curvas. Era cheia de vontades e eu fazia tudo que ela queria.

Nós nos conhecemos no centro.

Era aquela mulher que faz você não vai acreditar que está com uma mulher tão gostosa. Fazíamos amor na varanda, a gente saía à noite, eu bebia, lembro que tomei um porre e estacionei o carro na divisória no meio do trânsito. Acordei com a cabeça no volante.

Eu era doido por ela, esperava por ela até o amanhecer e, quando via o marido sair de casa, tocava o interfone… Ela morava na barra, tinha dinheiro mas o marido torrou tudo em drogas. Por isso procurou um Centro onde, além de um pai de santo, encontrou o amante.

 

Quando os meninos adoeciam, Sara incorporava e as entidades davam remédios. Para a dor de barriga passavam banha de galinha frita.

Às vezes Zé voltava do trabalho e encontrava Sara sentada no chão, berrando, os dentes num bolo… Mas não era a Sara, era Joãozinho, o espírito criança dela.

– Trabalhei junto com a Samira em feiras esotéricas. A gente vendia artigos ciganos, bijuteria. As coisas melhoraram, então alugamos um apartamento.

Quando o cerco apertou de novo, viemos morar no Centro Espírita. Cheguei ao ponto de não jantar mais e não ter dinheiro para os presentes de Natal das minhas filhas.

 

Criei uma oficina de montagem de bijuterias ciganas que venderam bem.

Alugamos uma loja em Cascadura. Outra na Abolição. Mas a reconstrução do Mercadão de Madureira viu o florescimento de lojas de artigos esotéricos. E nós decaímos de novo. Ninguém comprava mais os anjinhos, os artigos de numerologia, de cromoterapia, nossas cores, os mantras, os baralhos, as runas, os búzios. Abandonamos Cascadura e alugamos uma loja em Ipanema. Roupas indianas e incensos. Cresceu logo e logo caiu.

 

O meu medo era a gente vender na Tijuca e a Samira achar que o dinheiro era dela, assim eu não iria conseguir sanar a dívida com o meu pai, fiador no banco, então me lembrei dum primo, um politico… e me tornei funcionário da secretaria estadual.

Ajudei a reformular o sistema com um programa de informática que não conhecia. E me separei da Samira.

Francisco olhou para o teto e sorriu.

Novos pensamentos irradiaram o ar.

 

– A vovó comprava uma lata de goiabada, cortava em quatorze pedaços e cantava parabéns. Ela cortava também o lápis ao meio e dava um pedaço pra cada filho. A família da minha mãe era pobre, mas eu nunca fui pobre. Por isso que senti.

 

A mãe da Janaina estava pegando água para a madrasta, no rio, e viu Iemanjá, uma moça de cabelos compridos, vestido azul, em cima de uma jangada. Tinha um índio também, na beira do rio. A moça disse que ela não choraria mais porque Iemanjá ia tomar conta.

 

-Tô falando o que me da vontade de falar, não é? Parece sessão de psicanálise!-

– Quer mais água, Pai?-, perguntou Zé.

 

– Quando criança eu ia para os cultos da Igreja Presbiteriana – continuou Francisco.

Nas festas juninas montava as barraquinhas, comia doces. Já adulto visitei a Igreja Universal -.

Estacionei perto da Catedral de Del Castilho. Uma igreja enorme. Eu disse pra mim “não tem ninguém, o mulatinho da televisão convidou todo mundo e ninguém veio…”. Aí cruzei as portas duplas.

A catedral estava tão cheia que era difícil andar.

O pastor, no púlpito, contou a vida de Sansão, que perdeu as forças junto com os cabelos. Depois louvou e todo o mundo gritou aleluia. A vizinha gritou aleluia, o vizinho também. Olhei para um senhor, um cara machão, negão. Ele louvava, suava, eu também gritei “aleluia meu Senhor!”.

O pastor disse “agora meus irmãos entrarão os trezentos e sessenta e cinco pastores!”. Eu tinha ouvido falar deles na televisão. Os pastores ingressaram em fileiras de dez. Camisas brancas, calças azul marinho, gravatas. Cada pastor tinha um envelope. O mulato disse “semana que vem vocês vão me trazer mil reais, porque nesta semana ganharão muito mais do que isto!”. E eu saí correndo.

 

– A parte espírita da família da minha mãe era muito forte. Minha mãe Dinah, a Dejanira, irmã dela, e Irma, filha de Dejanira, trabalhavam com o senhor Daniel, um kardecista, na Tenda Espírita Mensageiros de Santo Antônio, fundado pela Irma e chefiado pelo Caboclo Mata Virgem -.

A mãe da Janaína viu as entidades da filha antes delas se manifestarem. Viu um caboclo, chefe da tribo. Cocar enorme e trança, os braços cruzados.

Janaina também o viu dentro de um copo d´água, com a ajuda de uma vela e do Francisco.

 

– Trabalhei para o primo e arrumei a minha vida. Aluguei um quartinho pra mim, em frente ao Centro, comprei geladeira, fogão… terminou o projeto e o meu primo arranjou outro emprego, na estação de tratamento de esgoto de São Conrado e do Rio Carioca, no Flamengo.

Quando o primo foi demitido, eu o segui e me tornei fiscal no setor de serviços de desratização do teatro Villa Lobos. Depois de seis meses de trabalho fiquei ocioso, de novo!

Voltou a depressão, falei com o primo e ele me mandou pra favela do Morro da Paz, na Vila da Penha, atrás da casa de show Olimpo.

Devia levantar todas as casas para um projeto-piloto. Fui interpelado pelos bandidos. Entraram no meu escritório, armados, “Tá fazendo o quê? Tu é da polícia?”. Não era a primeira vez que eu entrava numa favela, mas fiquei com medo. Devo ter cara de policial mesmo, não é? Saí desse trabalho também e o primo me enviou pro PAC da favela de Manguinhos, onde fiquei dois anos sem fazer nada.

Janaina sonhou com a Pomba-Gira da Sara antes de conhecê-la. A Pomba-Gira disse que tinha tirado o marido da Janaina porque ela não tinha feito o que o espírito tinha pedido. Pelo contrário, a moça que tinha ficado com o marido dela tinha preparado a farofa de Exu, com bife.

Janaina ficou revoltada e disse que não tinha feito e não ia fazer.

A Pomba-Gira era a Sara de cabelo solto, sem dentes.

Disse: “Eu sou sua”.

“Feia daquele jeito?”, perguntou Janaina.

“Em você eu fico linda”, respondera o espírito.

 

Maria a preta, de mãe baiana, com sete anos foi passear em Salvador. A mãe a levou num terreiro e ela chorou demais. O chefe pediu que a mãe a tirasse de lá porque Maria estava vendo as entidades como elas eram.

 

– Não tinha nada, nada pra eu fazer! Eu arrumava as gavetas, inventava trabalhos de secretária que não existiam.

No começo chegava às dez e saia às treze. Depois passei a trabalhar a cada três dias. Uma vez por semana.

Uma por mês.

Ninguém dizia nada, ninguém chamava a atenção.

Não teve renovação de contrato e eu fui demitido, agradecendo a Deus pra ter o dinheiro necessário pra comprar um apartamento -.

 

– Nos tempos da Irma visitei um Centro de magia negra no Cachambi-, disse Francisco e olhou para os médiuns.

Que horas eram?

No dia seguinte devia levantar cedo e organizar a loja, cujo espaço fora alugado com o dinheiro ganho graças ao primo.

Enquanto arrumava sua vida Francisco também conquistara mulheres, a maioria conhecidas pela internet.

Entre elas Marie, sua atual esposa, com a qual compartilhava o apartamento no Lins, as filhas delas e a sua filha mais nova.

A vida tinha melhorado bastante.

 

– O Pai de Santo recebia Exu Tranca Rua numa sala escura, cheia de caveiras, cabeças de cabritos e galinhas.

Um homem de cabelo grisalho, alto, forte. Sem camisa.

A cada pessoa que entrava no quarto, o homem se cortava no peito com um punhal.

Fazia um trabalho com bichos, legumes, frutas, roupas, fotos e pertences dos escolhidos pelos consulentes… Um ebó -.

 

– Acabou a sessão e o homem não tinha marca alguma. Eu fiquei impressionado.

Só depois entendi que os trabalhos que as entidades mandam fazer valem para o bem como para o mal -.

 

Estava anoitecendo e Pai Francisco queria voltar para casa.

– Acabou a sessão de psicanálise? -, perguntou irônico.

– Não se acostumem, hein? Na próxima terça, voltaremos a nossas palestras… Pra sexta está tudo pronto? -.

Zé olhou para o Pai, prestativo – Enzo vai arrumar o centro, eu e Plínio iremos até a loja de macumba e o senhor cuidará da carne e da cerveja… –.

– E a Sofia?

A bela moça levantou o cabelo comprido, com a mão.

– O meu chefe comemora o aniversário, posso chegar atrasada? -, perguntou.

-Sofia! – respondeu Francisco, – Tudo o que você quiser… Por que o Enzo não veio hoje? -, disse o Pai de Santo e logo recordou que o Pai Pequeno tinha ligado para lembrar-lhe o compromisso de trabalho, tinha garantido, porém, a presença na sexta. O Francisco não precisaria abrir a Gira, mas só incorporar o Seu Sete.

 

– O Enzo ligou, agora lembro. Tudo certo, então.

 

Plínio e Ramon levantaram e alcançaram a cantina para comer alguma coisa.

Silvia, a esposa do Enzo, pegou o celular para ligar para o Pai Pequeno.

Natalia espreguiçou-se, ainda sentada.

Sofia foi logo conversar com o Pai de Santo.

Janaina ficou pensativa, ao lado de Natalia.

Quando Natalia levantou, ela levantou junto.

Zé acompanhou Francisco e Sofia até a porta, sem intervir nem escutar a conversa.

– Um abraço para todos – disse Francisco, já fora do Centro, – Não esqueçam suas obrigações! -.

Sofia abraçou Silvinha, Natália e a preta Maria enquanto Zé aguardava a saída de todo mundo, inclusive a da Tereza dos salgadinhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2.

 

 

O coração da Maria acelerava de repente. O pulso ficava dormente e vinham as palpitações, a falta de ar e as câimbras nas pernas.

Tinha treze anos e morava com a mãe e a irmã em Quintino, zona norte, não muito longe da estação do trem.

Enzo também se mudaria para Quintino, anos mais tarde.

Mas, naqueles tempos, ele era do Morro do Andaraí.

Silvia era da Tijuca e tinha boa condição financeira. A família era de Minas, seus bisavós foram rezadores alojados pelos fazendeiros da região. Quando o fazendeiro queria uma boa colheita, falava com os bisavós da Silvia. Eles indicavam a terra, plantavam um cruzeiro e rezavam. O fazendeiro não vivia sem eles.

 

Maria era uma pretinha ansiosa, por causa da mãe. A baiana frequentava mães de santo amedrontadoras. Elas insistiam em dizer que, se ela não cumprisse suas obrigações, iria tomar uma “surra de santo”, ou seja, uma punição, preocupação ou doença.

Maria olhava a mãe a preparar a farofa de Exu, a canjica de Oxalá, o feijão do Seu Cipriano das Encruzilhadas e não gostava daquilo.

Mãe e filha frequentavam uma velhinha que rezava quebranto e cuidava da espiritualidade da família. A senhora tinha avisado da mediunidade da Maria, mas nem Maria nem a mãe pensavam que a fraqueza, as câimbras, as palpitações fossem algo de espiritual. A filha acabava indo para o hospital e fazia exames que não revelavam nada.

 

Enzo acordou de madrugada e olhou em meio à escuridão, na direção da casa do vizinho.  Viu um diabo com chifres, rabo e asas, em baixo de uma árvore, segurando um ferro no muro. O diabo era feio demais. Enzo gritou e correu para o quarto dos pais, chorando. A mãe o convenceu que se tratava de coisas da cabeça dele, na janela não tinha espírito nem gárgula nenhum.

Mas o menino ficou com a vontade de espiar e foi até a cozinha, subiu na mesa. Observou o diabo, de novo. As asas, o rabo de bicho, uma perna humana.

O vizinho era padrinho da irmã de Enzo e já tinha avisado que o filho mais velho devia desenvolver sua mediunidade. O sujeito era espírita e trabalhava no tráfico de drogas.

No morro todo mundo falava do envolvimento dele com a magia negra.

A mãe achou que o Enzo tivesse ficado impressionado com os contos, com as palavras pronunciadas, indo lavar a roupa ou subindo até a linda vista da ponte e do relógio da estação de trem. Por isso tinha imaginado o diabo na janela do vizinho.

 

Os parentes de Silvinha também moravam no morro.

Ela não, ela frequentava boas escolas, comia bem.

E quando Silvinha ou a irmã estavam passando mal, a mãe as levava até a Mariazinha rezadeira, dona de um terreiro. De lá de cima, Silvia gozava a vista da ponte de Niterói e das casinhas que subiam pelos morros, uma perto da outra. Como podem viver assim, se perguntava a mocinha enquanto a mãe se consultava com Maria Conga, preta velha da Mariazinha. O terreiro do Andaraí tinha sido fundado pelos descendentes da Silvia, vindos de Governador Valadares, Minas. Mariazinha era a tia avó dela.

 

Os médicos diagnosticaram anemia e isso não modificou em nada as crises da Maria, agora fervorosa católica. Ela ia para o catecismo, escutava a bíblia, o evangelho e até pensou em ser freira. Mas a carne falou mais alto, começaram os namoros com amiguinhos porque Maria era uma pretinha sem vaidades, que gostava de viver.

Preparava a mochila vermelha de manhã cedo, tomava café com a mãe e a irmã.

Na escola havia crianças como ela, se sentia bem.

“Maria, a tabuada é pra amanhã!”, dissera a professora e ela descobriu que gostava de matemática. Já grande, estudaria contabilidade, se formaria.

Às vezes passava mal, as câimbras, a tremedeira, a irmã também começou a apresentar alguns problemas, algo parecido com epilepsia. A mãe frequentou a rezadeira até a morte dela, depois não se interessou mais. Maria foi batizada na Igreja Católica, fez a primeira comunhão. Gostava de ver o padre com a batina, os homens de branco, de preto, gostava do cheiro do incenso e das grandes velas. Mas continuava a passar mal. Foi internada. A mãe acreditava que ela tivesse um distúrbio cardíaco, o coração disparava no meio da rua, o pai tinha morrido tão cedo… Os médicos disseram que ela não tinha nada.

Enzo voltou à cozinha. Montou em cima da mesa, ele sentia uma atração pelo oculto que se escondia atrás da janela do sujeito. Tinha escutado muitas histórias sobre o vizinho, ele mexia com magia negra, traficava… O pai do Enzo tinha incorporado Zé Pixote, espírito de um amigo, dizia, cuja morte ele tinha presenciado. A mãe tinha procurado um Centro Umbandista cujo chefe espiritual era o Seu Meia Noite, o Exu que o Enzo incorporaria um dia. A mulher seguiu os conselhos do Pai de Santo e viu uma melhora no marido. Ela ficou agradecida ao Centro e continuou a frequentá-lo até descobrir que o marido fingia a incorporação de Zé Pixote.

A senhora tinha voltado do trabalho, abrira a porta de ferro e plástico, os vidros quebradiços… Como de costume, a porta ficou presa no carpete, “Porra!”, a mulher gritou e não era um habito, mas naquele dia estava nervosa demais. A patroa tinha ameaçado demiti-la se ela não aceitasse uma diminuição de salário. “Os ricos”, pensara “querem ser mais ricos”.

“Querida”, disse o marido, de bermuda, sem camisa, sentado no sofá, a mesa cheia de papelotes de cocaína, “Vim visitar o teu amigo, o meu burro hoje não tá bem”, “Vim te dizer que este cara que cê casou, ele é demais!”, “Cê deve servir o meu burro porque ele merece!” repetiu o senhor Uchoa e a senhora se deu conta que o Zé Pixote era uma palhaçada. A decepção foi enorme porque ela tinha acreditado e agora descobria que o marido fingia ser possuído por este ou outro espírito. O espírito dele se chamava cocaína, vício se chamava o espirito dele.

Enzo encarou a gárgula com asas, rabo, o olhar insensato e sentiu uma presença maligna nele, no corpo dele. Um encosto, um fluxo negro, um impulso repugnante, uma vontade de esquecer tudo, desaparecer, sumir dali e do mundo, desceu, pegou uma faca e sim! Agora cortaria a garganta e acabariam os maus espíritos, os maus presságios… A senhora Uchoa ouviu um barulho na cozinha, levantou, o marido dormia. Abriu a porta e reparou com o filho empunhando a faca, na garganta. Empurrou-o contra a pia.

Silvia viveu uma infância e uma adolescência tranquilas. A cada dezembro viajava com a família para Governador Valadares e passava dois meses sem pensar em nada, curtindo a natureza. No Rio, continuava frequentando o terreiro da tia avó e a preta velha Vovó Maria Conga um dia disse à sua mãe que uma das filhas deveria dar continuidade àquilo. A mãe não queria que as filhas carregassem a responsabilidade. Silvia, porém, sentia vibrações, quando entrava em determinados lugares ela percebia as larvas espirituais encostadas nas paredes, nos cantos, e isso acontecia com Maria também.

A pretinha não tinha proteções, não tinha filtros. A mãe a levava para o hospital cardiológico de Laranjeiras, mas ninguém entendia o que havia com ela.

Com dezesseis anos uma amiga a convidou para a Igreja Universal. E ela teve o seu segundo contato com a Umbanda. Porque a igreja acreditava na feitiçaria, eles invocavam as entidades para destruí-las. Nas sessões chamadas de “correntes de saúde”, Maria se lembrou de quando, pequenina, a mãe a levara para a Bahia e, dentro de um terreiro, ela viu as entidades como elas eram.

Na Igreja Universal o medo deu lugar à identificação e Maria ficou com pena por algumas entidades castigadas pelos pastores.

 

 

O vizinho morreu assassinado, logo depois Enzo adoeceu e a senhora Uchoa entrou para a Igreja Universal.

Febres repentinas, altas, e fortes dores de garganta. Não todos os dias. De dia, principalmente, à noite se acalmavam. À noite, quando Enzo tinha seu compromisso com o diabo da janela do vizinho. Apesar da morte do sujeito, a gárgula estava lá e o Enzo sentia irresistível vontade de olhar.

A senhora Uchoa o levou para o hospital, Enzo tomou antibióticos, antialérgicos, mas as febres não passaram.

A mãe não sabia se se desesperava pela sorte do menino ou se o  odiava pelas coisas que ele dizia. O filho falava de espíritos como tinha feito o marido, mas Enzo não tinha outro assunto, não tinha outro interesse além de esperar a noite para ver a gárgula. Não jogava futebol, não soltava pipas, não ia à praia.

 

Os doentes se reuniam ao redor do altar na igreja cheia, o pastor dizia: “Se a doença foi originada por obra de feitiçaria, isso agora vai acabar!”. Os paralíticos, deprimidos, os dependentes químicos o olhavam cheios de esperança. “Venham feiticeiros, chegou sua hora!”.

Um monte de gente caía no chão. “Chegaram as entidades”, diziam entre si os que não tinham caído. O pastor gritava: “Queima Pomba-Gira, queima Exu Caveira, Vovó Maria Conga… queima!” e todo o mundo repetia, as mãos na cabeça, os olhos reviravam, alguns desfaleciam, outros gritavam: “Queima em nome de Jesus!”.

“De agora em diante não vai mais perturbar este corpo, este corpo não te pertence mais e a doença vai sair, em nome de Jesus!”, gritava o pastor, e isso incomodou a Maria.

Porque ela tinha um carinho, desde a infância, pelos espíritos. Um laço, alguma coisa. Estes espíritos da Igreja Universal pareciam demônios e ela não se lembrava das entidades da Umbanda em que a mãe tinha acreditado, os espíritos que tinha visto desde criança ou as entidades da rezadeira, feito demônios. Por isso saiu da Igreja e, junto a uma amiga, entrou para o kardecismo.

Leu romances espíritas, participou das sessões até que deu gargalhadas e atuou com gestos de pomba-gira. O doutrinador veio até ela e lhe disse que aquele espírito não podia estar ali porque era inferior, ainda precisava de elementos materiais como cigarro e álcool enquanto os espíritos superiores precisam só da comunicação com os encarnados.

O doutrinador encaminhou Maria para o curso de desenvolvimento para ela trabalhar, um dia, como médium passista ou médium da corrente.

 

Mariazinha da favela do Andaraí disse para Silvia que a sensação da incorporação equivalia à morte. Ela não queria que a neta desenvolvesse, tentou amedrontar. As queridinhas da família não deviam carregar tamanha responsabilidade. Cuidar do santo era um compromisso e significava renunciar a muitas coisas. Seguir o caminho da religião não era para qualquer um e se tornava necessário só em casos desesperados ou na presença… de um grande amor!

A mãe de Silvinha fez uma promessa: se conseguisse comprar uma casinha, ela daria uma festa para as crianças espirituais e materiais. Silvia, agora com quinze anos, quase não frequentava o centro da Mariazinha, mas decidiu participar.

Alguns dias antes, ela estava na casa de uma amiga em Campinho. A amiga a convenceu a visitar um Centro em Madureira, em que ela devia fazer um trabalho com a preta velha Vovó Catarina.

Silvia esperou fora do quarto enquanto a vovó jogava os búzios. A mãe de santo cobrava e a Silvia não tinha dinheiro nem intenção de perguntar nada. Estava namorando um rapaz fantástico, tudo ia bem.

A vovó desceu e mandou chamá-la. Ela entrou no quartinho amarelo, cheio de guias e incensos.  Disse que estava sem dinheiro, a vovó respondeu que não importava.

Silvia sentou no meio das pernas da velha que a cobriu com a saia. Era uma negra gorda. Pegou a esteira de búzios e jogou. Depois disse:

“Filha, o seu tempo chegou. É o momento de cê vestir o branco e cumprir sua missão espiritual”.

Silvia segurou os cabelos pretos com as duas mãos. Chorou.

“Essa perna de calça que cê tá se engalfinhando não vai ficar com você”.

– Eu gosto dele! – replicou Silvia, que não queria deixar o namorado.

E continuou a chorar.

“Tem otro home em seu destino, ele está chegando e vai te levar pro caminho espiritual.

Carrega um cigano formoso, é com ele que cê vai dar continuidade. Na hora certa cê vai saber quem ele é.”

A velha levantou a mão, Silvia sentada no meio das pernas, coberta pela saia, a esteira dos búzios em cima da cabeça da garota, em prantos soltos.

“Pega aquela boneca”, disse Catarina à cambona.

A moça pegou uma boneca cigana, de cabelos pretos até a cintura, encaracolados, um vestido colorido, saia, uma blusinha amarela, a tiara na cabeça com uma pedra rosa. Nas mãos, a boneca tinha um baralho, aberto.

“O home vai te dá uma boneca igual a essa”, disse a velha, “nesse momento cê vai saber que ele é o home que eu tô falando. Quando ele te dá a boneca, cê escreve seus desejo no papel e amarra na saia da boneca”, continuou a velha.

 

A senhora Uchoa levou o filho para a clinica Samci, na Tijuca, a febre estava alta demais. O doutor a medicou e a mandou voltar para casa.

Mãe e filho chegaram ao morro, abriram a porta de ferro e vidro. O senhor Uchoa jazia bêbado, no sofá, perto do filho mais novo. De repente Enzo, com doze anos, incorporou Jorginho o Malandrinho. Sua primeira entidade.

Jorginho chamou os pais do Enzo para conversar, disse que o filho mais velho precisava de um terreiro para se tratar.

A senhora levantou apavorada e ligou para o pastor.

No mês seguinte, os Uchoa receberam inúmeras visitas dos pastores da Igreja Universal.

No morro, todo mundo comentava.

Inclusive os primos do Enzo, que eram da Umbanda.

O povo falava da doença do garoto, tinha quem acreditasse que o menino era louco, quem achasse que estava doente e prestes a morrer e quem dissesse que isso era coisa do espirito e não só da matéria.

Os pastores falavam de feitiçaria.

Começaram a tratá-lo em casa, rezando e pedindo para o demônio sair daquele corpo.

O Enzo achava uma loucura e mostrava vontade de rir.

Em quem acreditar?

Na mãe que fora umbandista, vestia roupa branca para curar o pai, tirou a roupa branca quando descobriu que o marido se drogava e fingia a incorporação imitando os trejeitos dos incorporados, aí decidiu entrar para a Igreja Universal que odiava entidades, espíritos, umbanda e candomblé?

Acreditar em Jorginho o Malandrinho, sua primeira entidade, que tinha pedido aos pais para levá-lo a um centro?

Acreditar na vontade louca de espiar na escuridão da casa do vizinho, onde o demônio, tentador, o esperou, o encarou e lhe deu a inspiração de se matar?

 

Mãe e filho assistiram à corrente toda. Quando os crentes já estavam saindo, a senhora levou o filho até o pastor. Os três oraram juntos e Enzo recebeu um espírito. Mãos abertas para trás, os dedos se movimentando como fossem asas, era a gárgula? O pastor gritou: “Está reprendido em nome de Jesus. Queima ele com o sangue do cordeiro!”. O espírito firme em sua posição. “Queima! Sai demônio! Está amarrado!”, disse o pastor, mais alto, e o espírito foi embora.

Enzo levantou. Outros pastores chegaram perto dele. Perguntaram o nome dele para ver se o espírito tinha saído de verdade. Depois passaram azeite doce na cabeça do Enzo e desenharam o sinal da cruz. Disseram-lhe que estava livre, que a partir daquele momento não receberia espírito nenhum.

Enzo e a mãe se afastaram do altar em direção à porta principal. Os fiéis ainda nos bancos, nas cadeiras. A igreja não estava tão cheia. A maioria estava louvando, rezando, alguns, de mãos abertas, na direção da mãe e do filho, diziam: “Sai Satanás e não volta mais!”. Havia outros enfeitiçados que esperavam a consulta, a benção do pastor.

A luz do dia entrou através da porta e Enzo incorporou Jorginho o Malandrinho. Tossiu. Andou mais lento. Abraçou a mãe do Enzo e disse: “Tira o sapato do meu pé”. O tom da voz era baixo. A senhora Uchoa, cheia de vergonha, ajoelhou-se em frente ao filho e tirou o sapato dele, ainda na igreja. Jorginho o Malandrinho gostava de ir descalço. Saíram. O pessoal olhando, comentando. Alguns fingindo não ter entendido. O diabo já estava repreendido, como poderia ter voltado? A oração do pastor fora fraca demais? Ou não tinha tido suficiente fé? Era o diabo, era o capeta que percorria caminhos tortos!

Jorginho e a mãe do Enzo dobraram a esquina e Jorginho disse: “Mulhé, eu não quero mais o meu cavalo neste local… se ele voltar, não vai ficar bom, mulhé, pra você e pá ele”.

 

Maria encontrou um homem bonito.

Ela o viu pela primeira vez dentro do ônibus. De boné colorido, alto, esguio. Com um colar no pescoço, no braço esquerdo a tatuagem de São Jorge, em cima do cavalo, a lança na boca do dragão. O sujeito a ajudou a descer, ela agradeceu, ele pediu o número de telefone. “Atrevido!”, pensou Maria. Gostou da cor dele, ela preferia os brancos, era a sua fraqueza. Já tinha namorado, não era mais menina, mas apaixonar-se… Nunca!

Esse cara andava feito um malandro, gingando que nem numa pista, era um dançarino e, entre uma aula de dança, as festas e o estudo, adorava namorar.

Maria conseguiu conciliar a religião, o trabalho, o estudo e o relacionamento com Jorginho. Sentiu-se muito feliz. Agradecida a Deus, à mãe, à irmã e ao Jorginho. Pensou em seu passado: na visita ao terreiro quando criança, na morte do pai tão de repente, em sua doença que agora apertava menos, nas idas e vindas dentro e fora da Igreja Católica, na descoberta do kardecismo.

Ela e o Jorginho costumavam conversar sobre religião… Maria tinha uma fluência verbal fantástica.

Decidiram morar juntos. Os dois tinham emprego. Maria, graças ao estudo e à mãe, que tinha insistido tanto. E Jorginho, graças ao seu talento. Mas ele era filho de Ogum, amava a aventura e não gostava de se prender a nada. Maria entendeu isso durante as duas noites em que o marido não voltou. A moça ficou nervosa. Ligou para o trabalho dizendo que estava doente. E Jorginho só chegou ao meio dia, de terno branco, chapéu branco e vermelho de malandro. O sorriso irresistível, de criança. Bêbado.

“Jorge, eu não mereço!”, gritou Maria.

“Fui trabalhar”, disse Jorginho.

“Trabalhar o quê? Tu chega bêbado, ao meio dia, te parece hora de voltar do trabalho?”

“Não enche, mulher”, disse Jorginho e Maria foi chorar, no quarto.

Não passou meia hora, o Jorge veio atrás, todo perfumado. “Me desculpa, mulher”, disse baixinho, “peidei na farofa”.

Maria riu da expressão dele.

A pretinha se despiu e fizeram amor em frente ao ventilador.

 

Enzo tinha treze anos quando a prima o convidou para um terreiro, no Andaraí.

A mãe tinha dito que a macumba fazia mal, que era coisa ruim, do demônio, e que o Jorginho Malandrinho do filho e o Zé Pixote do pai eram invenções da cabeça deles. Excesso de fantasia, no caso do Enzo, vício e dependência no caso do senhor Uchoa.

Enzo continuava confuso. A mãe o tinha obrigado para entrar na Igreja Universal e ele fazia parte do grupo jovem, mas não gostava. Tinha desacreditado dele depois da sessão de descarrego, quando o pastor humilhou o espírito da gárgula e o Jorginho. Ele, de fato, tinha um carinho pelos espíritos que o fez se sentir bem, que o fez se identificar com o terreiro.

Achou tudo muito estranho, os santos da Igreja Católica no altar junto com índios, escravos e um Jesus Cristo sem cruz. Mas, curioso, assistiu à cerimonia toda, escutou os cantos, a gira já estava no final quando o Boiadeiro da Campina tirou o chapéu de couro da cabeça e o colocou na testa do Enzo. O Boiadeiro pegou o chicote e o jogou para trás da nuca do Enzo, segurando. O filho do senhor e da senhora Uchoa vibrou e balançou de um lado e do outro. As pernas numa dança só iniciada. As mãos em movimento de corrida. O coração disparou, as palmas transpiraram e Enzo ficou com medo. O Boiadeiro viu que o garoto não ia incorporar e soltou o chicote. Logo em seguida a macumba acabou e Enzo subiu o morro através do valão, das lojinhas fechadas naquela hora da madrugada, os bares com os últimos bêbados, inclusive o pai dele.

Cruzou o caminho, pulou em cima do riacho que cortava a favela no meio e, em frente ao portão de ferro, plástico e vidro, viu a mãe! Esguia, olhar feroz. As mãos entrelaçadas em baixo dos seios. Os cabelos encaracolados não penteados. Não tinha dormido. Tinha esperado pai e filho, cheia de medo.

“Cê foi aonde?”, disse.

“Num terreiro, com a minha prima”, respondeu o pequeno Uchoa que não mentia nunca.

“Aonde?”, gritou a senhora, descendo os três degraus. Apanhou o filho pelo pescoço.

“Dói, mãe!”, disse Enzo.

“Dói o caralho, seu filho da puta!”, comentou a mãe, cheia de raiva por não ter dormido.

Empurrou o Enzo até a porta.

“Não, mãe!”, disse o menino.

Dentro de casa a senhora apanhou a vassoura e bateu nas costas da criança. Depois pegou o cinto. Enzo em cima do sofá, a calça até os joelhos. Quinze cintadas, bem dadas.   A mãe chorava, o filho chorava também. A porta se abriu e o pai, inseguro, ingressou na sala humilde, à luz da lua cheia que entrava pela janela e apontava a mesinha e os sofás marrons. Mãe e filho pararam. O pai não disse nada, fez de conta não ter visto nada. Não tinha força nem vontade para interpretar aquilo. Porque no dia seguinte ele ia trabalhar, como garçom, num restaurante na Tijuca.

 

Maria e Jorginho tiveram uma filha linda, a cara do pai.

A preta trabalhou até o nono mês, depois tirou sua licença e ficou em casa, cuidando da menina e dos afazeres domésticos.

Jorginho ia dançar, o pacto fora que ele voltasse antes da uma da manhã. Isso significava perder algumas horas e oportunidades de trabalho, mas o Jorginho aguentou em nome da unidade familiar. Maria nunca tinha se sentido tão bem. Estava cheia de amor pela filha, pelo marido e pela vida. Parou de ir ao Centro Kardecista, mas, quando podia, ia à Igreja Católica e assistia a missa.  Decidiu ensinar o Pai Nosso para a filha, assim que ela entendesse. Por enquanto rezava sozinha ou com o Jorginho.

A mãe e a irmã ajudavam, ajudavam também os vizinhos do apartamento da Estrada Vital, em Quintino.

Uma rua fechada onde todo mundo se conhecia.

Quando faltava açúcar, Maria entrava na casa do morador ao lado, nem precisava tocar a campainha.

Os meninos cresciam juntos.

O pai em casa, o pai dançando, a mãe em casa, a mãe no trabalho, no centro da cidade, em uma firma de traduções.

 

Passou um ano de muito carinho, amor, compreensão. Passou um segundo ano mais complicado porque Maria voltou a sentir câimbras, palpitações. Eram energias que ela devia jogar fora, agora tinha entendido, a mediunidade era um copo cheio d´água, quando a água transbordava ela devia desacumular. Voltou ao kardecismo, às leituras, ao estudo da doutrina. Acalmou-se, não tinha motivo para aquela ansiedade toda.

No terceiro ano de vida da filha, o marido a traiu.

Maria reparou logo porque Jorge era diferente, mentia.

“Onde você estava?”, “No trabalho”, “Até às cinco da manhã?”, “Temos ensaio”, “Ensaio pra que?”, “Pra festa junina”, “Em março?”, “É uma festa demorada…”.

Voltava bêbado, a pretinha se lamentava, perguntava e o rapaz não dizia “peidei na farofa”, não ria, cada dia procurava ser menos irônico.

À noite a amava feito máquina.

Comiam feijão com arroz e ele nem a olhava.

Não beijava a menina, só um carinho quando lhe dava vontade.

Uma noite nem chegou em casa. Não voltou no dia seguinte, só apareceu no terceiro amanhecer. Maria cheia de raiva. Sem vontade de brigar. Preocupada, mas sem desespero.

Decidiu consultar uma cartomante na Abolição, perto de Quintino.

Uma casinha com quintal. As janelas de ferro e vidro. A porta azul com um berço logo na entrada. Maria era ansiosa, já tinha pedido para o Jorge sair de casa, ele tinha feito cara de malandro, “Vou visitar a minha filha todos os fins de semana”, tinha falado.

A cartomante era uma mulher branca, gorda e suja, vestida de azul.

Maria sentou-se no quartinho, pagou. Olhou para as paredes, tinham infiltrações em cada canto do quarto, de cor azul.

A senhora mostrou o baralho, jogou e leu as cartas. Disse que a amante do marido tinha feito uma amarração. Mandou preparar comida para a Pomba-Gira, disse a Maria que isso acontecera porque ela não cuidava da Pomba-Gira. Uma Pomba-Gira fortificada teria se oposto ao trabalho e Maria não perderia o Jorge. Mas ainda dava tempo.

Maria, porém, decidiu não fazer nada.

 

Com quatorze anos Enzo começou trabalhar num laboratório em Vila Isabel. Ele ia até as casas das pessoas apanhar o sangue e trazia para o laboratório. Se um enfermeiro, enfermeira, um médico ou uma medica quisessem um salgado ou um açaí, ele ia ao bar e comprava.

Enzo, com três anéis de prata nos dedos e um vistoso cordão no pescoço, estava no refeitório do laboratório, a quentinha na mão. Sentou-se e logo notou uma morena gostosa, fitando-o. Ela sentou-se perto dele.

“Sabia que você tem um malandro?”, disse a mulher.

Enzo ficou assustado.

“Você tem um malandro!”, repetiu a mulher.

“Como é que você sabe?”.

 

A mulher disse que ela sentia essas coisas e conhecia um centro. Iria levá-lo junto com ela, se ele quisesse.

O rapaz, sem dizer nada para a mãe, visitou pela primeira vez o Centro Espírita Filhos de Xangô numa festa de Cosme e Damião.

E logo reparou no Francisco, de bigode, em cima de um cavalinho, incorporando o Zezinho da Mata.

E na Mariazinha da Sofia comendo doces à vontade.

Enzo achou-os um bando de débeis mentais. E sentiu vontade de ir logo para casa. Mas o centro oferecia comida e ele estava de barriga vazia.

O garoto sentiu atração por Sofia, achou-a muito bonita. Mariazinha notou o interesse e chamou o Enzo até ela.

O espírito da criança estava comendo uma enorme fatia de bolo.

“Quer um pedacinho?”, perguntou.

O Enzo foi pegar com a mão.

“Tem que morder”, disse a criança, os cabelos soltos sobre as bochechas.

Enzo foi morder e a Mariazinha bofou o bolo na cara dele.

O adolescente não suportou a visão dos consulentes e dos médiuns rindo.

Porque ele tinha a pele clara, os traços gentis, mas o coração duro como pedra.

Fugiu. Saiu do Centro pensando em nunca mais voltar.

 

Maria, convidada por um amigo, visitou pela primeira vez o Centro Espírita numa gira de Exu.

Os médiuns com vestidos de diabos. Fumando, bebendo.

As Pombas Giras parecendo ciganas ou mulheres de bordel.

Estava cheia de medo e logo viu uma mulher querendo recebê-la na saída do pequeno pátio com as casas dos Exus, dos Pretos Velhos, de Obaluaê, do Boaideiro, do Caboclo Cobra Coral e a água de Mamãe Iemanjá, brotando.

Uma mulher vestida de vermelho com a coroa na cabeça chamada Dona Sete.

Abraçou Maria, e ela dura como um pedaço de pau.

O que estou fazendo aqui?, perguntou-se e logo lembrou a visita quando pequena no terreiro da Bahia.

“Quantas pessoas moram na sua casa?”, perguntou Dona Sete.

 

“Mora eu, minha filha, minha mãe…”, ela respondeu.

A mulher balançou a cabeça.

“E tem o pai da minha filha que vai visitá-la”, disse Maria.

 

“Foi aí que a merda começou!”.

 

Dona Sete explodiu numa risada.

Maria fitou-a, cheia de perguntas, e achou-a interessante.

Dona Sete falou um bocado e confirmou tudo quanto dito pela cartomante, ou seja, o Jorge tinha sido amarrado por um trabalho feito pela amante dele e isso tinha acontecido porque a Maria descuidara da Pomba Gira dela. Dona Sete não ia fazer nada, o importante agora era a Maria cuidar de sua mediunidade.

 

A morena voltou à carga e convidou Enzo para uma nova sessão. O rapaz, branco de cabelos pretos, aceitou sem saber por quê. Ele tinha refletido, tinha pensado e decidido que não voltaria àquele lugar. Mas, frente à linda mulher de cabelo encaracolado e à possibilidade de ver de novo aquele bando de desequilibrados, não resistiu.

Era doze de outubro, festa de Malandro. O terreiro estava cheio, cada carrão fora da porta. Naquela época os consulentes vinham da Zona Sul ou da Tijuca e tinham grana. Enzo ficou de boca aberta.

O malandro Paulo Paulinho da Mangueira, espírito do Francisco, já tinha descido. Estava no centro do terreiro sentado numa mesa, convidando a assistência para falar com ele. De repente parou tudo e disse: “Quem mora no morro, aqui?”.

Enzo, tímido, num canto, levantou a mão.

“Cê tá com quem?”, perguntou o Malandro.

“Tô sozinho”, disse Enzo. A morena, de fato, não tinha vindo alegando uma dor de cabeça.

“Tá sozinho…”, exclamou o espírito, “Então entra!”.

Paulo Paulinho da Mangueira recebeu Enzo feito um rei. Esperou-o na mesa, o fez sentar com ele, lhe ofereceu comida, cerveja e lhe fez um monte de perguntas. Quis saber com quem ele morava, o que é que ele fazia na vida… O adolescente se sentiu acolhido. Enquanto falava, sentado numa cadeira, incorporou Jorginho o Malandrinho. Jorginho também falou com Paulinho e Enzo decidiu seguir os conselhos dos dois malandros. Foi assim que pensou, pela primeira vez, em fazer parte do corpo mediúnico do Centro Espírita Filhos de Xangô.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3.

 

Francisco e Claudia, sua esposa, foram falar com a mãe do Enzo para convencê-la de que os umbandistas não eram um bando de loucos ou adoradores do demônio.

Ele começou a se tratar com a Cabocla Olariana da médium Francisca e o Caboclo Flecheiro do médium Roberto.

A Cabocla energizou com banhos de descarrego e o Caboclo suavizou, com ervas.

Enzo tinha mudado de trabalho, agora era artesão na escola de samba Unidos da Viladouro e tinha a possibilidade de ver o carnaval florescer, dia por dia.

Ajudava a fabricar as máscaras, cortava a madeira e, quando lhe pediam, dizia sua opinião. Um trabalho temporário era melhor do que nada, assim pensava o filho da senhora e do senhor Uchoa que também incorporava suas entidades, todas as noites de sexta feira.

Eram espíritos firmes, Enzo não tinha aquela coisa de ser possuído “mais ou menos”, o que acontecia com muitos médiuns. Porque a maioria levava meses, às vezes anos… O santo permanecia em terra por alguns minutos e saía deixando o médium confuso. Aos poucos, através de reflexões, leituras e conversas, eles acabavam aceitando e permitiam que os espíritos ficassem mais à vontade.

Com Enzo veio logo uma incorporação duradoura de entidades que sabiam o que queriam. Mas ele era muito jovem, o Francisco e o preto velho do Francisco, Rei Congo das Almas, decidiram que devia esperar para se tornar médium de consulta.

Enzo frequentou o terreiro do Francisco durante o ano em que pediu dinheiro emprestado para pagar as mensalidades.

Depois, sem dizer nada para ninguém, entrou no Centro do Andaraí, onde já tivera contato com o Boiadeiro da Campina, cujo chefe era a Mariazinha, tia avó da Silvinha.

Magro, olhar perdido, cabelo despenteado, subiu o morro atrás do terreiro da Maria; por ele, participar de uma comunidade espírita era o único jeito de ter um equilíbrio.

 

A Dona Mariazinha o acolheu nesse lugar humilde.

Antes das sessões, ela preparava um balde de ervas e os médiuns tomavam um banho coletivo para economizar a água.

Tinha uma boa irmandade, por ser um grupo menor, e não tinha carrões nem rolava muita grana. Os médiuns rachavam entre eles e Enzo não gastava um tostão.

Depois da macumba, a Mariazinha fritava os pastéis.

 

O preto velho Pai Joaquim do Catimbó desceu e riscou os pontos chamando para si a responsabilidade das consultas.

Enzo também passou a trabalhar com a preta velha Vovó Cambinda.

E com Zé Pelintra, a mais falada de suas entidades, um malandro que descera pela primeira vez numa obrigação de mata, com o Francisco.

Em frente a uma cachoeira, Pai Francisco e os médiuns tinham cantado para Exu, mas o Enzo não incorporara. Cantaram para o malandro também, aí chegou o Zé Pelintra. E se aproximou de uma médium que costumava incorporar Zé Pelintra.

“Cê me conhece!”, disse Zé. “Conheço e trouxe presentes pro senhor”, respondeu a mulher mostrando a garrafa de cachaça, o cigarro de palha e o chapeuzinho das festas juninas.

Zé gostava de fumar e olhar o panorama. Dava consultas só do lado de fora do Centro no Andaraí, observando o morro todo, o relógio da Central do Brasil e a ponte Rio Niterói.

Uma vez Zé pediu para Enzo um terno branco. O médium estava desempregado e morava com a mãe, os pais já tinham se separado. Ele fora para a casa do pai, disse que estava com saudades e queria passar a noite com ele. O homem estranhou, mas ficou com o menino e contou do trabalho. Não quis comentar o caminho espiritual do filho porque não gostava. Foram dormir, o pai levantou cedo para ir ao restaurante e se deu conta de que o terno não estava mais no armário!

Anos depois de o Enzo e a Silvinha ficarem juntos o Zé Pelintra compareceu, numa sexta feira santa. Eles estavam no quarto de cima da casa da mãe dela, no Alto da Boa Vista. Eram onze e meia da noite. “Vá lá embaixo pegar alguma coisa pra gente comer”, disse Silvinha e Enzo desceu.

Subindo as escadas de volta com a comida na mão, Zé Pelintra incorporou nele. De sunga, Zé disse: “Bota a roupa em mim que vou lá fazer um negocio”. Os dois saíram, o Zé com um copo de água e sal na mão; quando chegou o momento, ele mandou a garota aguardar e foi sozinho até o portão. Alguém estava fazendo um trabalho contra a mãe da Silvia. O Zé ficou parado, no jardim, em meio às flores, o telhado colonial na sua frente. Silvia atrás da coluna branca, espiando. De fora, jogaram um gato preto, vivo, com uma fita no pescoço. Zé Pelintra pegou o gato que tinha caído na abertura em cima do telhado. Pediu a bengala para a Silvinha, que saiu do esconderijo, subiu até a casa, voltou e correu até ele.

O malandro segurou o gato com a bengala, cruzou, jogou água e sal e lançou de volta, além do portão.

 

Vovó Maria Conga, incorporada na Mariazinha, atendia as mulheres gravidas, ela via os meses, as fases da lua, jogava os búzios para controlar se tudo ia bem, se precisavam de algum trabalho espiritual ou de chá, ervas, comida. Era muito procurada e ajudou o Enzo a se tornar querido pelos consulentes.

O jovem Uchoa não tinha trabalho nem o procurava mais, vivia no terreiro, de branco, dava consultas todos os dias ou fazia alguma macumba na floresta, no morro, nas encruzilhadas. Só vivia pelo santo e só queria saber de incorporar.

Não se interessava em namoro nem em coisas de adolescente.

Dormia num quartinho, em baixo da casa da Maria. A dona do terreiro morava em cima de uma escadaria e ele perto da lavanderia. Na segunda feira em que a polícia fez uma blitz no morro, ele estava dormindo neste porão, numa caminha simples.

Os homens pularam o muro e deram de frente com a janela. Empurraram a porta, entraram, cutucaram o sujeito, na cama. Enzo acordou e logo reparou nos caras, de máscaras. Pediu calma, levantou. Eles deram uma revista geral e o algemaram. O médium saiu, começou gritar, eles o seguiram, o empurraram dentro da lavanderia. E o espancaram.

Era o começo de janeiro e Maria acordou assustada. Desceu as escadas, disse “meu filho, não faz isso com ele não, ele é bom, trabalha no santo”. Os policiais entenderam e o deixaram na lavanderia, todo machucado.

Maria botou gelo, segurou o jovem. Ainda estava tratando dele quando seu Zé desceu. “Vou matar esses filhos da puta, seus merdas, caralho!”, gritou, “Nenhum que meteu a mão nele vai ficar de pé!”.

Naquele dia a mãe da Silvia, encorajada pela Maria, tinha marcado consulta com a vovó Cambinda, preta velha do Enzo. Ela estava procurando uma solução para os problemas do pai, avô da Silvinha, que estava deprimido e tinha tentado meter fogo na casa.

Silvinha e a mãe chegaram e repararam no Zé, xingando.

Zé Pelintra pediu a elas que aguardassem.

E fez um feitiço, uma macumba para proteger o médium Enzo, seu cavalo.

Pegou uma cebola roxa, uma pimenta malagueta, um monte de agulhas, cachaça e velas. Cortou a cebola, colocou pimenta no meio, com uma linha amarrou as agulhas na cebola. Prendeu as duas partes da cebola e amarrou tudo com uma linha preta. Pediu para a Mariazinha comunicar ao cavalo de lavar suas mãos com a cachaça em cima deste trabalho e jogar a cebola dentro de um valão negro, acender as velas e aguardar. Um dos porcos teria comido a cebola e morrido. Seu sacrifício protegeria o médium dos policiais.

Seu Zé tinha acabado de fazer o trabalho quando Silvia, de cabelos pretos e pele clara, entrou no quarto e reparou em Enzo, sem os dois dentes da frente. Mas não foi a polícia que os arrancou, ele era pobre e não tinha dinheiro para ir ao dentista. Nem tempo tinha, porque só pensava em santo.

Essa, porém, não foi a primeira vez que os dois jovens, de dezesseis anos, se encontravam.

Alguns meses antes, na festa de Cosme e Damião prometida pela mãe da Silvinha ao santo em troca da casa, a garota já tinha reparado nele, branco, baixinho e sem dentes.

Silvia tinha entrado no terreiro e sentado ao lado do atabaque, tocado pelo tio dela.

O menino Enzo, que vivia no centro, chamou a atenção da garota enquanto bebia água e colocava os guias, logo na abertura da gira.

O garoto incorporou uma criança e Silvia nunca tinha visto um rapaz da idade dela, incorporar. Ainda lembrava as palavras da Vovó Catarina, “Cê vai dar continuidade…”.

Ela ficou ao lado do Tio, ogã da casa.

A criança do Enzo se aproximou. E disse para ela parar de beber e Silvia tinha acabado de passar mal em casa de amigos. Tinha sido hospitalizada.

Disse que aquela vida não era para ela, que ia se consumir e devia parar de mentir à mãe dela. Silvia não tinha falado que fora numa festa, e nem da visita ao pronto socorro com a irmã do amigo dela. Eles usavam drogas e Silvia estava seguindo o mesmo, torto, caminho.

A menina ficou até o fim da gira, quando saiu do terreiro já era noite. Adormeceu na casinha de baixo onde o Enzo costumava dormir, quando acordou reparou no médium, fitando-a. De repente a mãe passou para buscá-la e lhe disse que já tinha marcado o trabalho com a vovó Cambinda para proteger a casa e melhorar a saúde do avô.

Naqueles meses ela não parou de pensar nele, pediu noticias à Mariazinha e aos familiares e lhe falaram que Enzo era um garoto pobre, os pais moravam na favela, ele vivia no centro, não era o homem para ela e nem tinha dentes na boca.

No dia quatorze de janeiro Silvia e a mãe subiram a escadinha e depararam com a Mariazinha, chorando. A mãe de santo disse que tinha acontecido uma coisa ruim com o Enzo e a Silvia sentiu um aperto no coração… “Cadê ele?”, gritou, a Maria indicou uma porta, ela correu logo na lavanderia.

Encontrou o seu Zé tudo machucado, cheio de sangue. Ele pediu às duas que aguardassem, enquanto fazia um trabalho.

Silvinha parou à porta do porão, ansiosa.

 

Meia hora depois o malandro, sangrento e sujo daquele jeito, mandou a Silvia entrar. Pegou um baralho da mesa e a mandou tirar três cartas. Ela pegou, sem olhar.

Zé virou-as, uma a uma. Eram um coração, uma aliança e dois passarinhos voando juntos. O malandro sorriu. “Cê encontrou o home, ele encontrou a mulhé”, disse, “Boa noite…”. E a convidou a sair.

Silvinha então subiu à casa da tia, bebeu água, sentou-se enquanto Enzo continuou incorporado no andar de baixo.

O Zé tinha ido embora e tinha chegado a vovó Cambinda.

Enzo ficou incorporado à noite toda porque a vovó queria fazer um trabalho para o avô da Silvia e precisava que ele dormisse. Cambinda jogava os búzios e via que o avô estava acordado. De repente, ela disse: “Vê se tá dormindo”. A mãe ligou para casa. O velho descansava, aí a vovó realizou a macumba com velas e mel.

Já de manhã, Enzo incorporou o Pai Joaquim e mandou a Silvia descer. A moça estava no quarto da Maria, logo limpou o rosto e se apresentou frente ao preto velho. O espírito rezou, tirou a guia branca de Oxalá do pescoço, jogou fumaça do cachimbo e colocou-a no pescoço dela. “Tá chegando a hora cê de vestir o branco, filha, e começar sua caminhada espiritual ao lado do meu filho”. A mãe e a tia avó ouviram, mas fingiram não ter entendido.

Silvia, de fato, ainda não conhecia Enzo. Mas tinha ficado encantada pelas entidades dele: a criança, o vovô, a vovó, o seu Zé. Subiu para a casa da Maria com o guia no pescoço.

O céu tinha clareado e da escadaria se via o Rio de Janeiro, lindo como nunca.

Meia hora depois subiu o Enzo também, todo envergonhado. “Pó, tá quente, né?”, disse.

“Faz muito calor mesmo”, respondeu Silvia. E logo pediu para a mãe se podia ficar. Ela disse que não, mas a Mariazinha afirmou que não tinha problema, ia dormir na sua casa.

Enzo assim pôde conversar com a Silvia.

Contou-lhe sua vida, seus percalços, mas continuou acanhado, tímido. Porque era pobre, sem dentes e ela uma moça bonitinha de família.

Naquela mesma noite, porém, à luz de uma lua quentíssima, deram o primeiro de muitos beijos, em cima da laje da Maria.

O morro, a cidade toda aos seus pés.

4.

 

Francisco acordou de sobressalto, eram seis horas da manhã. Olhou para a cara da Marie, ela ainda estava dormindo. Levantou a coberta e logo pensou no sonho. O mesmo, fazia um tempo: ele com roupa branca, guias no pescoço, sentado no quartinho do cigano jogando cartas para ele mesmo do outro lado de uma mesinha, vestindo bermuda, camisa preta e sandálias. O Pai de Santo dizia para o Francisco que o caminho estava fechado, ele devia se preparar para enfrentar novos percalços.

Sentou, ainda na cama, sem camisa. Pousou os pés no chão, fez o sinal da cruz. Foi até o banheiro, escovou os dentes, tomou banho. Na cozinha encontrou a filha mais nova, que já tinha preparado o café.

“Estudou?”, perguntou-lhe, cheio de sono.

“Estudei”, respondeu ela.

Beberam, em silêncio. Francisco comeu uns biscoitinhos, “Vou comprar as verduras, depois pegar a carne, a cerveja e deixar no centro. Passa na lojinha e fala pra Luiza que nove em ponto estarei lá. Se o entregador chegar mais cedo, manda ela enrolar até a minha chegada. Não deve deixar ele ir, na ultima vez o leite estava vencido…”.

A filha fazia parte do Centro Espírita e incorporava uma mamãe Iemanjá que ficava de pé e rodopiava os cabelos, como ondas.

Sara, a esposa do Zé, tinha uma bonita mamãe Iemanjá também, que dançava e cantava com voz de sereia.

Silvia tinha uma Iemanjá que sentava e balançava os cabelos, quando a assistência se aproximava, ela a encobria com as ondas produzidas pelos cachos.

Francisco voltou ao quarto de casal, desta vez de bermuda, camisa, todo perfumado.

“Estou indo!”, disse.

“O meu beijo”, respondeu a esposa.

Ele curvou-se, deu-lhe um selinho e pensou que esta sim, era a mulher da sua vida.

Marie espreguiçou-se, pegou o travesseiro e o colocou em baixo dos cachos louros.

 

Francisco entrou no carro ainda pensando no sonho.

O de roupa branca agitava os búzios, a esteira na mesa, perto do punhal, do baralho, da caixinha de madeira. O de roupa comum fitou os búzios e pensou: “Me dá uma noticia boa”. Mas também pensou: “Esse cara colocou o punhal para amedrontar…”, “Coloquei o punhal para cortar as energias do consulente”, “Energia o quê? Você acha que eu acredito nestas bobagens?”, “Acredita sim”, respondeu o de roupa branca, “a maioria acredita e treme, na cadeira”, “Isso é o que você acha, filho da puta!”, “Não se permita falar assim da minha mãe”, “Me desculpe, ando meio descontrolado”, “Você está transtornado!”, “O comercio é cansativo, Pai, e eu não sou mais um garoto… até quando vou segurar a onda?”.

Na realidade ninguém dizia nada, mas o Francisco tinha a sensação, a percepção de uma conversa. Olhos firmes, aquele brilho divertido. Um relâmpago de gênio e de loucura em duas pessoas muitos sérias. Dois devotos porque, mesmo afirmando o contrário, o de roupa comum tinha fé. O outro nascera com o dom da adivinhação. O de bermuda era um líder insatisfeito, achando merecer a tranquilidade econômica. Agora que encontrara a mulher certa… A Marie trouxe suas lindíssimas filhas e lhe deu aquela paz, aquela força que tinha perdido ou desperdiçado. Mas como pagar as contas?

O de bermuda sabia, no fundo de sua alma, que ele era também o de branco e o de branco sabia que ele era o de bermuda. O de bermuda esperava que o de branco usasse sua arte, sua magia, sua bruxaria para ajudá-lo.

 

“Caminhos fechados, meu filho… Alguns problemas, uma grande perda. Tenha fé e paciência, tudo vai se resolver”.

“Qual perda, Pai?”

“Um familiar, não sei te dizer quem”.

“O que é que posso fazer para abrir meus caminhos?”

“Continue firme, suas entidades vão te guiar”.

“Pai”.

“Sim, filho”.

“É a minha mãe, não é?”

 

Francisco acendeu um cigarro com o isqueiro do carro. Fumou com vontade e nervosismo. Quase sete da manhã e ele estava no mercado.

Estacionou. Desceu.

Jogou o cigarro no chão.

Pegou um enorme carrinho.

Comprou flores vermelhas e brancas pela festa de Exu. Apanhou cenouras, bananas, morangos, limões.

Dez quilos de carne e cem latas de cerveja. Pediu a dois rapazes que carregassem o carro. Nos bancos de trás e no porta malas. Ligou o carro e logo se deu conta que a porta não tinha fechado. “Dane-se!”, pensou.

Às oito da manha chegou ao Centro Espírita. O Zé em frente à porta.

Francisco apagou o cigarro. Estacionou. “Cadê o Plínio?”.

Alguém abriu a porta, por dentro. Era o Plínio.

 

O Zé preferiu não carregar nada por causa da coluna, mas o Plinio era uma força da natureza. Em meia hora as latas de cervejas estavam na geladeira junto com a carne; as flores, ainda enroladas nos papéis, de molho nos vasos.

“Vou chegar às sete”, disse Francisco, “quero tudo arrumadinho”.

 

Pai Francisco, fumando o quinto cigarro do dia, chegou ao comercio junto com o fornecedor.

“Como vai, mestre?”, disse, pegando-o de surpresa. O rapaz girou e o viu, atrás de si. “Que susto, seu Francisco… o senhor pareceu um fantasma!”.

“Um fantasma? Ainda não, mestre…”.

“E a mercadoria?”

“O leite estava vencido”.

“Não é possível”.

“Vencido mesmo… Luiza!”, gritou Francisco.

A gerente compareceu à porta, de uniforme azul.

 

O fornecedor olhou as caixas.  “Não vai acontecer mais”, disse.

“Confio em você, mestre… Não me desiluda”, reforçou o Francisco.

O fornecedor fez que não com a cabeça, voltou à camionete e mandou os outros dois descarregarem as caixas de amido de milho, queijo e creme de leite.

 

O Pai de Santo e a Luiza verificaram as datas, nas fabricações.

“Então mestre, podemos aguardar nossas novas caixas de leite?”.

“Amanhã, oito horas?”

“Sim”, suspirou Francisco pensando que era sexta feira, festa de Exu e ele iria dormir às duas, três da noite e acordaria às sete.

O que é que o Pai de Santo disse?, pensou… Caminhos fechados!

 

Mas o sonho não acabava assim, ainda vinha a parte mais constrangedora.

Francisco, de bermuda e camisa preta, se ajoelhava na frente do Pai de Santo.

“Faz uma macumba pra mim!”, gritava.

“Muda logo tudo, tu não é capaz?”.

O Pai de Santo repetia: “Continue firme no teu caminho espiritual, seus guias vão te ajudar”.

“Não aguento mais!”, dizia o Francisco.

“Os guias vão te ajudar”.

“Faz uma macumba, Pai, chama o Exu Sete Encruzilhadas, chame o Caboclo Cobra Coral, o Preto Velho Rei Congo das Almas!”.

“Continue firme…”.

“Caralho, Pai!”, gritou o Francisco de roupa comum, se jogou no chão e pediu com todo seu coração uma melhora na saúde e uma boa morte para a mãe. Ele não queria que a velha morresse, mas, se isso estivesse prestes a acontecer, Francisco preferia uma boa morte a uma cheia de dor.

 

 

 

 

 

 

 

5.

 

 

Ficou na mercearia até a hora do almoço.

Um vai e vem discreto, o quanto bastava para pagar as contas, mas não a dívida com o banco… Ele devia ir ao banco também, para quitar a parcela mensal.

Pensou na mãe deitada na cama e disse a si mesmo que antes das sete da noite iria visitá-la.

Antigamente almoçava no “comida a quilo” da esquina, mas agora o restaurante estava cheio de peões falando disso e daquilo, um barulho danado. Não tinha mais vinte anos. Naquela época ele teria aguentado…

Pensando bem, ele não ia ao restaurante nunca. Nem se divertia. Com treze anos já incorporava o Seu Ogum Beira Mar e dava passes no centro de Irma que não lhe permitia dar consulta porque era novo demais. Ele tinha feito o mesmo com Enzo.

Pai Francisco se identificava com Enzo. Os dois não tinham aproveitado a adolescência como os outros rapazes, por causa dos compromissos com as entidades. De certa forma não tiveram escolha ou escolheram muito cedo.

Irma era uma mulher pequena. Morava na mesma vila do Francisco e da Sofia, cujo pai era filho de negra com italiano e cuja mãe descendia de franceses.

A prima de Francisco era uma morena clara e tinha pulso firme, que não obedecia, que não tinha compromisso não merecia vestir roupa branca. Havia reuniões nas terças e nas quintas. Nas terças, as palestras espíritas do Seu Sílvio, nas quintas, as giras de Umbanda Branca sem atabaques e sem Exus até o Francisco incorporar o Sete Encruzilhadas e surgir a necessidade de cultuar esta falange dentro do Centro. A Irma aceitou.

Ela cedeu também quando teve a indicação espiritual de deitar o pai de Sofia para Obaluaê, apesar da Umbanda Branca não prever o recolhimento pelo santo. Isto era Candomblé ou Umbanda cruzada com uma nação africana.

Mas disse “não” quando Seu Ogum pediu a Francisco que cumprisse suas obrigações noutro Centro.

 

Pai Francisco chegou em casa. Subiu pelo elevador. Abriu a porta. “Saudade do teu Caboclo, Irma, e do centro…”, no fim da rua havia uma ladeirinha e o portão, eles entravam, desciam um corredor fininho, subiam um escadão… A gira começava com a prece do Seu Sílvio que de tão careca brilhava, em baixo da lâmpada. No verão o suor escorria e ele enxugava com o lenço.

Francisco comeu feijão com arroz e bebeu um copo de limonada. A filha mais nova de Marie serviu a mesa e estranhou o padrasto não dizer sequer uma palavra. Estava cada dia mais pensativo.

“Me dá um copo d´água pra eu tomar o comprimido?”, ele disse.

A loira foi na cozinha, pegou a agua, levou até o padrasto.

Francisco bebeu, engoliu e ficou com a cabeça entre as mãos.

Olhou para o relógio. Devia ir ao banco.

Saudou a filha e saiu.

 

Uma fila danada.

Com a mão direita alisou o cordão de ouro e pediu calma e força ao Pai Oxalá.

Viu duas senhoras morenas com bolsas brancas, mas sabia que era uma mulher só.

Tinha a camisa aberta, na altura do pescoço. Alguns cabelos à mostra. O Rio de Janeiro estava quentíssimo, apesar de ser junho.

O aquecimento global…, pensou Francisco e finalmente sentiu um alivio. Uma espécie de vontade de dormir, deitar, um esquecimento rápido e necessário. Fechou os olhos e se lembrou de Sofia, quando jovem. Cabelo encaracolado, lábios carnudos… Ele adorava Sofia e teria gostado de brincar com ela e seus amigos. Mas, na vila, Francisco tinha fama de esnobe. Tinha alguns anos a mais que os demais garotos e não dava bola pra ninguém… Sofia era muito dada, todo mundo gostava dela.  Lembrou-se de si com dezoito anos e da Sofia com treze.  “Francisco, você vem?”, dissera a garota, “Tô com vontade não”, respondeu Francisco na porta de casa, em pé, os cabelos desajeitados até as costas. Ela fez uma cara de nojo. “Cabelo ruim!” chamava-o a Sofia e tinha razão. O cabelo era feio mesmo, por isso caíra tão cedo.

“Senhor”, disse a mulher do caixa.

Pai Francisco mostrou o boleto da dívida mensal, a conta da luz, do gás e do seguro de saúde.

Passou o cartão e pagou tudo, de uma vez.

 

Enquanto saía do banco, observou os guardas. Eram seis, ou melhor, três, mas ele via seis. Ou eram seis mesmo?

 

De tarde, a mercearia encheu-se de adolescentes voltando e indo para as aulas. Saíram salgados, batatas e refrigerantes.

Ideia genial a de abrir um comerciozinho, pensou Francisco. Vai dar certo sim, não pode dar errado.

A dor de cabeça tinha se acalmado e a visão dupla desapareceu. Acontecia sempre assim: as dores chegavam e sumiam sem aviso.

Ele estava cansado, tinha acordado cedo e ainda queria visitar a mãe e participar da festa de Exu.

Na manhã seguinte, encontraria o vendedor de leite vencido.

 

Eram cinco da tarde quando a enteada mais velha chegou, aos prantos.

Era a que mais parecia com a Marie.

“O que é que foi, minha boneca?”, perguntou Francisco.

 

A filha tirou os óculos e se atirou em seus braços.

“Tio Francisco”, gritou a gerente, quebrando o clima, “minha mãe pediu para eu acompanhá-la no médico, posso sair meia hora mais cedo?”.

“Fecha as contas do dia e prepara o caixa para amanhã. Amanhã você chega aqui ás sete e meia, ok? Se eu atrasar você enrola o cara do leite”.

 

– Vi meu namorado com outra! – disse a enteada.

 

– Será que o meu destino é ser traída? –.

Francisco riu daquela forma ingênua e irresistível.

“Vamos virar esse jogo, filha!”.

A enteada olhou para ele, cheia de esperança.

Ele a beijou no rosto. “Seu namorado não te merece”, disse.

A enteada sorriu, passou a mão no cabelo. A pele era branca, como a da Marie.

– Obrigada, viu? -, falou para o Pai de Santo.

 

Depois largou o Francisco e foi até o banheiro para trocar de roupa, à tarde ela costumava trabalhar na loja.

Francisco pensou que sua função era ajudar os outros.

E de fato ele tinha ajudado inúmeros médiuns e vários consulentes.

E tinha se ajudado também.

Então, por que esses problemas todos?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6.

 

Na Dias da Cruz cheia de carros e pessoas, Francisco acendeu o primeiro cigarro do segundo maço do dia.

O sol, de tão brilhante, ofuscava. “Tiro a camisa?”, pensou o Pai de Santo.

Jogou o cigarro pela janela. Acendeu outro.

Devia ligar para Sofia, dizer a ela que não podia se atrasar tanto. Ele estava cansado e necessitava dela. E do Enzo, também. A Sara defumaria o terreiro, Enzo abriria a gira, Sofia ia cuidar dos médiuns e Francisco incorporaria o Seu Sete. Os filhos de Plínio e Zé assariam a carne. Exu Sete Encruzilhadas tomaria vinho e diria suas verdades.

 

Pegou o telefone, digitou o número da mãe pequena, lembrou-se de que, enquanto trabalhava, não respondia ao celular. Desligou e ligou para o fixo.

“Alô”, disse a mulher.

“Estou falando com a Mãe Pequena do Centro Espirita Filhos de Xangô?”.

“Que bom que você chamou, Pai… O meu chefe está doente e a festa cancelada”.

“Vai chegar mais cedo?”

“O senhor precisa de mim a que hora?”

“Tem que recolher as flores, as garrafas de vinho para o Sete, você providencia junto com o Enzo, ok? Assim eu descanso cinco minutos a mais…”.

“Muito trabalho, Pai?”

“Devia me aposentar do aeroporto, você sabe”.

“O senhor tem uma missão espiritual… pense em quantos médiuns já passaram pelo centro”.

 

O Pai virou para a esquerda, o cigarro caiu no assento, ele pegou e jogou fora.

Estacionou perto da vila onde tinha morado quando criança.

Pensou em Irma e lembrou-se de que, quando sua família saiu do Mensageiros de Santo Antônio, a da Sofia veio junto.

Lembrou-se da mãe da Sofia, gostava dela, passavam tardes inteiras juntos, conversando. Cabelo comprido como a filha, olhos azuis, serenos, era a melhor amiga da Sofia. Foram as entidades da mãe a cuidar do caminho espiritual da Mãe Pequena.

A preta velha Cambinda das Almas lhe ensinou a não ter medo e incorporar, naturalmente. Sofia desenvolveu aos poucos, como o Francisco. O pai dela também era do “babado”, o Ítalo, filho de um médium italiano, um calabrês, que fazia fantásticos trabalhos de cura, mas morreu tão novo, de infarto. A mãe do Ítalo era babá de uma famosa pintora da Tijuca.

Pai branco e mãe preta, o pai da Sofia nasceu da cor da castanha de caju. Tinha bigodes, cabelo curto e incorporava o Zé Pelintra. Mas não aceitava o fato de estar consciente, achava um problema ele ouvir o que suas entidades diziam aos consulentes. Por isso parou de colocar roupa branca, o Zé Pelintra o pegava sentado no terreiro e os médiuns colocavam um véu nele. O malandro fumava feito um demônio e Ítalo odiava até o cheiro de cigarro.

Mas ele era, de fato, um perfeito malandro e vestia seu terno branco e saía para a rua todas as sextas… Dona Norá morria de ciúmes!

Ela era loira, meio francesa e frequentava o melhor clube da região. De saia curta, desinibida.

Quando jogava tênis, Ítalo a observava escondido… O rapaz venceu a timidez, mostrou o rosto, afinou o gênio galanteador. Mas a mulher se apaixonou por outro, parecido com ele. O malandro fingiu ser amigo dele, convidou a tenista para um encontro, ela aceitou e descobriu a verdade quando já estava sentada na mesa do bar… Diziam que o pai da Sofia tinha filhos em diferentes estados brasileiros e uma vez, no centro do Francisco, o marido da mãe pequena encontrou uma mulher jurando que a melhor amiga dela era a namorada do sujeito. “Não é possível”, disse Júnior acompanhado por um cara cujo apelido era Jacaré, que adorava a noite e tinha mais namoradas do que cabelos; “Ele é o pai da minha mulher e a senhora que incorpora a Cambinda é esposa dele!”, “Eu o conheci uma semana atrás, eles são noivos”, respondeu a amiga da namorada do Jacaré; “Noivos?”, comentou Júnior, boa pinta, apaixonadíssimo pela Sofia, “Ele a pediu em casamento!”, concluiu a mulher e Jacaré disse para o Júnior que seu cunhado era mesmo irado.

No Espirito Santo Ítalo tinha fugido pela janela, por causa de uma loirinha parecida com a mulher dele. Ele não resistia, gostava de todas, queria todas.

Mas não deixava faltar nada em casa.

 

Francisco pensou na Cabocla Iara da mãe, naquele jeito manso, nunca espalhafatoso… Entrou na casinha branca e amarela onde tinha nascido e reparou numa velha fraca e magra, deitada na cama. Cabelo grisalho. O olhar vivo.

Sofia era quem mais se identificava com a Cabocla Iara porque ela também tinha incorporações discretas… Francisco cumprimentou o pai dele e lembrou-se de que o pai da Sofia, do nada, tornou-se o braço direito de um empresário. Quando faleceu, com sessenta e nove anos, estava no auge da carreira. Não tinha estudo, mas lia muito.

Dona Norá, apesar das traições, costumava dizer: “Primeiro é o Ítalo, segundo é o Ítalo, terceiro é o Ítalo”; já Sofia, anos mais tarde, se dedicaria aos filhos e depois à Umbanda. Dona Norá tinha uma paixão louca, alimentada pelos ciúmes também, porque Ítalo viajava a trabalho e namorava feito um malandro.

Loiras, negras, mulatas, professoras, doutoras, dançarinas de samba, mas não perdeu a cabeça. Voltou para casa. Educou os filhos e os fez estudar: a Sofia formou-se em direito, o irmão em economia.

No fim da vida já tinha se acalmado e esperava sobreviver mais um pouco, curtir o sucesso no trabalho. Não soube que tinha um câncer nos pulmões. Dona Norá, Sofia e Júnior cuidaram do doente com carinho, mas quem faleceu primeiro foi Norá, de um dia para outro, sem aviso prévio.

Sofia acreditou que a mãe quis forrar a cama dele no céu, como tinha feito em terra, por anos a fio… O pai da Sofia morreu magro como um prego e feio, muito feio, de tão bonito que era, mulato, cabelo e bigodes brancos, alto, esguio.

Sofia e Júnior o enterraram e Francisco faria o mesmo com a mãe dele… O Pai de Santo chorou.

Abraçou o João, seu pai, e pegou a mão da Dona Diná. Sentou-se.

Pensou no sonho.

Ele, de branco, jogando os búzios para ele mesmo, de bermuda. Ele de bermuda implorando ao pai de santo para fazer uma macumba, só uma macumba poderia mudar o curso de sua vida. Mas o que é que ele queria? Não tinha coragem nem de falar para si mesmo… Primeiro ele queria que a mãe sobrevivesse mas sentia, pressentia que isto era impossível. Segundo: ele queria ter uma vida mais sossegada, mas não era isso, não era só isso; ele era vaidoso e queria ser reconhecido, queria ser respeitado, até temido como pai de santo. Não confessaria a ninguém, mas era isso mesmo. Sabia ter o dom da adivinhação… Não errava nunca com os búzios e quem podia confirmar era a filha da Sofia.

Com dezessete anos a bela moça, filha do primeiro casamento da mãe pequena, fez um jogo com ele. Estava insegura, antes do vestibular… Entrou na sala com os quadros nas paredes: Oxum e as águas correntes, Iemanjá na beira da praia, Ogum, o guerreiro africano, e Xangô, combatente pela justiça. Na mesa, uma caixinha de madeira onde a garota colocaria o dinheiro; e cartas, coisinhas, entre elas um punhal, direcionado à visitante para quebrar suas energias. Do lado direito do quarto, uma pequena fonte artificial, cheia de pedrinhas coloridas. Na entrada, uma escadinha e uma cortina, de pedrinhas.

A garota passou a mão nos cabelos, descrente. “A minha mãe disse que o senhor tem o dom do jogo…”.

Francisco lançou e viu que ela se casaria com uma pessoa mais velha pertencente ao ambiente de estudo, eles viajariam muito e ficariam juntos um bom tempo.

Pensou em quantas pessoas se sentavam naquela cadeira só para saber se o esposo ou a esposa estavam traindo. A curiosidade dos demais o entediava porque ele tinha sido escolhido pelas entidades para ser pai de santo, tinha uma missão.

“Só isso?”, disse a filha da Sofia.

“Só isso”, respondeu Francisco, “quando sair pega uma pedra na fonte de Iemanjá”.

 

Fitou a mãe dele. Ainda a amava e muito e sentia forte o desamparo, a impotência. Pai Francisco, faz uma macumba pra mim, pensou. O sonho, sempre o sonho, era seu limite. Nunca tinha desejado utilizar sua relação com o mundo do oculto para ter uma vantagem pessoal. Mas ele sabia que suas entidades impressionavam, especialmente o Seu Sete, isso criava laços de respeito e, às vezes, medo. Era o destino de um Pai de Santo. Ser temido, respeitado, era isso que ele queria, mesmo assim não se sentia bem. Por quê?

Sentia-se só?

Talvez, agora que a mãe iria partir… Mas porque só, se ele tinha esposa, duas filhas, a menor morava com ele, e tinha as filhas da Marie que amava como se fossem suas?

Ele queria uma vida mais sossegada, disto vinha sua inquietude. Só disto?

Pai Francisco não se entendia bem, entendia suas entidades, mas não entendia bem a si mesmo.

O que é que ele queria?

Mais poder?

Talvez, ele que tinha o dom do jogo, o dom da adivinhação, talvez quisesse mais poder. Um reconhecimento maior, dele e do Centro, por parte de um número maior de pessoas… Um ano depois do jogo, a filha da mãe pequena se apaixonou pelo professor de geografia, casaram, ela começou a carreira acadêmica, viajaram pela América Latina e, mais tarde, pelo mundo inteiro.

O que ganhou o Francisco por ter acertado a previsão?

O que ele queria mesmo era que os médiuns tivessem o mesmo comprometimento seu com o Centro, mas isso não acontecia nunca.

Eram sempre os mesmos três, quatro que organizavam tudo: Zé, Plínio, Ramon e a Sara. Os outros não se dedicavam como deviam.

“Mamãe, fica comigo…” suspirou. Rezou em cima da cama, abraçou João, que tinha o olhar alegre, nada o abalava.

Francisco saiu, acendeu um cigarro, e pensou que ia dirigir-se ao Centro para a festa de Exu. O que é que Exu Sete Encruzilhadas diria para ele e para os médiuns naquela noite de junho?

Era o desconhecimento que atraia as pessoas. O oculto era tentador, ele também era movido pelas tentações misteriosas produzidas pelas suas entidades.

Mas não só por isso, a caridade também o movia.

Quantas pessoas tinha ajudado?

Não ele, claro, mas ele também, porque quem emprestava o corpo às entidades era o Francisco.

Francisco aceitava a função de médium e todos os médiuns eram dignos de louvor porque, se quisessem, criariam um cantinho dentro de casa e cuidariam de sua espiritualidade sem pertencer a um centro. Reuniriam os amigos, bateriam os tambores na sala ou no porão, mas eles iam para o centro de Francisco e Francisco era agradecido a eles.

Os médiuns eram corajosos porque tornavam pública sua função, participando das sessões de caridade frente à assistência. Mostravam suas inquietudes, suas incorporações e Francisco fazia o mesmo, desde a adolescência.

E a caridade?

Muita! Mas não gostava de contar… Aquela mulher que se consultou com o Rei Congo das Almas. Estava grávida e os médicos a tinham alertado, havia só uma pequena percentagem de sucesso, ela devia ficar de cama e aguardar. A família precisaria de uma enfermeira, mas não tinha dinheiro. Resolveram ir até o centro espírita.

Rei Congo das Almas a atendeu de pernas cruzadas. A mulher se sentou, Rei Congo pegou agulha e fio, acendeu uma vela e pôs a imagem de Nossa Senhora do Bom Parto do lado dela. Mediu a barriga com o fio, passou a agulha no fogo da vela e costurou fora da barriga da mulher. Mediu, passou a agulha no fogo, costurou e mediu, de novo. Quando acabou, amarrou agulha e fio na imagem de Nossa Senhora do Bom Parto. Repetiu estas ações por sete correntes seguidas.

Quando Francisco estacionou em frente ao portão azul do Centro Espírita, o calor tinha diminuído. Viu que o pátio estava cheio. Nas giras e nas festas de Exu o número de consulentes aumentava muito, porque os Exus, apesar de serem espíritos, estavam perto dos seres vivos e a comunicação fluía mais.

“Está tudo bem com o senhor?”, disse Sofia.

“Você já está aqui?”, respondeu o Francisco.

 

 

7.

 

Sofia intuiu que Francisco estava inquieto, mas não ligou. Conhecia-o há tempo e sabia que havia dias em que ele acreditava que ninguém valia nada. Ninguém fazia nada, ninguém tinha a dedicação necessária. E ela não era uma exceção. Havia outros dias em que o Francisco era um homem maravilhoso, verdadeiramente amigo, mas, com a doença da Diná, a persistente dor de cabeça e a visão dupla, o humor tinha piorado. Ela aceitava porque era seu Pai de Santo… Ainda lembrava quando tinha ingressado no corpo mediúnico e o marido a acompanhara sentado na assistência. Em casa, depois comentavam o que tinha acontecido.

Era um amor lindo, o dela com o Júnior.

Tudo começara em Macaé, Sofia sentada num bar com a prima, Júnior com um amigo na mesa ao lado tomando cerveja, o amigo estava de olho na Sofia… Por sorte esse cara não era o Jacaré, com ele a competição teria sido impossível, mas sim o Lobão, bicho legal, baixinho, engenheiro como ele. Júnior e Lobão estavam perto da janela, a praia, meio vazia, às suas costas. Chuviscava, a tarde tinha sido pior do que planejado.

Lobão, cheio de pelos no peito, levantou-se e convidou as duas garotas para a mesa deles. A bela morena não tirava os olhos do Júnior… Ele tinha se separado há pouco tempo, vivia num pequeno apartamento na Urca e tinha cinco namoradas… O rodízio era mensal e nem precisava mentir, só omitir. “Qual é seu nome?”, “Quantos anos você tem?”, “Trabalha com quê?”, Sofia era pior do que a polícia. Não rolou nada, a morena, porém, voltou para a pousada com o número do bonitão.

Segunda feira já ligou para ele.

Um mês depois, Sofia, Júnior e seus quatro filhos moravam juntos, na Urca.

O casal quebrou cinco camas em poucos anos e os meninos se divertiam com os jogos sexuais dos pais. Chegaram a colocar latas de Nescau em baixo do colchão para segurar os pulos. Quando os adultos acordavam e abriam a porta, mortos de sono, as crianças bisbilhotavam – Insônia, mãe? -. “É aquele tarado do seu pai…”, respondia a morena e o  bonitão ria, feliz da vida.

Júnior aprendeu a gostar da Umbanda acompanhando o despertar da mediunidade da esposa e ficou doido para incorporar, mas nunca sentiu nada.

Apaixonou-se pelas entidades de Sofia, pela Pomba Gira Maria Padilha da Porta do Cabaré, pelo Caboclo Caçador da Mata Virgem, a Tia Maria Conga do Cruzeiro das Almas e a Mariazinha do Jardim de Oxum.

Naquela época, os médiuns não podiam dar consulta se não depois de muitas sessões e várias incorporações, mesmo assim o Júnior tirava uma casquinha e logo aprendeu a interrogar os espíritos e a medir o peso das respostas.

“Quem é aquela velha que vende na feira acarajé?

Ela é tia Maria, nasceu na Bahia, de Jequié.

Bahia, cidade alta, terra de São Salvador.

Levanta-te, Preto Velho, o cativeiro já passou!”.

O bonitão gostava desta música e a cantava a plenos pulmões para Tia Maria Conga, que andava com as costas curvas, sentava-se no banquinho de madeira, o “toco”, e tinha os cabelos recolhidos num laço verde. A preta velha dava conselhos para o Júnior e para a Natália. Sofia encarou o Pai Francisco e lhe desejou saúde e firmeza espiritual.

Estava nervoso, dava para perceber… Pelas idas e vindas do Enzo?

Pai Francisco subiu a escada e entrou no quarto dele.

O filho do Plínio já tinha arrumado a churrasqueira, a carne estava em cima de uma mesa. Tinha costelas, frango, salsicha, linguiças. A cerveja ainda estava na geladeira. Tinha vinho branco, também, mas só o Seu Sete podia autorizar a distribuição. Primeiro o ritual, a incorporação do Francisco. Depois o churrasco e o vinho.

Sofia pensou em Enzo. Ele tinha saído do centro por um tempo, tinha ido para o candomblé, depois regressou, aos prantos. Apesar dos conflitos e das palavras fortes, Francisco o aceitara de volta. Abraçaram-se na frente dos outros médiuns. Enzo pediu perdão. A necessidade do candomblé tinha surgido durante um jogo de búzios, ou fora Ogum Beira Mar? Sofia não sabia, mas tinha entendido que Enzo acreditava ser filho de Oxalá com Oxum e não de Xangô com Iansã, como tinha dito Francisco, e isto perturbava o Pai de Santo. Enzo achava que a Umbanda, não cultuando Oxalá como orixá, mas só como o filho de Deus, de Zambi, pai de todos os orixás, não acreditava ter, entre os seus filhos, filhos do orixá Oxalá, porque não tinha sessões em que eles pudessem incorporar o pai. Por isso os búzios de Francisco não indicaram o verdadeiro orixá responsável pela cabeça de Enzo, enquanto o Candomblé cultuava Oxalá como os outros orixás, tinha sessões dedicadas a ele e filhos de santo que o incorporavam. Por isso o pai de santo do Candomblé tinha indicado Oxalá como o responsável pela cabeça de Enzo.

Sofia foi trocar de roupa e se lembrou de como eram diferentes as coisas nos primeiros anos de vida do Centro Espírita, quando as entidades deviam desenhar os costumes que queriam vestir e Seu Sete dava autorização. O médium depois costurava sua roupa ou pagava a alguém para que costurasse.

Francisco, no quartinho, estava esperando o Enzo.

Cadê o Pai Pequeno?, pensou Sofia.

“Silvia chegou?”, comentou em voz alta.

“Filhos de santo hoje em dia só sabem atrasar”, disse Zé, que costumava criticar. Ninguém levava a sério a religião como ele. Ninguém cumpria as obrigações direitinho… Até Sofia fora repreendida por ele porque queria retirar as velas de sete dias da casa de Exu depois de quatro dias, pois é, as velas de sete dias, de fato, duravam quatro dias. Zé tinha comentado: “Se Exu disse sete, são sete!”.

Enzo estava no carro, perto do centro.

“Você quer sair de novo?!”, gritou Silvia, ao lado dele.

“Eu não confio mais nele”, respondeu o Pai Pequeno.

Estava no meio de outra crise. Pai Francisco sabia. Eles tinham uma relação especial. Quando o Pai Pequeno estava doente ou em duvida, Francisco, de longe, percebia. Francisco tinha ajudado Enzo, tinha o acolhido como a um filho homem que não teve… Mas agora era demais. Ele saíra, voltara, e agora estava com dúvidas… De novo?!

– Não me sinto à vontade… Na última sessão o Seu Sete pediu para eu e você refletirmos sobre nossa relação. Ele colocou fogo na boca, passou a tocha em nós pra descarregar, disse que o Ratinho se meteu entre a gente. Mas o Rato não tem nada a ver. Tu viu? O Seu Sete me fez escrever o nome dele no papel, coloquei o papel no tridente e com o Rato não aconteceu nada porque o Rato não fez nada. A gente tá em crise porque tamos juntos há dezoito anos!

Silvia olhou para os pés. Sua bolsa com flores e roupas entre as pernas. Tinha medo da separação. O que seria dela sem Enzo? E o filho do casal, que via o Malandro do pai sem que o pai incorporasse?

As palavras da Vovó Catarina… Aquela boneca que Enzo lhe deu de presente, revelando-lhe que era ele o homem de sua vida!

Ainda se lembrava (como esquecer…) da primeira vez em que incorporou sua Pomba Gira, depois a segunda, a terceira, até se tornar uma médium de consulta e descobrir que a Pomba Gira dizia para os consulentes escreverem seus pedidos num papel e amarrarem os papeis em sua enorme saia… A boneca que a preta velha tinha lhe mostrado e a que o Enzo lhe deu de presente tinham as saias cheias de papelotes com desejos escritos em cima! Que prova maior da veracidade da Vovó? Mas Enzo queria a separação. Do Centro do Francisco e dela também. Não era a primeira vez que se afastaria do centro, mas dela sim… Pior que ela também estava cansada dele.

Estacionaram em frente ao portão azul. Desceram do carro.

– Vamos curtir a sessão, ok? Depois a gente decide…

O Pai Pequeno fez que sim com a cabeça. Vestia bermuda listrada, camisa amarela, era branco de cabelo encaracolado. Tinha cara de quem gosta de se divertir. Entre o místico e o malandro. No pescoço, o guia de aço das sete linhas da Umbanda.

Abriram o portão.

Enzo pegou a quartinha atrás da porta e jogou a água para direita, para esquerda e para trás. Silvia fez a mesma coisa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8.

 

Da primeira vez Enzo saíra do Centro porque não tinha dinheiro para pagar as mensalidades e não quis pedir emprestado. A segunda porque não tinha gostado da atitude agressiva do Malandro do Francisco, Paulo Paulinho da Mangueira, com uma mocinha, possuída por um espírito, deitada no terreiro e Paulinho, não conseguindo despertá-la, esbofeteou-a… Enzo voltou e saiu de novo, por causa da salva, ele não gostava de pagar as mensalidades, vinha da favela e tinha a convicção de que a religião devia ser de graça… Regressou porque era grato ao Francisco.

No momento mais difícil, Francisco o tinha acolhido como um pai, mais do que um pai.

Quando o senhor e a senhora Uchoa tinham se separado, Enzo até trabalhara no tráfico de drogas. Ele subia e descia as ladeiras da favela do Andaraí, pegava o dinheiro, entregava cocaína e maconha, ia para outro ponto e repetia o mesmo esquema. Até o encontro com o Francisco, que o hospedou, deu-lhe comida, e iniciou-o nos segredos da Umbanda.

Mas agora estava acontecendo o que Francisco já vivenciara com a Irma. Uma necessidade ditada pelas entidades arriscava afastar o Pai Pequeno, de novo. Fora o Exu Meia Noite que tinha dito ao Francisco que seu cavalo tinha uma obrigação para cumprir no Candomblé, depois voltaria para a Umbanda… Enzo se apressou, pediu a outro pai de santo, ele também filho de Xangô e, como todos os filhos de Xangô, forte, alto, dominador, para jogar os búzios e o Pai Fábio viu que o Enzo, no Candomblé, era filho de Oxalá com Oxum. Enquanto na Umbanda era filho de Xangô com Iansã. “Que palhaçada é essa?”, esbravejou Francisco, “Você por vinte anos foi filho de Xangô e agora não é mais?! Se fosse verdade, eu diria às minhas entidades desculpem a sinceridade, mas vocês estão brincando comigo!”. Enzo tentou cumprir as obrigações, mas, no dia em que ia raspar a cabeça no Candomblé, passou mal e acabou indo para o hospital. Palpitações. Pressão alta. Francisco e Silvinha foram visitá-lo. Enzo e o Pai de Santo se abraçaram. Até porque Pai Joaquim do Catimbó tinha dito a Silvia: “Fala pro meu cavalo que ele é meu e eu não sou dele…”. O cavalo interpretou a frase como uma advertência para aguardar o momento oportuno para resolver no Candomblé o que ele tinha que resolver, sem pressa. Ele e Francisco abraçaram-se na frente dos médiuns também. Enzo pediu desculpa aos que tinham confiado nele e ele tinha traído não estando presente.

Mas, depois de alguns meses em que cumpriu sua função de Pai Pequeno, agora Enzo duvidava de novo! Por causa das últimas giras de Exu em que o Seu Sete tinha trabalhado com ele e a Silvinha juntos, Exu tinha falado muito; Enzo sabia que eles tinham se casado na Umbanda e esta atenção era normal, mas o Seu Sete tinha bebido demais e falado coisas das quais ele discordava. Tinha acusado um amigo do casal, o Rato, de se interpor e Enzo não achava que isso tivesse acontecido. Se não fosse a gratidão, ele sairia de novo.

Se Enzo não tivesse achado a Umbanda e o Francisco, hoje não estaria vivo. Talvez fosse lembrado como um favelado que se ferrara entrando pelo caminho errado. Ele devia agradecer a suas entidades que o tinham guiado, aconselhado… Ainda se lembrava, no Andaraí, ele e um amigo que logo em seguida foi morto, a tiros. Na sala da casa de Dona Neuza, numa gira de Exu, tinha descido o Tranca Rua em Baré. Entre o sofá e a geladeira, duas gêmeas tocavam as congas e não era comum uma mulher cuidar do atabaque. Dona Neuza, negra, esquelética, incorporada com Exu. Desdentada, com um pano amarrado na cabeça, “Ó rapaz, cadê meu irmão?”, “Tô falando com você, rapaz, cê sabe de quem tô falando, tô falando do meu irmão Zé Pelintra!”. O Tranca Rua segurou as mãos do Enzo, pisou em cima dos seus pés. Mandou as mulheres louvarem Zé Pelintra. Seu Zé desceu e Enzo começou a sambar. Ele parecia conhecer a casa. Foi direto para um quarto com a imagem dele, num porta retrato, no meio de vários objetos. O pessoal da casa perguntou para o Zé o que deviam fazer com as coisas em volta da imagem. Havia cocaína, maconha e um baralho, espalhados no chão, perto da fotografia do malandro de terno branco e vermelho, gravata vermelha, a mão na cabeça segurando o chapéu enquanto sambava. Zé disse que deviam despachar aquilo tudo. Depois ficou com o Tranca Rua. Como bons amigos, os dois cantaram, beberam. Zé queria ir embora, o Tranca Rua não deixou. Disse que devia conversar com uns caras. Saíram juntos. Andaram até o topo do morro para benzer uma casa de santo. Mas a casa do malandro estava, de fato, ao lado de uma boca de fumo. Zé cruzou e, no entanto, chegaram pelo menos trinta bandidos. Zé deu consulta e, depois, foi pegar os cordões de ouro, os anéis dos pescoços e dos dedos dos traficantes e colocou em seu próprio pescoço e dedos. Os caras o deixaram à vontade. Enquanto ele trabalhava, os escutava, aconselhava, o Tranca Rua tinha saído. “Tranca Rua tá me esperando”, disse o seu Zé e desceu para continuar a conversa com o Exu. Mas a macumba na casa da Neuza tinha acabado, o terreiro estava fechado, não tinha Tranca Rua nenhum. Aí o Zé subiu de novo, na boca não tinha mais ninguém… Enzo voltou a si e viu que estava cheio de colares de ouro, anéis. Zé tinha falado para não devolver, mas ele ficou amedrontado e foi logo na boca dos donos do morro. Conversou com os três e viu que eles o respeitavam. Enzo disse que estava passando sufoco, os caras lhe arranjaram o trabalho de gerente de boca. Ou seja, ele entrou no trafico pela porta principal, ganhando logo uma grana boa. Durante três meses, cuidou da contabilidade, a mesma coisa que teria feito anos depois com a sua lojinha de pedras. Quem o salvou? O seu Zé que o aconselhou a sair e lhe indicou o caminho. Quem o acolheu? Francisco que lhe ensinou tudo o que ele sabia sobre a Umbanda!

Mesmo assim, havia momentos em que Enzo não aguentava Francisco. O excesso de confiança do Pai de Santo o deixava nervoso. Francisco nunca admitia estar errado, mas ele também tinha suas imperfeições e cometia seus pecados de vaidade… O risco era o Pai de Santo usar as entidades para comunicar seus próprios desejos. A falta de imparcialidade, até inconsciente. Francisco tinha vivido só pelo santo e todos os seus conflitos, todos os seus problemas, tinha-os resolvidos no terreiro. Não separava sua vida material da espiritual.  Às vezes isso era fantástico, porque a sinceridade, honestidade do Pai de Santo falava mais alto. Mas quando estava nervoso, triste ou infeliz, seu humor refletia-se na gira.

“Te parece a hora de chegar, Pai Pequeno?”, disse o baiano.

“O trânsito, seu Zé”, respondeu ele.

“O trânsito não é um problema, o problema somos nós que saímos tarde de casa”.

Silvia cumprimentou Sofia e Maria a preta com um forte abraço. E foi logo trocar de roupa.

“Você não deveria arrumar o centro?”.

 

Enzo não respondeu.

Subiu as escadas devagarinho, viu que a água dos últimos dias tinha deixado umas poças. Passou em frente à porta vermelha da casa dos Ciganos, atrás da porta havia duas mesas com baralhos, punhais e licores. Virou-se para a esquerda e olhou para os moradores da casa ao lado, marido e mulher estavam em frente à janela, brincando com uma criança. Observou as tartarugas que comiam banana e alface, no chão, “Quem jogou a comida foi o Zé…”, pensou.

Bateu na porta do Pai de Santo.

“Entra!”, gritou Francisco e Enzo se lembrou do Paulo Paulinho da Mangueira, às cinco da manhã de uma madrugada de muitos anos antes.

Estava quase acabando a sessão e o malandro mandou botar a mesa fora da porta do centro. Pediu a eles que abrissem umas latas de sardinhas e servissem cerveja. Estavam Enzo, Natália, Silvinha, Zé, Sara e Samira, a esposa do Francisco. “Cês sabiam que todo policial morre na mão de um malandro?”, disse Paulo Paulinho da Mangueira. “Eu só vou embora quando uma pessoa que tô esperando, chegar…”.

Às cinco e meia da manhã chegou um cara com uma jaqueta de couro, de moto, uma garota na garupa. Parou em frente ao portão. “Tá aberto ainda?”, disse.

“Tava esperando por vocês”, replicou o malandro.

O sujeito entrou no terreiro junto com o Paulo Paulinho. Sentaram um de frente para o outro, entre o canto do Seu Sete e a estátua do Malandro de bigode, cabelo grisalho, a camisa da mangueira, velas e cerveja aos pés. Paulo Paulinho jogou o baralho.

Conversaram por uma boa hora, de fininho, o sujeito até chorou. Quando terminaram, Paulo pediu a carteira do homem. A mulher tinha ficado em frente ao portão azul, de pé, sem dizer sequer uma palavra. O sujeito entregou um objeto para o malandro e saiu, olhou para a garota sem dizer nada, andou até a moto. Ela atrás.  Subiram, o cara ligou e foram embora.

Paulo Paulinho jogou o objeto para o Enzo. O Pai Pequeno abriu a carteirinha e viu que o cara era um policial.

“Pai Francisco?”, disse ele, abrindo a porta.

“Enzo!”, exclamou Francisco.

Os dois se cumprimentaram, o Pai Pequeno se esforçando para estar frio porque tinha “quase” decidido sair outra vez do centro. Era difícil para ele não abraçar o Francisco como a um pai. Francisco tinha mais facilidade com Enzo, ele também sentia o elo e uma grande amizade, mas isso lhe acontecia com muitos médiuns e com todos mantinha certa distancia, apesar da intimidade e de conhecer os pontos mais vulneráveis de cada um. Francisco notou então a perplexidade do Enzo, e não disse nada.

“Eu abro a gira e o senhor incorpora o Seu Sete, é isso?”, perguntou o Pai Pequeno da casa.

“Vamos esperar o Seu Sete chegar e vocês vão perguntar a ele o que deve ser feito, em relação ao churrasco, também. Eu acredito que ele vai dar a permissão do churrasco rolar só depois de olhar para as carnes e a bebida. Está tudo pronto?”

“Tudo, graças a Deus e ao Zé”.

“Porque você se atrasou?”

“É muita briga entre eu e a Silvia, Pai. Eu acredito que nosso casamento já acabou”, disse Enzo, com cara constrangida.

“Vamos deixar estas coisas do lado e pensar no dia de hoje. Hoje é festa de Exu”, replicou o Francisco lembrando que, no dia seguinte, oito ou nove da manhã, encontraria o cara do leite.

Enzo beijou a mão do Pai de Santo e foi tomar banho.

Francisco, já de roupa vermelha bordada em ouro, pensou na historia do Candomblé do Pai Pequeno e tremeu de raiva.

Não era bom ter raiva antes de uma sessão, especialmente de uma sessão de Exu, ainda mais antes de uma festa.

Isso poderia atrapalhar o desenvolvimento do ritual. Ainda mais sendo ele um Pai de Santo trabalhador que, durante a manhã dos sábados, ao invés de descansar, iria atender um fornecedor.

Mas aquela história do Candomblé, mal contada por Enzo… Francisco sabia que Enzo fora primeiro no pai Joãozinho, do Candomblé de Keto. Ele conhecera só o Centro Espírita Filhos de Xangô e estava curioso, quem não estaria no lugar dele? Tinha saído do Francisco, andava meio perdido e esbarrou neste Joãozinho machão que, quando abria a boca, parecia menina… Atendeu Enzo em seu apartamento, num quartinho simples com guarda-roupa de madeira, uma mesa de ferro.  O paninho branco. Um fio de conta. Enzo sentou na cadeira. Joaozinho jogou os búzios, Enzo ficou só escutando. Joaozinho lhe disse que o pai dele estava fora do Estado do Rio de Janeiro. Disse que o irmão dele estava preso por tráfico de drogas e assim ganhou sua confiança. Depois revelou que o orixá que tinha aberto o jogo de búzios, desvendando alguns segredos de sua família, tinha sido Oxalá. “Tu é do santo?”, continuou João com voz de menina, “Sou”, respondeu ele. “Tu tem um cargo importante no santo… Quem são teus pais de cabeça?”.

“Sou filho de Xangô com Iansã”, disse Enzo.

Pai João jogou os búzios, de novo.

“Não leve a mal, menino”, disse, “mas tu não é filho de Xangô nem aqui nem em outro lugar…”.

“Eu sou feito em Xangô!”, gritou Enzo.

“Você é feito nele porque Oxalá permitiu… Tua mãe não é Iansã, tu é filho de Oxum”.

Enzo ficou cheio de dúvidas. Filho de Oxalá com Oxum enquanto o Francisco tinha falado Xangô com Iansã… Ele tinha feito suas obrigações para Xangô e agora descobrira ser filho de outro?!

– Que palhaçada! – gritou Francisco e bateu o punho na mesa.

Francisco era alto, imperial.

Enzo baixinho, magro… Mas Francisco sabia que o Pai Pequeno era filho de Xangô com Iansã e quem afirmava o contrário não entendia nada de Umbanda e nada de Candomblé!

Não satisfeito, aquele doido do Pai Pequeno tinha ido a outro Pai de Santo. Porque o João tinha dito que em sua cabeça não iria meter a mão, não iria fazer um trabalho para Oxalá, os trabalhos para o Pai de todos os Orixás eram muito delicados, não se podia cometer nem o mínimo erro, as consequências poderiam ser desastrosas para o médium.

Enzo voltou ao Centro Espírita Filhos de Xangô sem explicar nada, mas Francisco tinha seus informantes. E soube que ele, entre uma gira e outra, estava frequentando o Pai Fábio do Candomblé, outro negão homossexual.

Francisco não admitia o erro porque não tinha sido ele a errar. Quem tinha dito que o pai de cabeça do Enzo era Xangô foram Pai Joaquim do Catimbó, Exu Meia Noite e o Caboclo Pena Branca do mesmo Enzo. Os búzios do Francisco só tinham confirmado… Como podiam as entidades do Enzo indicar os pais de cabeça do cavalo deles e errar?

Se Francisco admitisse o erro das entidades, não poderia confiar mais nelas e as bases mesmas da Umbanda iriam desmoronar. Porque o primeiro a pronunciar a palavra Umbanda fora um espírito num Centro Kardecista e daquela palavra tudo começou. E se o Caboclo das Sete Encruzilhadas tivesse errado também?

Pai Fábio confirmou para Enzo o que Pai João tinha dito. Ele era filho de Oxalá e Oxum. Enzo então acreditou e quis cumprir suas obrigações no Candomblé, de uma vez por todas. Silvinha não queria que ele saísse do Centro Espírita, ela acreditava em Francisco e, fosse Enzo filho de quem fosse, Francisco continuava seu Pai de Santo! Mas Enzo ia atrás da verdade, de qual verdade ele não sabia, atrás das novidades, talvez… Em um mês ele estava com todo o material que iria precisar para suas obrigações. Pai Joaquim do Catimbó e Seu Meia Noite tinham dito a ele e a Francisco que o Pai Pequeno voltaria para o centro do Francisco, mas o Enzo não sabia mais o que queria. Ele entraria no Candomblé, rasparia a cabeça e depois… entregaria para Deus!

Chegou o dia e, antes de pisar no terreiro, Enzo falou com Silvia pelo telefone. Ela lhe desejou boa sorte e lhe disse que não sabia mais se o casamento deles estava de pé. Enzo entrou na Roça. No Candomblé de Angola. Não estava tranquilo. A cabeça voando, indo, indo… A pressão estourou e ele parou no posto de saúde. Silvia chegou preocupadíssima junto com o Francisco. Os dois falaram mal do Candomblé, das indicações erradas, sem fundamento, do Pai Fábio e do Pai João, mas o Enzo ainda acreditava ser filho, no Candomblé, de Oxalá com Oxum e, na Umbanda, de Xangô com Iansã.

Pai Francisco socou a mesa, de novo.

Levantou a mão.

Estava sangrando. “Olha, Enzo, o que você me fez…”, disse.

Zé bateu à porta.

“Sim?”, respondeu ele.

“A Mãe Pequena está defumando o terreiro…”, disse o baiano.

“Então vamos pra casa do Seu Sete”, respondeu Francisco que procurou o álcool nas gavetas e não o encontrou.

Pegou uma garrafa de cachaça.

Abriu e jogou o líquido em cima do dedo machucado.

Olhou o sangue escorrer, na pia, enquanto Zé aguardava silencioso do lado de fora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9.

 

No terreiro, em círculo, os homens e as mulheres cantavam. E batiam nos atabaques.

Trinta médiuns pelo menos estavam presentes. E mais de cinquenta consulentes.

Sofia estava defumando, Sara já tinha cruzado o terreiro, jogando gotas d´água em todos os cantos da casa.

“Defuma com as ervas da Jurema

Benjoim, Alecrim e Alfazema…”, repetiam médiuns e consulentes.

As mulheres que iam incorporar as Pombas Giras tinham roupas pretas e vermelhas.

Sofia vestia uma saia comprida, preta, com as extremidades vermelhas.

Sara um vestido que lhe chegava até os pés, encobrindo-os.

Silvia, a roupa de cigana cheia de papelotes em que os consulentes escreviam seus pedidos. E ela mandava colar.

Natália, que frequentava o terreiro há pouco tempo, estava de branco.

Enzo, dez colares pendurados no pulso da mão direita, com uma calça branca e uma camisa branca com pequenas decorações na altura do pescoço, abriu a cortina do lado direito do altar e logo foi cumprimentado pelos outros médiuns homens, que beijaram suas mãos.

Todos tinham os colares pendurados no braço direito.

Sofia passou o defumador em frente aos médiuns e eles, olhando para Oxalá, colocaram as guias no pescoço. Sofia andou entre os consulentes também, eles arrastaram a fumaça até suas pernas e barrigas como se estivessem tomando banho.

 

Zé aguardava a saída do Francisco.

O Pai de Santo fitou o pulso e a ferida que não era profunda e já tinha melhorado. Deveria avisar ao Zé que não se sentia bem, que tinham chegado, de repente, as dores de cabeça e a visão dupla. Era o estresse, claro, mas ele não queria, ele não podia deixar que o nervosismo, a insatisfação entrassem no terreiro.

“Seu Zé!”, gritou.

O baiano abriu a porta e viu o Francisco, na sua mesa, de vermelho, o crânio luzidio, os olhos cansados.

“Vai até a casa do Seu Sete e me espera…”, disse o Pai.

Zé saiu, alcançou a escadinha à esquerda do quarto do Pai de Santo, desceu. Passou em frente à casa dos ciganos e logo chegou até a casa do Seu Sete. Entrou para se certificar de que as cartolas estivessem no lugar, as capas penduradas, o vinho, os charutos…

Pai Francisco rezou. O anel na mão direita estava sujo de sangue. Francisco tirou-o, levantou, lavou-o na pia, voltou à cadeira. Não se sentou. Fechou os olhos procurando equilíbrio e força dentro de si.

 

Os médiuns, ajoelhados, agora cantavam:

“Oxalá é nosso pai, Iemanjá é nossa mãe.

Senhor, Mestre deste mundo. E de outros mundos também.

Eu peço licença Oxalá, na hora de Jesus, Amem”.

 

Depois, em grupos de três, caminharam até o altar, até Oxum, Xangô, até Oxalá em pé com uma enorme guia entre as mãos. Até Nossa Senhora Aparecida, de preto, em baixo de Oxalá.

Até a cascata artificial com seu barulhinho discreto.

Puseram no chão as toalhinhas brancas que traziam guardadas nos bolsos das calças, deitaram e bateram três vezes a cabeça nos panos, rezando. Levantaram e foram até os tambores. Saudaram-nos encostando os dedos neles. Procederam na direção do Pai Pequeno e da Mãe Pequena para ajoelhar-se e beijarem suas mãos.

“Vamos bater a cabeça

Em nome do Pai Oxalá.

Saravá o nosso Terreiro.

Saravá o nosso congá!”.

 

Francisco fitou as ânforas sobre a mesa e a fonte de Iemanjá.

A de Ogum, principalmente, que não era seu pai de cabeça, mas o Orixá responsável pelos Exus. Encostou os dedos e pediu força.

De repente, sentiu-se pronto para a gira.

Subiu as escadas, fechou a porta, alcançou a escadinha que levava ao andar de baixo.

Usava uma calça branca, sandálias brancas e pretas, uma veste vermelha com bordados de ouro. Saudou a casa do cigano e finalmente chegou em frente à do Exu Sete Encruzilhadas. Parou ao lado do Zé que tinha calça e camisa brancas, cheio de colares no pescoço.

O baiano beijou as mãos do Pai e nem reparou na ferida perto do anel.

 

Enzo dirigiu o ritual no terreiro enquanto Zé e Francisco aguardavam o momento certo para Francisco incorporar.

A Sofia movia-se para frente e para trás, cantando.

Maria a preta dava pequenos passos para esquerda e direita, os braços, acompanhando os pés, abriam-se e fechavam-se, alternadamente.

Os homens dançavam com habilidade menor. Só Enzo era desenvolto, com seus passos mínimos e ritmicamente perfeitos. Todos cantavam alto enquanto os dois ogans da casa batiam nos tambores.

“Olha que noite tão bonita!

Olha que céu tão estrelado!

Carruagem tão bonita, carruagem tão bonita…

Que Ogum ganhou!”.

Tinham começado os hinos para Ogum. Em breve Sofia fecharia a cortina e os médiuns louvariam Exu.

 

Francisco, de olhos fechados, cantava.

Zé, cheio de admiração, cantava também.

A casa do Sete Encruzilhadas estava aberta. Iluminada. O número Sete na entrada. Na direita um gaveteiro com charutos, colares, um candelabro de duas velas, uma mais alta do que a outra. E um chapeleiro, cheio de cartolas coloridas. Na esquerda uma mesa com licores e vinhos. Eram vinhos italianos, brasileiros e franceses. Cachaça brasileira e grappa italiana. Em frente ao Zé e Francisco, a estátua de Exu, do tamanho de um ser humano. Olhos alegres. Magro. A túnica vermelha. Uma perna humana, outra de bicho. Um tridente na mão, com colares pendentes. Aos pés, um bíblia, uma caveira. E uma vela vermelha e preta, acesa.

Perto do Exu, a estátua da Maria Quitéria, a Pomba Gira.  Um metro de altura. Cabelo comprido. Veste de cigana, pele branca. E uma malha cor de ouro, sobre a veste. Em frente à estátua havia uma vela preta, acesa.

No quarto ao lado, havia mais estátuas do mesmo tamanho da de Maria Quitéria. Outros Exus, entre os quais um Tranca Rua, com tridente, as feições de demônio. Havia ainda um vão, onde o Zé pendurava as mantas e capas do Seu Sete. A cada sessão o Exu Sete Encruzilhadas pedia para vestir roupas diferentes que tinham significados diferentes nem sempre entendidos pela maioria dos médiuns.

 

Sofia tinha fechado a cortina branca. Oxalá e os Orixás não veriam o que iria acontecer no terreiro porque impedidos pelo véu que os médiuns tinham colocado. Os médiuns tinham também trocado as guias. Tinham tirado as de Oxalá, do Caboclo, dos Pretos Velhos, de Xangô, Iansã, Iemanjá e colocado uma única guia, a vermelha e preta com um pequeno tridente pendurado. Em todas as giras de Exu acontecia a mesma coisa.

Exu fazia parte da falange de Ogum, mas a relação com os Orixás não era entre iguais. Pelo menos na Umbanda. No Candomblé Exu era um orixá como os outros. Mesmo assim, na Umbanda o respeito para o abre- caminhos era enorme. No centro do Francisco, Exu Sete Encruzilhadas era, sem dúvidas, a entidade mais temida.

 

“Vou pela beira do caminho

Este congá tem segurança

Na porteira já tem vigia

À meia noite o galo canta”.

 

Os médiuns agora cantavam de costas para a cortina branca que fechava o altar. Os consulentes também tinham mudado de posição e olhavam para a portaria, onde ficava a casa do Seu Sete que, além de dono do terreiro, era o porteiro da casa, ou seja, quem decidiria quais espíritos iriam ingressar.

Francisco fitou os olhos pretos da estátua, as sobrancelhas cheias, a cartola marrom. Tinham aquela expressão de felicidade e loucura. E os do Francisco, quando incorporava, eram parecidos…

O terreiro estava cheio. Sempre acontecia durante as giras de Exu. Ainda mais numa festa. Os consulentes vinham das redondezas com exceção de um ou dois que atravessavam a cidade para assistir às giras do Centro Espírita Filhos de Xangô.

Havia vizinhos do terreiro e grandes aficionados que não perdiam uma sessão. Uma senhora negra, de óculos, cabelos como agulhas apontadas para o céu, conhecia todas as giras, as músicas, as letras e não vestia roupa branca porque sentia que a função dela era conversar com as entidades e refletir. Cada palavra dos espíritos a ajudava a pensar e se colocar no mundo. Sentia como que um alívio… João, o pai do Francisco, não estava, ele cuidaria da Diná a noite toda… Tinham dois ou três filhos de médiuns, aqueles já capazes de entender o que é que significava uma gira de Exu.

 

Os Umbandistas eram adoradores do demônio?

 

Uma vez Maria a preta, interrogada pelo filho mais velho da Ágata, respondeu:

“Os Exus são espíritos que desencarnaram há pouco tempo. Eles ainda ficam perto de nós e gostam de se disfarçar, de nos impressionar. Por isso se parecem com demônios. Mas o contato com eles, ao invés de nos escravizar, nos liberta dos nossos impulsos mais miseráveis. Os Exus nos permitem reconhecer os impulsos mais miseráveis dentro de nós e não segui-los”.

Ela tinha falado um português perfeito para convencer o filho da Ágata de que o que estava dizendo era verdade.

Agora Maria, a preta, estava dançando na frente dos atabaques, de costas para os consulentes, “Exu, ele é o Rei da Encruzilhada”, “Na Umbanda, sem Exu não se faz nada… Aleluia!”.

Enzo era o único a não ter o cordão vermelho e preto, mas um branco, colocado de maneira diferente, do pescoço descia para trás das costas, sobre as nádegas, até a cintura… Natália movia os braços para frente e para trás, de olhos fechados, Sara dançava e parecia cansada dos seus setenta e cinco anos. Pele escura, rosto índio, cabelo branco, angelical… Plínio, no lado direito do altar, cantava com voz altíssima, mas desafinada; a filha do Francisco, no corredor entre os consulentes e os médiuns, frente à porta, era a que gritava mais forte: “Exu, ele é o rei da encruzilhada, na Umbanda sem Exu não se faz nada!”.

Janaína dançava com os dedos das mãos juntos, como quisesse transforma-los em duas flechas ou espadas. Maria a loira, Silvia… Sofia, no canto esquerdo do altar, cantava e dançava com pequenos passos e movimentos mínimos, dos braços.

De repente, Francisco tremeu. A cabeça, o pescoço, as costas. Os braços sacudiram como se o pai de santo estivesse possuído. Acalmou-se. As mãos em cima das nádegas, direcionadas para trás. Curvou-se. Levantou uma perna, depois a outra. Esticou-se. Olhou para o Zé. Zé juntou as mãos, curvou-as duas vezes na direção do chão e disse:

“Boa noite, Seu Sete!”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

10.

 

Pai Francisco não era mais Pai Francisco.

Este era o mistério da Umbanda.

Agora ele era Exu Sete Encruzilhadas. Ou seja, o pai de santo tinha emprestado o corpo ao Exu para que Exu pudesse se comunicar com os médiuns e desenvolver os trabalhos espirituais necessários para que ele e os espíritos ao seu redor encontrassem o caminho da luz.

Este era o grande mistério da Umbanda.

Os espíritos iriam ajudar os encarnados para que eles seguissem suas caminhadas com harmonia. Os encarnados obtinham o auxílio dos desencarnados através de oferendas e rezas.

 

 

Pai Francisco levantou o rosto e fitou Zé com uma expressão entre a vida e a morte. O brilho dos olhos tinha desaparecido, deixando em seu lugar uma espécie de ausência. Parecia drogado, mas não estava. Parecia inspirado. O crânio era autenticamente africano, porque os ancestrais tinham retomado posse do que somente emprestaram.

Francisco agora não era mais o dono de um pequeno comércio, mas um grande feiticeiro. E pediu para fumar e beber.

Zé entrou na casa de Exu, abriu a segunda gaveta no canto direito e pegou um charuto.

Encostou-o nos lábios do Exu Sete Encruzilhadas, incorporado no Pai Francisco do Centro Espirita Filhos de Xangô.

Pegou os fósforos no bolso do jaleco branco e acendeu o charuto.

Voltou para a casa da entidade.

Apanhou uma garrafa de vinho da mesa cheia de vinhos e licores. Encheu um copo de metal e levou até Exu.

Ele logo bebeu um gole.

Zé aproximou-se do sino, pendurado na casa do Seu Sete, e o tocou três vezes.

Exu fumou porque os espíritos precisavam lembrar o que tinham feito em vida. Por isso os médiuns lhes proporcionavam estes pequenos prazeres.

Exu pediu a Zé que entrasse na casa e pegasse a capa preta, a cartola preta e o tridente.

Zé obedeceu e vestiu a entidade que agora tinha uma cartola na cabeça, uma capa preta com bordados vermelhos em cima da túnica vermelha que o Pai de Santo tinha vestido antes da sessão.

O tridente na mão esquerda.

O charuto na direita.

Zé o seguia com a garrafa de vinho branco e o copo de metal.

O Sete foi logo verificar se tudo estava pronto para o churrasco. Estava sim; linguiças, frangos, salsichas, cortes de alcatra, contra filé e músculo.

O filho do Plínio em pé, atrás da mesa. O fogo vivo na churrasqueira de metal, ao lado da mesa.

“Boa noite”, disse Exu.

“Boa noite”, respondeu o rapaz.

“Tudo isso é pra mim?”, disse o Sete.

“É”, respondeu o filho do Plinio.

“Eu mereço, não mereço?”, disse Exu.

“Merece”, respondeu o rapaz.

“Sou ou não sou o dono da casa?”

“É”.

“Não entendi”, disse o Sete, “eu sou ou não sou o dono da casa?”.

“É”, disse o filho do Plinio.

“Não entendi, EU SOU OU NÂO SOU O DONO DA CASA, PORRA!”.

“É”, gritou o filho do Plinio.

“Agora sim, caralho!”, comentou o Sete e pediu mais bebida.

Zé lhe encheu o copo.

“Pode assar”, disse o Sete. “Hoje é a minha festa e não quero ver ninguém passar fome…”.

Era o sinal.

O filho de Plinio pegou a linguiça, os frangos, as salsichas e os colocou em cima do fogo.

“Como vão nossos filhos da Umbanda?”, perguntou Seu Sete.

“Estão no terreiro, esperando pelo senhor”, respondeu Zé.

“Vamos deixar esperando?”, disse Exu, irônico e ambíguo como sempre.

Ele e o Zé estavam caminhando na direção do terreiro, quando Exu viu que Tereza não estava atrás do balcão, como de costume, mas sim o Júnior, marido da Sofia, Mãe Pequena do Centro Espírita Filhos de Xangô.

“Seu Júnior”, disse Exu. “Boa noite”.

“Boa noite, Seu Sete”, respondeu Júnior e apertou a mão do espírito.

“Não quero vê-lo aqui mais não, o seu lugar é no terreiro, de branco…”.

“Seu Sete…”, começou o Júnior.

“Não quero saber nada não… Se não vestir o branco, pode ficar em casa… Cadê Dona Tereza?”.

“Não sei, mas ela não veio”.

“Temos que perguntar ao Plinio”, disse o Zé.

“Então vamos falar com o Plinio, caralho!”, gritou Exu, tragando do charuto.

 

“Chegou!

Chegou!

O dono da casa chegou!”.

 

“Chegou!

Chegou!

O dono da casa chegou!”.

 

“Chegou!

Chegou!

O dono da casa chegou!”.

 

Estas eram as palavras gritadas pelos médiuns que, frente ao altar, cujas cortinas estavam fechadas, tinham formado um círculo. O centro, agora vazio, era o lugar do Exu que, porém, parou logo na entrada para cumprimentar a consulência.

O terreiro estava cheio. “Boa noite”, disse Exu apertando as mãos de todo mundo, um por um. “Boa noite… como vai?”, continuou, alguns responderam, outros queriam fazer logo um pedido, contar suas histórias. “Você está aqui?”, disse o Sete para uma mulher loira, de cinquenta anos. Era Júlia, mãe das filhas do Francisco. Vestia calça preta e uma camisa vermelha. “Vim visitar o senhor. Preciso conversar…”, disse a mulher. “Depois… “, respondeu Exu tomando o seu lugar, no centro do círculo dos médiuns.

 

O charuto não tinha saído da boca dele, apertar as mãos segurando charuto e tridente seria complicado demais.

Mas agora Exu pediu a Zé que pegasse o charuto e o baiano o pegou. Seu Sete ficou então com o tridente na mão esquerda e com a mão direita livre. Zé segurava charuto, copo e garrafa de vinho, com alguma dificuldade.

“Boa noite para todo mundo, boa noite para os nossos filhos da Umbanda e boa noite para vocês que vieram visitar o terreiro… Cadê o Plinio?”.

O homem deu um passo à frente.

Era alto, cabelo grisalho, o rosto com algumas manchas.

“Não foi ver o jogo do Botafogo?”.

“Fui não, seu Sete”, respondeu Plinio.

“Temos a família inteira, não temos?”.

“Temos não, Seu Sete”.

“Cadê dona Tereza?”.

“Tá passando mal”

“Ela tá com quê?”.

“Tá vomitando há três dias, se continuar, amanhã levo ela no médico”.

“E ela não veio porque está vomitando?”

“É… Seu Sete”.

“Ainda não entendeu…”.

“Entendeu o quê?”, perguntou o Plinio.

“Que o corpo não é nada, o que importa é a alma… Quando você voltar pra casa, pega nas plantas do quintal do teu vizinho duas folhas de louro, ele tem, teu vizinho é um filho da puta, já te roubou, ele te deve, caralho! Cê pega duas folhas e faz um chá. Ela vai ficar logo bem. E na próxima gira, me vem com três rosas brancas…”.

 

Seu Sete voltou para o centro do círculo e Plínio para seu lugar, ao lado do Ramon.

“Cê sabia que o vizinho roubava?”, perguntou Ramon, olhar tímido e irônico. Cabelo grisalho, Ramon era gordinho, os pés apontados para linhas laterais.

“Sabia nada”.

 

“Boa noite!”, disse Exu, em voz alta.

“Boa noite!”, responderam os médiuns em uníssono.

Zé ao lado do Exu.

Seu Sete pediu para tragar e Zé lhe deu o charuto. Ele fumou, depois segurou o charuto com a mão direita.

“Cês não cantam mais não?”, disse o espírito.

Os médiuns voltaram a suas músicas e o Exu dançou com o tridente na mão, na frente dos atabaques.

O terreiro todo cantava e batia palmas. Os três ogans batiam forte nos atabaques. E o Pai de Santo dançava, vestido como um demônio.

Se entrasse um católico, pensaria o quê?

Esta foi a dúvida de Enzo, que tinha receio das giras de Exu. Ele tinha se convencido a ser filho de Oxalá e era normal que um filho de Oxalá, a entidade mais pura, a mais pura energia, não gostasse das giras de Exu, a entidade mais escura, a energia menos unívoca.

As luzes estavam apagadas, os tambores, os cantos, a cortina sobre o altar… Todos começaram sentir a mesma força espiritual. As palavras cantadas, o som, a dança do pai de santo incorporado pelo Exu, as danças dos demais médiuns e o filho de Plínio que, na entrada do terreiro, estava assando a carne, o cheiro das linguiças… Era dia de festa, de incorporações, de trabalhos espirituais… “Exu come fogo quando quer!”, “Exu come fogo quando quer!”.

“Filho da Umbanda pede com fé, Exu te dá o que tu quiser!”.

“Filho da Umbanda pede com fé, Exu te dá o que tu quiser!”.

 

O demônio de capa preta, túnica vermelha e tridente na mão, ergueu o tridente como um amuleto.

De repente, o terreiro ficou silencioso.

“Cês devem se perguntar porque hoje trouxe este instrumento e alguns devem até pensar que eu sou o diabo, mas eu sou um espírito de luz, caralho!

Não julguem pelas aparências! Não é, seu Zé?

Não é seu Plínio?”.

Exu andou até o Ramon. “E o senhor, como é que vai?”

“Bem”, respondeu o Ramon.

“Tem certeza?”, replicou Exu fitando o médium nos olhos.

Os olhos do Exu Sete Encruzilhadas pareciam querer mais, sempre. Não se contentavam com o que viam. E não viam o que estava atrás, não viam os pensamentos, ou pelo menos, fingiam não conhecer os pensamentos dos médiuns, fingiam precisar de um esforço para entender, para ver. Exu ficou a um metro do Ramon. Apertou sua mão.

“O senhor tá pensando em criar galinhas?”, perguntou.

“Tô pensando não”, disse Ramon.

“Então pense!”, gritou Exu. Que fez um passo para direita, “Hoje é a minha festa e ainda não cumprimentei as mulheres!”.

Virou as costas à turma dos médiuns homens e passou à fileira de mulheres. Parou em frente de cada uma e apertou as mãos.

“Dona Sara, é um prazer revê-la”.

“Silvia, você está aqui! Achei que não viesse!”.

– Por que, Seu Sete? -, respondeu a garota, tímida e cheia de admiração pelo seu Pai de Santo.

– Você e aquele cara que tem medo de mim pensaram em não me ver mais, não pensaram? –

Silvinha olhou direto para Exu, sem medo.

– Pensamos – respondeu.

– Por isso achei que vocês não viessem, mas depois aquele cara… -, todos os médiuns olharam para Enzo, – Mudou de ideia pela centésima vez e vai mudar ainda. Mas ele pertence à Umbanda, quer queira quer não…

– Ágata, minha querida! -, disse Exu e abraçou a Ágata, toda encolhida. – Por que tão receosa, me abraça, Ágata! – continuo o espírito e a moça aceitou o carinho.

Exu abraçou Sofia e Natália também.

Depois virou-se para a fila dos homens e gritou: – Crie galinhas! Entre elas sete galos pretos, um com uma pena azul! -.

Ramon fitou Exu sem dizer nada.

– Entendeu, macumbeiro? -, perguntou Seu Sete.

“Entendi!”, gritou Ramon, alto.

– Cê responde alto, forte, bonito… Aqui todo mundo fala tão baixinho, todo mundo com medinho do espírito, do dono do terreiro, eu sou, sim, o dono do terreiro e o porteiro, sou eu que dou a permissão para os espíritos chegarem e eles me obedecem. Mas não tem que ter medo, tem que respeitar e pensar. Pensar muito, entendeu, Seu Zé? –

– Entendi – disse o baiano, que não tinha desgrudado das costas do Exu, com o charuto, o copo e garrafa de vinho nas mãos.

– Quantos anos você tem, baiano? –

– Setenta e cinco –

– Será que o meu burro vai chegar à tua idade? -, perguntou.

– Chega, sim – disse o baiano.

– O meu burro merece, ele passou por tantos percalços e vai enfrentar muitos mais. Ele quer que eu abra os caminhos, mas eu não vou abrir porque Oxalá mandou ele superar as porradas da vida com o auxílio de suas forças e sua mediunidade, entendendo por si como, quando e porquê. Diga isso pra ele: ele deve entender sozinho, sem a ajuda de macumba nenhuma, o que fazer para crescer e vencer as mazelas da vida. Diga pra ele que ele vai tomar muita porrada, mas eu estarei sempre com ele e não sou eu, toda a coroa espiritual, Xangô que é o pai de cabeça, e Oxum, Ogum, Iemanjá… Diga pra ele que nós o amamos, por isso ele se tornou Pai de Santo e isso deve bastar-lhe…  Entendeu, Seu Zé? –

– Entendi – respondeu o baiano.

– Muito bem! Muito bem! – disse Exu e, de repente, virou-se para Ramon.

“Crie galinhas! Entre elas sete galos pretos, um com uma pena azul!”, gritou.

“Entendeu? Crie galinhas, entre elas sete galos pretos, um com uma pena azul!”, repetiu.

“Não entendeu ainda… Então vou repetir: crie galinhas, entre elas sete galos pretos, um com uma pena azul… Tá surdo, não tá?”.

O espirito riu.

A maioria dos médiuns riu também.

 

– E agora que conversamos um pouco, agora que cumprimentei todo mundo… Não cumprimentei? – comentou Exu olhando as caras das duas Marias.

Exu andou pra cima e pra baixo e apertou as mãos de todos os que faltavam. Parou em frente ao Enzo.

– A sua não vou apertar não -, disse.

– Por que, Seu Sete? – respondeu o Pai Pequeno.

– Você é um filho da puta! -.

“Eu?”, disse Enzo.

– Sim, você, você… – Seu Sete colocou o indicador direito no peito do Enzo. Ele deu um passo para trás.

– Não se encolhe não, tem que me enfrentar!

– Eu não quero enfrentá-lo

– Então para de falar merda, caralho!

– Eu não falo merda!

-Você tá enfrentando!

– Tô não

– Tá sim, você tá me enfrentando… Você é filho de quem?-

– Do senhor e da senhora Uchoa -, respondeu Enzo.

– Isso eu sei, caralho! Você é filho de quem? -, perguntou Exu, de novo.

– Na Umbanda sou filho de Xangô com Iansã e no Candomblé de Oxalá com Oxum -.

– Isso não existe! Você vê que é um filho da puta! –

– Sou não, Seu Sete –.

-É sim!-.

– Sou não -, repetiu Enzo e tremeu da cabeça aos pés. Estava incorporando.

– Eu não mandei ninguém descer!-, gritou Exu Sete Encruzilhadas e Enzo parou de tremer.

 

 

 

O terreiro, silencioso, aguardava os passos de Exu Sete Encruzilhadas. Todo mundo, com exceção do filho de Plínio que estava assando a carne, escutava com interesse e ansiedade as palavras do espírito. Júnior também escutava, em pé, na porta do terreiro.

O filho de Plínio já estava adiantado na preparação do churrasco e Júnior disse, em voz alta: “A carne está pronta. O que vamos fazer?”.

Exu, no centro do círculo formado pelos médiuns, tinha acabado de falar com Enzo. Virou-se. “Hoje é dia de festa, não é? Então não vou me aborrecer… Todo mundo se perguntou o porquê deste instrumento”, disse erguendo o tridente. Empurrou a mão direita para o lado e Zé serviu o vinho, no copo. Exu bebeu. Pegou o charuto também e agora tinha charuto e copo na mão direita, o tridente na esquerda.

“Segurar tá meio complicado, mas eu sou Exu Sete Encruzilhadas!”, disse e todo mundo riu. Enzo também riu pensando que era o jeito dele, era o jeito do Exu. O espírito era meio grosseiro, se não fosse tão grosseiro não conseguiria empurrar os espíritos mais fracos para cima. Nenhum espírito fraco, de pouca luz, o escutaria se ele não mantivesse este tipo de atitude, nenhum espírito recém desencarnado de um corpo doentio, de um homem ou de uma mulher de dúbia moralidade, teria obedecido a ele… Mas ele queria empurrar os mais frágeis pra cima, mostrar a eles o caminho… E tratava os médiuns da mesma forma como tratava os espíritos, por que ele também precisava de luz e de alguém que o ajudasse a encontrar sua própria luz.

– Cês acreditam não terem invejosos ao seu redor? Acreditam serem imunes ao ódio? Serem protegidos por armaduras? Todos vocês estão sendo atacados… -, disse dando uma volta e apontando o tridente na direção dos consulentes e, depois, dos médiuns, – Por muitos lados e precisam se defender! Os filhos da Umbanda precisam e os consulentes do centro precisam também! Precisa o Enzo que não gosta de mim e a Natália que de mim ainda gosta. E do meu burro também -, disse e sorriu malicioso.

– O Ramon precisa pra criar suas galinhas em paz e o Plínio para cuidar da sua esposa. E não tô falando só de magia negra, de alguém que fez algum trabalho contra vocês. E isso acontece! Mas tô falando de quem só deseja ou desejou seu mal. Quantos que nós acreditamos ser nossos amigos na verdade querem  nos foder! Querem que vocês se deem mal! Querem destruir vocês, querem que vossa família se foda, vossa mesa caia, vosso lar desmorone, vosso trabalho suma, vossos passos tropecem, vossa saúde piore e chegue o fim para vós! E alguns desses vão até a um centro e pedem um trabalho de magia negra ou fazem eles mesmos em casa, os que sabem fazer. O pai de santo aceita em troca de dinheiro e chama um Exu que nem eu, e este Exu, o que deve fazer? Ele obedece, por que são vocês que chamam… Esse Exu não sabe que ele vai se afastar da luz fazendo o mal porque não teve um Pai de Santo como o meu burro que explicou isso pra ele. Não é culpa do Exu, é culpa do homem que deseja o mal, que quer o mal do outro. É o homem que é mau, não os espíritos. Os espíritos tão tentando melhorar, mas precisam de um guia, de um pai de santo inspirado que nem o meu burro… Por isso eu, no dia da minha festa, decidi proteger vocês… – disse Exu e pousou o Tridente no meio do círculo dos médiuns.

Zé tinha saído e agora voltava com o defumador cheio de carvão, aceso, na mão direita, um pote de ervas na mão esquerda. Colocou o defumador no chão. E pegou o vinho da mão do Exu, que ficou só com o charuto. Exu mandou Zé baixar as ervas e colheu algumas do pote, colocando-as no defumador. O terreiro agora cheirava a ervas e incensos.

– Cada um de vocês vai chegar até o tridente, vai tocar as pontas com a mão esquerda enquanto eu o defumarei. Depois vai levantar, pensar no Pai Oxalá e pedir proteção a Zambi… Um por um -, disse.

Enzo e Sofia logo organizaram os médiuns em duas filas.

Os médiuns, um de cada vez, se aproximaram do tridente, alguns se ajoelharam, outros se acocoraram, tocaram as três pontas, levantaram enquanto Exu os defumava, e rezaram olhando para o altar cujas cortinas continuavam fechadas. Enzo e Sofia também se acocoraram, foram defumados e rezaram. Depois o Pai Pequeno e a Mãe Pequena dividiram os consulentes em duas filas. Entre eles o Júnior e o filho do Plínio. Todos passaram os dedos das mãos esquerdas no tridente, todos receberam esta forma de proteção contra o mau olhado e a magia negra.

“A inveja mata”, disse Maria para Janaina.

“Mata mesmo”, comentou a mulher com cara de índia olhando para Antônio, o último médium a ingressar no corpo mediúnico do terreiro.

Ágata, a passos largos, retomou seu lugar no círculo.

“Zé”, disse Sara, esbarrando no marido, “tô cansada, cê não tá?”.

“Agora tu vai incorporar e o cansaço passa”, comentou o baiano que morria de ciúmes porque ele queria incorporar também. Mas o Pai Zambi não permitia.

 

 

 

 

11.

 

 

Depois do ritual de proteção que Enzo chamaria de descarrego, Exu disse que os médiuns não de consulta iriam para o pátio servir o churrasco enquanto os médiuns de consulta ficariam no terreiro.

Exu Sete Encruzilhadas, com um movimento do braço do alto para baixo, tinha permitido aos espíritos descerem.  Eles tinham atravessado a portaria, Exu os fez entrar porque os conhecia muito bem e era raro (mas acontecia) encontrar novos espíritos querendo ingressar. Maria Bispo incorporou em Sara. Começou a dançar e Zé sorriu, pensando que alguns minutos antes a mulher tinha dito que estava morta de cansaço… Silvinha tremeu da cabeça aos pés. As mãos, principalmente. Os cabelos pretos rodopiaram, os cotovelos iam rápidos para frente e para trás. Assim que o espírito chegou ela partiu para a dança. A Pomba Gira da Silvinha riu, riu a Maria Bispo da Sara. Eram gargalhadas de prostitutas na porta do bordel, de ciganas, de mulheres de muitos homens e inúmeras experiências. As Pombas Giras pararam para cumprimentar Exu Sete Encruzilhadas. Pareciam velhos conhecidos na sala de uma casa burguesa, antes de um baile. Convidados numa festa. E de fato, eram os convidados ao churrasco que o Centro Espírita Filhos de Xangô tinha preparado para o dia de Exu, treze de junho.

Sofia também rodopiou sobre o pé direito e deu uma gargalhada. Não era mais a Sofia, mas a Maria Padilha da Porta do Cabaré que gostava de fumar um cigarro atrás do outro, os “pito”, como ela dizia.

Chegaram Exu Caveira, as mãos cruzadas nas costas e Exu Sete Palmos, que andava mancando e logo pediu a um médium que dobrasse a bainha da calça; ele gostava de olhar para os pés e vê-los nus.

Ainda não tinha chegado Exu Meia Noite, Enzo então cumprimentou a Pomba Gira da Silvia frente à assistência; os dois cochicharam algumas coisas entreouvidas pelos outros. Os médiuns incorporados e não incorporados saudaram-se, repassando-se as energias. Plínio incorporou, tremeu, dançou, voltou a tremer, parou, em pé. Fechou os olhos, dirigiu-se para a frente do altar do Pai Oxalá encoberto pela cortina. O espírito foi embora e o médium ficou de olhos fechados. Com Ramon acontecera uma só vez de ser possuído totalmente e foi quando Seu Meia Noite tinha colocado a cartola preta em sua cabeça. O médium ajoelhara-se e explodira numa gargalhada louca. Agora ele tremeu, moveu as pernas para frente e para trás, ficou de pé, fechou os olhos, voltou a si.

Os dois médiuns foram até o pátio para servir o churrasco aos visitantes.

– Podem comer à vontade e beber o meu vinho…-, disse Exu Sete Encruzilhadas, e Zé mandou Plínio e Ramon abrirem as garrafas de vinhos italianos que o novo médium, o último a chegar, tinha comprado.

– Enquanto cês comem, cês outros vão ter consulta, depois revezam… Disse revezam, viu? Tô ficando culto! – disse Exu e quem o ouviu riu.

Seu Sete encarou o novo médium, que morava numa casinha perto do terreiro e era pobre feito um diabo. Tinha três filhos e uma dívida com o banco por causa de um empréstimo feito para comprar um barraquinho no Morro do Urubu, no fim da subida que se iniciava com a porta do terreiro. “Tu viu uma pedra deitada?”, disse Exu.

-Vi, sim-, respondeu o médium, acanhado. Magro.

– A pedra quando é bonita, ela fica de pé… Quer ser feio? –

-Quero não-, respondeu o rapaz.

– ENTÃO FICA DE PÈ!-.

Exu Sete Palmos estava ao lado do Sete Encruzilhadas. – Minha calça -, disse indicando a bainha.

O médium ajoelhou-se, deu três voltas na bainha da calça branca de Exu Sete Palmos.

-Tá bom assim?-, perguntou.

Sete Palmos fez que sim com a cabeça e foi embora. Exu Sete Encruzilhadas também, na direção do pátio.

O médium Antônio seguiu os dois Exus para ver se precisavam dele para servir o churrasco e o vinho que, com muitos sacrifícios, tinha comprado para a festa. Exu cismava que ele era italiano, só por ter ascendência italiana. E lhe pedia presentes caros. Antônio comprava porque achava que, atrás das palavras do espírito, havia uma razão. Por Antônio, Exu Sete Encruzilhadas era um espírito de luz. Mas como lhe pesava no bolso!

Tinha trabalhado dia e noite, à noite ele pintava no barraco, enquanto a esposa e as crianças dormiam, e de dia dava aulas de arte na escolinha da Prefeitura, no comecinho do morro. Exu tinha dito fica de pé, tu viu uma pedra deitada? E Antônio sabia que o espírito pensara na sua depressão… Tinha passado um tempo, antes de conhecer Carminda, que dormira ao lado de uma banca de jornal em Copacabana. Ele saiu do morro depois do falecimento da mãe (o pai tinha sumido há tempo) e acabou indo morar na rua. Aí veio um jornaleiro, o Sr Afonso, que o viu pintando suas telas em frente a um boteco. Afonso gostou de uma figura feminina, nua, de costas. Comprou a tela e o deixou dormir ao lado da banca. Naquela época Antônio pintava os transeuntes, os taxistas esperando clientes na esquina entre a Figueiredo e a Tonelero, os bêbados… Tinha um que vivia cheio de problemas de saúde, tinha sido internado, tinha passado pela UTI e sobrevivido milagrosamente. Contava sua historias sentado em frente ao bar, numa cadeirinha de madeira, dizia que o médico tinha prescrito uma dieta, mas ele tomava cerveja, engolia salgadinhos. Antônio pintou o retrato do homem: um dragão verde cheio de manchas vermelhas, a cara entre humano e demoníaco. Estava constrangido, o dragão, e dava a impressão de um animal doente que tinha sido alguém, mas que agora era ninguém. Era magro, esforçava-se para cuspir fogo, mas da boca não saía nada. As manchas vermelhas ocupavam as extremidades do corpo e estavam a caminho do coração. O dragão, tentando cuspir fogo, olhava para o próprio peito com cara preocupada. Na expressão dos olhos, porém, olhos idênticos aos do cliente do bar, ainda havia algo da antiga glória.

 

Exu Sete Encruzilhadas conferiu a mesa da carne. “Hoje cê caprichou…”, disse para o filho do Plinio.

Exu Sete Palmos não desgrudava das costas dele e Zé servia a bebida para os dois.

Isso não era comum, o Sete Encruzilhadas compartilhar vinho com outros Exus.

Plinio, Ramon e Antônio serviram a carne nos pratos, junto com farofa, arroz e feijão.

Estavam de frente para o portão; a vela vermelha e preta para Exu acesa no lado direito da porta e a vela preta para Maria Quitéria no lado esquerdo.

Em cima da vela vermelha e preta havia uma ânfora que firmava o ponto de Ogum, orixá dos guerreiros e regente da falange dos Exus.

Os consulentes foram até a mesa, pegaram os pratos, sentaram-se e comeram.

Plínio estava trabalhando de garçom.

Ramon cortou a carne, colocou-a na bandeja.

Antônio abriu as garrafas, encheu os copos do vinho que ele tinha comprado.

Exu Sete Palmos, como um servente ou um pedinte, estava ao lado do dono do terreiro, tomando o vinho de sobra do copo dele.

Zé aguardava as dicas dos dois, preocupado, como sempre, para que os trabalhos espirituais procedessem bem.

No terreiro, alguns consulentes estavam sentados nos bancos aguardando o momento para falarem com as entidades. Outros, em pé. As luzes baixas. Em frente às Pombas Giras, aos Exus, também em pé, os consulentes perguntavam, recebiam conselhos, dicas para trabalhos, macumbas que deveriam ser feitas e deixadas nas encruzilhadas. Ou banhos de flores e cravos que deveriam ser tomados, melhor à noite, do pescoço aos pés, sem molhar a cabeça.

Maria Bispo estava no canto, entre o altar dos orixás e a portinha que dava ao corredor com o ponto do anjo da guarda, onde os médiuns colocavam seus saquinhos com as guias, ao lado da porta da cozinha e da escada que levava aos vestiários.

Maria Bispo vestia roupa vermelha e preta. Olhar divertido e cara de muito trabalho feito. Cabelo branco, fininho. Ria, mas não era vulgar.

Atrás dela, o fuxico. Uma tábua de madeira, retangular. Com alguns sinais desenhados com giz, as “pembas”. Duas cruzes. Uma linha para dividir as cruzes. Uns traços. Ela tinha colocado sete pétalas vermelhas. Tinha jogado as pétalas em cima da tábua e observado as rosas caírem. Maria Bispo era um espírito que trabalhava com magia. Fazia previsões, curava o corpo através dos trabalhos. Perto da tabua três velas acesas. As luzes refletiam-se na tábua, encurvavam-se sobre as rosas, criando sombras que Maria Bispo interpretava. Os reflexos produzidos pelas luzes que mudavam a cada instante, a cada consulente, eram os que ela lia antes de responder às perguntas.

Era muito requisitada a Maria Bispo, e agora eram sete pessoas aguardando suas palavras.

Terminou de preparar o fuxico. Juntou as mãos em cima das rosas como tinha feito antes de despetalar. Tinha se dirigido ao Pai Oxalá, a cortina, aberta pelo Enzo, permitia a Oxalá, Xangô e Oxum ver o que estava acontecendo no terreiro, enquanto os outros Orixás continuavam no escuro.

Maria tinha rezado com a rosa entre as mãos, de olhos fechados. Tinha preparado sua tábua, pedido para a cambona acender as velas, tinha colocado as velas perto da tábua, jogado as pétalas, que tinham caído devagar. Tinha levantado, rezado com a rosa sem pétalas entre as mãos, na altura da testa. Tinha entregado a flor para a Ágata e, de olhos fechados, esperado o primeiro consulente.

Apareceu um rapaz de calça comprida, preta, e camisa preta.

– Por que cê não tá de branco? -, perguntou Maria.

– Saí do terreiro, a senhora não lembra?-.

-E sua vida piorou, não piorou?-.

-Piorou-, respondeu o rapaz.

-Sua esposa fugiu com outro, não fugiu?-, disse Maria Bispo.

– Fugiu -, respondeu o rapaz.

-Um moço de cabelo grande fez um trabalho pra ficar com ela… Ela é muito bonita, não é?-, perguntou Maria.

-É-, respondeu o rapaz.

– E te amava, não te amava?-.

– Eu acho que não, Maria Bispo -.

-Ela te amava sim, cês têm um filhinha juntos, não têm?-.

-Temos dois filhos-, disse o homem.

-O rapaz não é teu!-.

-Como assim?-, disse o de preto.

-Ele é filho do outro, do que te roubou a mulher… -; A Bispo olhou fixamente para as sombras das luzes das velas refletidas em cima da tábua, – Ainda te ama, mas tá confusa, ela também precisa vestir o branco pra se cuidar… Mas ela não quer, quer?-.

-Não quer-, respondeu o rapaz, abatido.

-Não fica assim, é melhor conhecer a verdade-, comentou Maria Bispo. -Cê quer ela de volta?-.

-Não quero não!-, gritou o rapaz e fez iiiiiiissshhh, com a boca.

-iiiiiiisssshhhh… – fez Maria Bispo.

O rapaz tremeu, vibrou, colocou as mãos nas costas.

Suspirou, pareceu com falta de ar. Tranquilizou-se.

Tinha incorporado Exu Tranca Rua.

– Boa noite – disse o Exu para a Maria Bispo.

-Diga pro seu burro que ainda dá pra recuperar a menina e perdoar -, respondeu ela.

O Exu levantou o pé direito. Pisou no chão. Levantou o esquerdo. Pisou devagar, produzindo uma espécie de caminhada.

Maria Bispo virou as costas. Olhou as velas e as pétalas.

De repente, virou de novo. O rapaz tremeu, vibrou, desincorporou.

Abriu os olhos.

-Cê vai na mata que tem atrás da sua casa. Cê pega aquelas flores bonitas que crescem perto da árvore que cê gosta muito. Cê não gosta daquela árvore?

Cê pega as flores que cê sempre olha. Banha cada flor com perfume, molha mesmo, bem perfumados mesmo, depois cê coloca as flores na cama, no lado que essa mulhé ocupava, cê deixa as flores sete noites no lugar da cama que era dela. Quando as flores apodrecer, cê leva pro mesmo lugar onde cê pegou, do lado da grande árvore que cê gosta. Cê pede pro Pai Oxalá pra ter sua mulhé de volta, cê promete cuidar do filho que não é seu. Cê promete também não trair sua mulhé mais não, cê promete parar de ser descarado. Cê para de ser descarado, cê cuida da criança que não é a sua, cê terá sua mulhé com ocê por muito tempo. Cê continua desse jeito, cê terá outras mulhé, mas nenhuma pra dormir com ocê mesmo. Porque o lugar é dela, de mais outra não…-, disse Maria Bispo.

O rapaz a encarou, pensativo. Depois lhe deu a rosa que tinha trazido e voltou para o banco.

Maria Bispo despetalou a flor em cima de sua própria cabeça e riu, loucamente.

Em frente a ela passou Maria Padilha da Porta do Cabaré. Maria Bispo levantou a saia, Maria Padilha disse boa noite. “Eu quero ir no meu lugar perto da casa do Seu Sete, quero dar minha consulta lá!”, disse Padilha.

– Hoje tem churrasco!-, respondeu Bispo.

-Eu quero dar minha consulta lá -, continuou a Padilha.

-Vejamos se dá pra dar consulta lá-, disse Maria a preta, que pegou o braço da Padilha e a acompanhou até a porta.

A Pomba-Gira da Silvinha estava encobrindo uma mulher com a manta preta.

A consulente tremeu e a Pomba-Gira riu.

A consulente vibrou, balançou. Era uma senhora de sessenta anos, magra, loira. Olhos azuis. Colocou as mãos nas costas.

-iiiiiissshhhh….- fez com a boca.

-iiiiiisssshhh….- repetiu a Pomba-Gira e riu, de novo.

A Pomba-Gira deu uma volta ao redor da consulente, balançou os cachos pretos como ondas, levantou a manta, a saia, mas não dançou. Parou na frente da mulher que não era mais a consulente, mas Exu.

 

– Eu quero ele pra acender meu pito!-, disse Maria Padilha da Porta do Cabaré para o Seu Sete.

– Ele é simpático, não é?-.

Seu Sete riu. –Antônio!-, chamou e o médium parou de servir o churrasco.

– Ele é pintor, cê sabia?-, disse Padilha.

Seu Sete anuiu.

-Eu quero que cê pinta eu, de tão bonita que sou!-, disse Padilha e Maria Preta riu.

Antônio pegou um cigarro do maço que Maria a preta lhe deu, acendeu com os fósforos que tinha no bolso da calça branca, não tragou e deu para Maria Padilha.

-Pode fumar-, disse Padilha.

Antônio pegou o cigarro de volta. Fumou.

-Cê pinta eu?-, disse Padilha, -Eu tive muitos homens, cê sabia?-.

Antônio sorriu e encarou a Pomba – Gira.

Era uma mulher bonita, de cabelo castanho até as costas, em pé de frente para a casa do Seu Sete, ao lado da mesa do churrasco e da churrasqueira onde o filho do Plínio ainda assava a carne. O cheiro e a fumaça estavam muito fortes e Antônio tapou o nariz.

-Tá resfriado?-, perguntou Padilha.

-É a fumaça-, disse Antônio.

-Seu Sete – replicou Maria Padilha da Porta do Cabaré, – a fumaça faz mal pra ele!-

-Ele é frágil – começou o Sete parecendo falar para si, – Por isso ele vai tomar decisões erradas -.

– Que decisões?-, perguntou Antônio.

– NÃO COMPRAR MEUS PRESENTES! – gritou Exu e riu feito um demônio.

-Quer ser jubiloso? Quer mostrar sua arte pro mundo? Na próxima lua cheia eu quero churrasco de peixe! Eu vou cobrar, ouviu?-, disse Exu Sete Encruzilhadas.

Plínio comentou: “Ele cobra mesmo!” e olhou Antônio com cara de medo.

Pouco faltou para o pintor fazer xixi nas calças. “O que tô fazendo aqui?”, pensou, mesmo sabendo que podia deixar de frequentar o terreiro e não tinha mais obrigação nenhuma, ou seja, ele podia organizar o churrasco, pagar o que devia pagar ou pedir aos outros médiuns que o ajudassem, mas não era obrigado a estar presente. Nem em voltar.

E se não organizasse nada?

Não, isso não faria. Exu não era um espírito de não se respeitar. Exu existia, este era um fato. Ele podia deixar o terreiro e não ter mais nada com ele nem com o Pai Francisco, Enzo, Sofia e os outros… Mas não fazer nada na próxima gira de lua cheia, se comportar como se Exu não tivesse dito nada, isso ele não podia fazer. Era perigoso demais para ele. Porque Exu cobraria pelo lado espiritual e quando pedia para fazer alguma coisa, cumprir uma obrigação, organizar um churrasco, tinha um por quê. Talvez o espirito percebesse a possibilidade de Antônio vender suas telas e viver disso.

Sete Encruzilhadas virou para o filho de Plínio dizendo: “O italiano tá ferrado!”.

Possível que o espírito não entendesse que ele não era italiano, mas descendente de italiano?

O desentendimento começara quando Janaína apresentou Antônio ao Pai Francisco; “Este é amigo meu, mora lá no morro… É sangue bom, sangue italiano”, “Ah, você é italiano?”, Francisco respondeu, “Sou descendente. Meu avô veio de Florença”.

Na primeira gira de Exu, o espírito lhe disse: “Cê veio daquela terra?”. “Não eu, meu avô”, respondeu Antônio.

“Seu avô veio daquela terra?”, continuara Exu.

“Veio”, respondeu ele.

“E trouxe a macumba daquela terra com ele!”.

“Não sei lhe dizer”.

“Eu tô dizendo! Ele trouxe a macumba de lá com ele, por isso que cê tá aqui…”, falou Exu e Antônio, para todo o terreiro, tornou-se o italiano. Não importava que ele morasse no morro do Urubu, que estivesse mais duro do que as pedras. Ele era italiano, pior ainda, era pintor, queria ser artista, famoso, jubiloso…

-Fica assim não-, disse Maria Padilha, – ele não é mau… Cê pinta eu?”.

 

Antônio ficou pensativo enquanto o churrasco rolava, os consulentes comiam, os tambores tocavam, os médiuns e os consulentes cantavam, dentro e fora do terreiro.

Estavam louvando Seu Meia Noite e isso significava que o Exu do Enzo estava com eles.

-Pinto sim-, respondeu Antônio fitando os lábios vermelhos, o olhar malicioso, as sobrancelhas perfeitas. Os colarezinhos de pedra no pescoço, o pito na ponta dos dedos. Longos dedos, compridos… “Pinto sim”, repetiu Antônio que estava pensando em como reproduzir Padilha incorporada na Sofia e em como organizar o churrasco de peixe na próxima lua cheia. Pensou que devia pedir a ajuda financeira aos outros médiuns porque sozinho, desta vez, não iria conseguir. Eram muitos gastos e ele ainda devia ao banco.

 

 

 

 

 

 

 

 

12.

 

 

Ele tinha dormido ao lado da banca de jornal por mais de dois anos. Tinha dois guarda chuvas que usava para proteger a si e a suas telas. Um amarelo e outro, maior, azul e verde, reproduzindo uma visão aérea da cidade do Rio de Janeiro, com o Cristo Redentor, o Maracanã e a praia de Copacabana estampados nas bandas laterais.

À noite, quando chovia, Antônio se encolhia sentado em sua cadeira de praia branca, os guarda-chuvas cobrindo-o como um bom telhado, os bêbados e os frequentadores dos bares da Anita Garibaldi conversavam, ao lado dele… O jornaleiro expunha seus quadros; quando alguém comprava, Afonso lhe dava o dinheiro sem cobrar comissão.

Antônio tinha um pequeno rádio velho e o colocava em cima do travesseiro que estava na parte superior da cadeira de praia, onde passava a maior parte do tempo. Escutava a crônica dos jogos do Flamengo e, de noitinha, música clássica. Mesmo não conhecendo os nomes dos compositores, cantarolava as melodias e batia os ritmos com as palmas das mãos.

O problema maior era a higiene. Não tomava banho todos os dias. Quando sentia vontade, ia até a praia e pagava para passar sob os chuveiros da prefeitura.

Comprava o sabão na farmácia em frente à banca, às vezes lhe davam de presente. Aqueles dias eram de festa, mas aí sim que a depressão batia… Festejar com quem, se estava só no mundo! Neto de imigrantes, abandonado pelo pai, a mãe tinha morrido e ele, já com trinta anos, não sabendo para onde ir… Tinha amado muito a mãe, sua única certeza, no morro. Ele nem tinha nascido na favela, era da Tijuca, a mãe foi para o Urubu depois da fuga do pai. O pai era artista como ele e tinha herdado um quarto e sala, na Conde de Bonfim, mas perdera tudo no jogo.

De repente Antônio lembrou-se da Maria Padilha dizer para o Júnior: “Cê tem um segredo, não tem?”.

Júnior olhando para o chão, coçou o pescoço, passou a mão no cabelo e encarou a Pomba Gira com seus limpíssimos olhos azuis.

“Não vou dizer qual é, mas cê deve saber que tá na hora de parar!”, disse a Padilha e o terreiro inteiro ficou sabendo que Júnior gastava parte do salário no bingo e com os cavalos.

Foi a Sofia que o interrogou, porque, enquanto a Padilha falava, ela, de longe, escutara o que estava dizendo.

Júnior confessou: ele jogava, era compulsivo, não conseguia parar!  Por isso a Sofia tinha sido obrigada a pagar as contas atrasadas, inclusive os juros, que tinham chegado a sua casa enquanto ela ainda achava que o marido cuidava de tudo. Eles não moravam no mesmo apartamento: Júnior ficava no Maracanã e Sofia em Copacabana, só nas sextas que dormiam juntos.

Sofia levou muito tempo para aceitar que o marido estivesse doente. Mandou-o a um psicólogo, enquanto o pai de Antônio simplesmente saiu de casa e as dívidas ficaram com a mãe que teve que abandonar o apartamento.

-Cê pinta eu?-, perguntou de novo a Padilha de lábios carnudos, segurando o pito com a mão direita. Maria Preta ao seu lado, a mesa do churrasco, a casa do Seu Sete, os consulentes e Exu Meia Noite, de branco, com a guia branca entre o pescoço e a cintura, cartola branca e bengala branca com dois anéis de brilhante numa cabeça de serpente, ultrapassando a porta que, do terreiro, levava ao pátio.

-Vou pintar o terreiro inteiro!-, disse o italiano.

– E eu, como é que cê pinta?-, perguntou Padilha.

Maria a preta riu pensando na vaidade da Pomba Gira e no fato que a Sofia era filha de Oxum e as filhas de Oxum eram as mais vaidosas da turma.

-Você é uma mulher bonita que partiu muitos corações -, disse Antônio.

-Só isso?-, respondeu Padilha.

-Não, você é… -, Antônio sentiu como que um vazio. Não tinha uma ideia formada, uma ideia artística e isso para ele era causa de angústia. Ele vivia para a arte, para ter ideias artísticas, ele tinha sobrevivido graças a sua arte.

– Você é filha de franceses que navegaram pelos mares. Eu vou pintar os mares de amarelo, seus pais de verde e o pelicano, que te viu nascer, de azul. Sua mãe acabou de sair do oceano. Tinha escapado da pior das tempestades e você nasceu na praia. Eu vejo sua mãe parindo na areia, seu pai, barbudo, conseguiu tirar a menina da barriga, cortou o cordão umbilical com uma faca, te lavou, no mar. Ele voltou e sua mãe tinha morrido. Aí chegaram os índios e te pegaram. Você cresceu no meio deles, aprendeu tudo com eles, mas continuou sendo filha de franceses -, disse Antônio sem tomar fôlego.

Padilha explodiu em choro. – Cê viu muita coisa…-, disse. O batom desmanchou pelo lado da boca, caindo sobre o pescoço.

– Seu Sete!-, chamou a Padilha.

Exu Sete Encruzilhadas, que estava bebendo vinho branco e tinha acabado de oferecer um gole a Exu Sete Palmos, deu atenção à Pomba Gira.

– Preciso viajar…, disse Padilha, e tremeu toda. Fechou os olhos, os cachos morenos balancearam, os pés firmes no chão, os joelhos se curvaram, Padilha tremeu, Padilha gritou, suspirou. Maria Preta segurou a médium que estava caindo, de costas, na entrada da casa do Sete, em frente à estátua do homem com perna de bicho, sobrancelhas pretas e cartola marrom. Sofia voltou a si. Abriu os olhos. “Pega um copo d´água, por favor”, disse Maria para Antônio.

O italiano tomou a direção da cozinha, perguntando-se porque o espírito tinha subido logo depois da história que ele tinha contado.

Não entrou no terreiro, mas passou pelo pátio e pelo corredor, defronte às casas dos Pretos Velhos, de Obaluaê, do Boiadeiro, do Caboclo e das Crianças.

O Boiadeiro era um homem preto, forte, com um chapéu de couro, um laço na cintura e uma cabaça. Estava em cima do pedestal. “Amigo ideal” estava escrito sobre ele. Quando descia, os médiuns pulavam como estivessem sobre cavalos e gritavam, no meio de bois espirituais. Eram os espíritos dos fazendeiros, dos trabalhadores braçais que levavam a manada através dos rios, das montanhas, dos morros para comer, beber, depois voltavam às suas fazendas.

O canto do Caboclo pertencia ao Cobra Coral que incorporava na Sofia. Era um índio valente, com três cobras em cima do seu próprio corpo, de cores branca, vermelha e marrom. Ele não tinha medo, dominava as serpentes. No canto dele havia um arco, uma flecha e um cocar de plumas, que vestia durante as sessões. Havia ervas, velas verdes… A energia do Caboclo era um fio de luz calma, boa. Quando descia, o índio emitia o grito de guerra, soltava flechas, saudava os médiuns e os outros caboclos batendo o peito contra os peitos, em sinal de respeito. O Caboclo era valente, orgulhoso, o melhor mentor espiritual que um médium pudesse ter. No catolicismo, se espelhava em São Sebastião.

Cosme, Damião e Doum eram os santos que personificavam as criancinhas espirituais. O canto deles era no corredor que levava à cozinha e à escada para os vestiários. As três pequenas estátuas tinham fitas enroladas nos pescoços, velas azuis e rosas acesas. Quando as crianças chegavam ao terreiro comiam doces, corriam, brincavam com as bonecas que os médiuns e os assistentes lhes ofereciam. Chupavam chupetas que os médiuns guardavam; eram os espíritos que pediam para pegar e os cambonos iam ao camarim e apanhavam as bonecas e as garrafinhas de guaraná.

Antônio apanhou a água e voltou até a Sofia, correndo.

Ela bebeu. “Por que Padilha foi embora tão de repente?”, perguntou.

“Foi uma coisa que eu disse…”, comentou Antônio, sentindo-se culpado.

“Ele disse que ela tinha nascido na praia, os pais tinham acabado de chegar da França, a mãe morreu e a menina foi pega pelos índios…”, comentou Maria a preta.

“Padilha pediu pra eu pintar ela e eu inventei essa história: o mar amarelo, um navio no horizonte, o pai barbudo, a mãe de olhos azuis, morrendo na praia… A floresta, os índios chegando, um caboclo pegou a menina dos braços do pai e ela foi criada por eles, mas nunca deixou de ser francesa…”.

“Você sabia que minha mãe era filha de franceses?”, disse Sofia.

“Sabia não, ou talvez eu tenha escutado… Você acha que uma coisa tem a ver com a outra?”, perguntou o italiano.

 

Enquanto eles discutiam, Seu Meia Noite estava cumprimentando Exu Sete Encruzilhadas, no meio do pátio.

Júlia, mãe das filhas do Francisco, atrás do Meia Noite, doida para falar com Seu Sete.

Os médiuns, dentro e fora do terreiro, cantavam:

“Lá na beira do caminho

existe um castelo

de magias e mistérios.

Ele é de Meia Noite.

 

Pra chegar lá tem que passar pela Calunga

somente as Almas é quem pode atravessar

E, na porta, um chicote pendurado,

sem chão e sem telhado,

que é pra as almas passar!”.

 

Quando diziam “Calunga”, eles entendiam o cemitério ou o mar, que, na visão dos umbandistas, era um grande cemitério. Meia Noite era um espírito que vivia da energia proveniente das terras, das águas em que tinham sido sepultados muitos corpos. Vestia a cartola branca, a guia branca, calça com bainha alta. A bengala, que Enzo tinha acabado de comprar, com uma cabeça de serpente e dois anéis no lugar dos olhos. Antônio sentia uma admiração espontânea pelo Seu Meia Noite. Enquanto Exu Sete Encruzilhadas lhe dava medo, Meia Noite tinha algo de familiar. O italiano se perguntava como era possível que ele sentisse algo fraternal para com um Exu… Observou Meia Noite, curvo na bengala, os olhos quase fechados, os cabelos despenteados. Olhava mais para o chão do que nos olhos dos médiuns e dos Exus enquanto Seu Sete, rígido como uma pedra que nunca deita, fitava, encarava os filhos da Umbanda!

-Boa noite!-, disse Meia Noite, com voz rouca.

-Boa noite-, respondeu Sete Encruzilhadas.

Meia Noite tinha uma manta branca que, junto com a cartola e a bengala, lhe dava o ar de fantasma, de pessoa antiga, de espírito tradicionalista. Sete Encruzilhadas parecia mais um diabo, por causa da estátua com a perna de bicho, da roupa vermelha e preta, das palavras agressivas. Os dois espíritos estavam em frente ao Júnior, que vendia velas e salgadinhos em lugar da Tereza; acima dos cabelos grisalhos do marido da Sofia havia uma placa com a escrita “Cantina da Amizade”.

Antônio pensou que essa era a contradição da Umbanda: espíritos que gostavam de se disfarçar de diabos para se comunicarem com os encarnados, precisando assustar para obter resultados, para fazer com que os encarnados melhorassem e ajudassem os Exus a melhorarem, a subirem na escala espiritual, a se tornar Caboclos ou Pretos Velhos. Parecia extraordinário, mas era só natural. Os espíritos progrediam como os encarnados. Os espíritos precisavam do carinho dos médiuns para caminhar e os médiuns precisavam das orientações dos espíritos, inclusive dos Exus que eram os mais materialistas e por isso, os mais temidos.

Os Pretos Velhos não assustavam quando perambulavam pelo terreiro com as costas curvadas até o chão, os Pretos Velhos não aterrorizavam quando davam seus conselhos fumando os cachimbos, tossindo, falando aquele português incorreto.

Os Exus amedrontavam. Pareciam fazer o mal. E, conforme tinha dito Pai Francisco ao Antônio, eles faziam mesmo, se não fossem doutrinados. Se não eram instruídos não só pelo Pai de Santo, mas pelo corpo mediúnico também. Se não faziam parte de um terreiro que visava ao bem, somente.

“Tô num terreiro que quer o bem?”, pensou Antônio fitando a escrita “Cantina da Amizade” e a casa das Almas atrás do Sete Encruzilhadas e do Meia Noite, que estavam conversando sem permitir a ninguém escutar.

Antônio imaginou outra pintura umbandista: os dois Exus conversando sem disfarce, sem máscaras. Como eram os dois Exus sem as vestimentas de diabos? Sete Encruzilhadas, na imaginação do Antônio, era um espírito de capa preta. Olhos brilhantes, inteligentes. Ele abria os caminhos, acompanhava as almas perdidas. Acolhia os últimos entre os últimos, aqueles que vinham de vidas complicadas, cheias de dores e escolhas erradas. Sete Encruzilhadas entendia estes tipos de almas. E por isso as ajudava, assistia-as nas encruzilhadas da cidade onde todo o mal e todo o bem do mundo ainda eram possíveis. Eram espíritos que procuravam os prazeres que tinham caracterizado os últimos anos de suas vidas. Seu Sete auxiliava a satisfação destas vontades e a descoberta de que eles ainda tinham esperança. Por isso precisava dos encarnados. Para dar comida, bebida, para ajudá-lo a ajudar as almas. Ele procurava aqueles que percebiam a presença dos espíritos. Os médiuns iam fazer algo que os melhoraria enquanto as almas deixariam de se sentir perdidas e, talvez, até de sofrer.

Meia Noite, de capa preta, morava na entrada do cemitério. Caminhava entre as lápides, com sua bengala, sua cartola preta, mas, quando incorporava no Enzo, gostava do branco. Era o guardião do cemitério. Vigiava as almas, via quem se aproximava para conversar com elas, quais médiuns e quais espíritos. Via quando as almas eram chamadas para fazer o bem ou o mal e tentava convencê-las a fazer o bem. Se não conseguia, as assistia, lhes dizia para não repetir o que tinham feito. Observava os trabalhos, as macumbas que o povo colocava entre as tumbas e, quando eram feitas para ele, se aproximava do filho que o tinha presenteado e via do que precisava: proteção, defesa, conselhos. Garantia sua presença silenciosa, não era falador como Seu Sete, era um espírito sutil e generoso, que Deus tinha colocado nestes lugares lúgubres para aconselhar os espíritos que estivessem fazendo o mal. De nada adiantava, sair de uma vida de raiva e de dor e continuar com a mesma raiva, a mesma dor. De nada adiantava responder aos pedidos dos encarnados que queriam machucar, se vingar, golpear. Ele o tinha feito e tinha se arrependido.

Antônio pintaria Sete Encruzilhadas de capa preta com olhos de fogo, sete almas ao redor dele.

Meia Noite entre as lápides, caminhando com sua bengala e sua capa. O ar antigo. Olhos fechados. As lápides cheias de almas e Meia Noite tentando direcioná-las com sua bengala. Levantando a bengala, movendo-a.

 

 

13.

 

 

Foi um Preto Velho a trazer Antônio para o terreiro.

Antônio dormia ao lado da banca de jornal. Fazia a barba a cada trinta dias. De dia pintava sentado num banco de madeira; a tela em cima de um cavalete, as cores apoiadas no cavalete, o pincel na mão direita.

Comia o que o dono do bar lhe oferecia: salgadinhos, arroz e feijão. Ele não bebia e todo mundo o tratava bem. Ninguém entendia por que estava levando aquela vida, ele tinha estudos, era gentil, educado. Só Antônio sabia que tinha deixado o morro depois do falecimento da mãe. Não tinha dito para ninguém. Ele só queria ser deixado em paz e pintar. Não queria trabalhar, procurar emprego. O emprego dele eram suas telas.

E, de fato, tinha até um trabalho, era o segurança da banca de jornal e o senhor Afonso lhe dava um trocadinho, o ajudava como podia, tinha até tentado convencê-lo a voltar para o morro ou procurar outro lugar para morar, outro emprego. Mas nada. Nada o convencia a passar seus dias de outra forma que não fosse pintar. Ele não ganhava por isso, mas era a única coisa no mundo que o deixava feliz.

 

Foi justamente esta convicção que a Carminda destruiu numa manhã ensolarada. Ela tinha acabado de voltar da praia com suas amigas. Tinham saído da Zona Norte, ela e as amigas pegaram o metrô, saltaram em Copacabana para curtir um belo domingo de verão.  Na volta para o metrô tomaram o caminho errado e Carminda, baixinha, negra, reparou no rapaz branco, sujo, barbudo, frente a um quadro. Ao lado de uma banca de jornal. Pareceu-lhe já tê-lo visto. “Cê não é o filho da Sueli?”, perguntou sem se apresentar, sem sequer olhar nos olhos dele. Antônio estava sentado no banquinho, o pincel na mão, na tela quatro barquinhos de cores diferentes, as ondas, o sol… Borrou o quadro de verde, virou e reparou em quatro meninas mais jovens do que ele.

“Sou”, respondeu.

“O que tá fazendo aqui?”, perguntou Carminda.

“Quem é você?”, disse Antônio.

“Sou a filha da Tônia, a dona do boteco, lá no beco da Gaiola”.

O boteco no beco da Gaiola, pensou Antônio e lembrou uma pretinha que corria para cima e para baixo, no morro, enquanto sua mãe lavava roupa.

“Teus irmãos te procuraram um tempão”, disse Carminda. “Rodaram o morro todo e eu também te procurei…”, a pretinha confessou.

“Quer que eu diga alguma coisa pra eles?”, perguntou.

Antônio não respondeu.

“Sua mãe morreu, não morreu?”, disse Carminda, olhos pretos, bunda bonita.

Os olhos do pintor encheram-se de lágrimas.

“Desculpa, eu não queria…”.

 

 

Carminda fora embora e Antônio não conseguiu voltar à rotina.

Tentou.

Mas não dormia mais por causas das lembranças que a mulher tinha desencadeado.

Não sentia mais prazer em escutar música clássica ou a crônica dos jogos do Flamengo.

Não sentia mais interesse em escutar os papos dos bêbados.

Só sentia gratidão por Seu Afonso que o tinha ajudado nesse tempo todo.

As lembranças, porém, doíam demais. Antônio começou a se preocupar com seus irmãos, com certeza Carminda deveria ter falado com eles, agora eles sabiam onde ele estava, o que estava fazendo. Por isso um dia, de madrugada, carregou seus quadros, seus dois guarda-chuvas, seu rádio velho, seu travesseiro, sua cadeira, pegou o dinheiro com Afonso e voltou para o morro em que tinha vivido com a mãe e os irmãos.

Todo mundo entendeu que ele tinha sofrido pelo falecimento da mãe por ser o filho mais velho, o que tinha presenciado as brigas entre a mãe e o pai antes da fuga do pai e por ser um artista.

Antônio tomou um fantástico porre, na laje do irmão. Carne, linguiças, frangos, salgadinhos, torresmo e muita cerveja, enquanto uns conhecidos tocavam… Ele riu, chorou, contou como tinha passado os últimos anos, falou da mãe, de Sueli, de como era bonita, com aqueles cachos até as costas. De como era materna, sensível. Fora a mãe a contar-lhe as histórias dos grandes pintores franceses e italianos, dos que acabaram loucos e dos que conseguiram vencer. Fora a mãe que o obrigara a estudar, que fez a inscrição num cursinho de arte oferecido pela prefeitura. Fora ela que o fez conhecer um artista do morro que tinha colaborado com uma emissora de TV. De repente ela morreu e Antônio ficou cego, de dor.

Fugiu. Dormiu na praia. Pediu esmola. Bateram nele, roubaram suas telas, destruíram-nas. Mas ele sobreviveu e conheceu o Sr Afonso, “Cês devem conhecê-lo também!”, disse Antônio, em pé, bêbado e feliz.

Ele e a Carminda se beijaram.

À noite fizeram amor num quartinho de fundos do boteco da mãe dela, ouvindo as vozes dos que ainda festejavam e bebiam.

Antônio redescobriu o sexo, depois de anos de abstinência.

O corpo da morena era um parque de diversões. A pele dela, lisa como a seda, tornou-se um feitiço indispensável. Ele estava carente e os dois passaram a se ver todos os fins de semana. Passeavam juntos, se encontravam nos becos, nas beiradinhas.  Falavam de suas vidas, Carminda o ajudou a se reconciliar com os irmãos, a procurar trabalho na mesma escola de arte que o tinha visto estudar, mas não conseguiu que ele aceitasse a morte da mãe. Carminda tinha se apaixonado pelo ar sonhador, pelo jeito de andar, pelos olhos cheios de tristeza e de alegrias. Ela gastou seu curto dinheiro em bermudas e camisetas e Antônio tornou-se outro homem, mais bonito, limpo. Carminda, porém, continuava achando nele o mesmo poço cheio de magoa, inalcançável. Por isso o levou ao barraco do Cícero, no alto do morro, perto da casa do dono da boca. O Cícero era um macumbeiro humilde que atendia quem precisasse, em sua sala. Os traficantes também vinham até ele para se consultar, pedir remédios, mandingas e proteção.

O barraquinho estava entre o boteco da Tônia e a loja de botijões. Atrás só havia as árvores, a fonte e duas casas de madeira, sem banheiro e sem água. Havia uma entradinha que dava pra rua e os filhos do Cícero costumavam ficar lá, olhando o movimento. Na sala, o macumbeiro e a esposa tinham televisão, sofá. Estava tudo arrumadinho. Fotos da família na parede. Um toco de madeira num canto ao lado de uma estátua de preto velho sem camisa, a guia branca no pescoço. Cícero cobrava as consultas, fazia exceção aos traficantes e aos mais pobres.

Antônio e Carminda aguardaram a sua vez. Antes deles tinha entrado um senhor gordo, com cara de doido que caminhava com os pés unidos. Pequenos passos de quem tem medo de viver. “Ele quer falar com vocês”, disse a esposa do Cícero.

“Ele quem?”, pensou Antônio.

Entraram no quarto do casal e repararam num senhor de roupão branco, fumando um cachimbo. Os olhos não completamente fechados. Cabelo preto, bigode. Era o Cícero, mas não era o Cícero.

O Preto Velho tossiu. Era um espírito, mas Antônio não sabia nada disso, tinha aceitado ir só porque Carminda pedira. Não acreditava naquilo, nem queria acreditar. Nem curioso estava. O Preto Velho tossiu, soprou a fumaça na cara deles, eles tossiram também.

-O senhor quis falar com eles, não quis? -, perguntou a moça gorda, esposa do Cícero.

Preto Velho resmungou, fumou. Expeliu a fumaça. Tossiu. Disse algumas coisas, bem baixinho.

-Rapaz-, continuou. Os olhos mostravam o branco e o preto. O homem estava em transe.

-Cê vai vencer, meu filho, tenha fé e paciência…

-E ocê minha filha, para de ser nervosa… Cê encontrou o home, viu? -.

Carminda levantou os cabelos encaracolados com a mão direita e deu um nó nas pontas. Pegou a mão de Antônio.

-Isso mesmo… Viu?-. O Preto apanhou as mãos dos dois, segurou-as com suas, disse alguma coisa em uma língua que não era português.

-Deus abençoe essa união… ocê filha, atenção com seus parentes, cê sabe com quem… -.

-E ocê, filho, cê sente arrepios atrás da nuca? -, perguntou e coçou atrás do pescoço com a mão esquerda.

-Sinto-, respondeu Antônio.

-Eu também!-, disse o velho e riu.

-O filho é muito formoso, o coração do filho é bom. O filho tem fé, muita fé -.

– Filho, cê vai tomar banho de rosas brancas na segunda e na quarta, e de cravo na terça e na quinta. Entendeu?

Entendeu, filha?-, disse o Preto Velho falando com Carminda.

-Cê ajuda o filho tomar o banho dele, cê também leva o filho no mato, o filho carrega um caboclo formoso, o filho vai no mato e acende sete velas verdes para o caboclo dele, o mentor dele, o filho acende sete velas pro caboclo que o filho carrega e amarra sete fitas verdes em sete árvores, o filho amarra as fitas e acende a vela, deixa a vela em frente à árvore e pede pro pai Oxalá ajudar o filho a caminhar. E manda o filho voltar aqui depois de ter feito o trabalho. Entendeu, filha?-, disse o Preto Velho.

Ele disse outras coisas também, não percebendo, talvez, que seu discurso marcaria Antônio para sempre.

Antônio, de fato, ficou feliz pelo fato de o velho ter dito que ele iria vencer. Ele precisava vencer na vida para ele mesmo e para a mãe dele, que tinha morrido tão cedo e merecia assistir à vitória do filho, do céu. E também quis acreditar que a Carminda era a mulher certa para ele.

Antônio e Carminda continuaram fazendo sexo todos os fins de semana, às vezes no meio da semana também, no quartinho sem janelas que ficava atrás do bar da Tônia. A mãe da Carminda não parecia gostar da relação, talvez porque Antônio fosse um simples professor, aspirante a pintor e ela deveria ter sonhado com um marido diferente para a única filha, ela também sem pai desde a infância. Tônia deveria ter pedido ao Pai Oxalá um marido milionário que tirasse ela e a filha da favela, mas só tinha aparecido esse sonhador e os sonhadores, até na favela sabiam, quando não morrem jovens, envelhecem amargurados.

Carminda e Antônio estiveram no meio do mato para preparar o trabalho que o Preto Velho pedira. Depois voltaram a ele. Pagaram a segunda consulta de má vontade, porque o dinheiro das aulas de arte e do trabalho dela no boteco da mãe estava cada vez mais curto… Além disso, Carminda descobrira estar grávida e Antônio ficara preocupado com os gastos.

O vovô, sentado no sofá, disse:

– Cês precisam frequentar um destes lugares onde batem no tambor.

-Assim vou vender minhas telas?-, perguntou Antônio, ansioso.

-Tem que caminhar, filho, o filho caminhando formoso, tudo é possível. Caminhar com fé e paciência, mas o filho tem muita fé, muita.

-É essa filha que precisa de um lugar que a ajude a ter mais confiança… Tô errado, filha?-, concluiu.

 

Seu Meia Noite tinha parado de falar com Exu Sete Encruzilhadas. Voltou-se na direção do italiano.

-Cê pensou em suas pinturas?-, disse.

Antônio, que estava pensando em outras coisas, não respondeu.

-Cê pinta tudo que cê vê… não pinta?-, disse e indicou a mãe das filhas do Francisco que estava falando com o Sete Encruzilhadas.

Os dois estavam na frente da Cantina da Amizade. Antônio se aproximou com medo de ser indiscreto. Ele não deveria escutar o que eles estavam dizendo, assim como não ficara curioso de saber qual fora a matéria tratada pelo Sete Encruzilhadas e o Meia Noite. Ele sabia que o pai de santo e o pai pequeno tinham algumas controvérsias até espirituais, todo mundo sabia, mas ninguém se metia entre eles ou entre as entidades deles enquanto falavam.

A mãe das filhas do Francisco era loira. Tinha uma cara agressiva. Parecia constrangida, arrasada por algum motivo. Sete Encruzilhadas em pé, escutando-a. Atrás dele o Plínio tinha acabado de assar a carne. Todos os consulentes já tinham comido e Exu tinha até autorizado quem quisesse, a ir embora. Só não comeram os filhos de santo, mas a maioria estava incorporada e alguns, poucos, ainda trabalhavam nas consultas.

Zé ainda tinha a garrafa e o copo na mão. O tridente já o tinha colocado na casa do Sete, aos pés da estatua. O baiano parecia cansado, mesmo assim ele faria tudo que o Sete mandasse. Ele acreditava cegamente em todos os espíritos, em todas as entidades porque tinham feito bem a sua vida, até material. Ele pedira ajuda, força, e conseguiu, passo a passo, se tornar mestre de obra. Zé vinha de uma favelinha, quinto filho de mãe solteira, doméstica, sofrida… Sete Encruzilhadas fitou a mãe dos filhos do Francisco que falava feito máquina:

“Sei não, Seu Sete, mas a culpa foi do Francisco, ele me traiu e aí começaram os problemas com nossa filha… Ela não obedece e até o meu novo marido me trai… Será que Francisco fez uma macumba contra mim, Seu Sete?”.

Antônio não queria escutar, não devia, mas Seu Meia Noite tinha pedido para ele pensar em uma pintura, todos agora sabiam que ele era pintor, Padilha tinha reconhecido sua arte indo embora depois de ele contar como seria o quadro.

“Italiano!”, disse Exu. “Que é que cê acha?”.

-Eu?-, perguntou Antônio.

-Tem outro italiano?-, replicou Sete Encruzilhadas.

-Eu acho…-, disse Antônio e logo “viu” sua pintura:  três crianças, uma mais alta do que as outras, frente a um homem de cartola, terno e capa preta. O homem vestia uma manta vermelha. As meninas riam; a branquinha escondida atrás da morena, a morena encarava o sujeito com naturalidade, lhe dava a mão, deixava o homem brincar com ela. A branquinha gostava, mas com algum receio. A criança mais alta, quase idêntica à branquinha, tremia. Batia os dentes, suava, os cabelos loiros colados ás têmporas. Os olhos castanhos, enormes, encaravam o sujeito de cartola, manta, gravata e camisa preta!

-Eu acho que a senhora casou com Francisco porque o temia, não porque o amava. Não deve reclamar… Ele nunca faria um trabalho contra você, ele nunca faria um trabalho contra ninguém, porque é um pai de santo sério -, disse Antônio sem sequer conhecer a pessoa que estava na sua frente, sem saber por que tinha dito aquelas palavras e não outras. Sem mesmo saber se era ele que tinha falado ou alguém tinha usado sua língua, sua energia para se comunicar com a mulher.

– Tu é um macumbeiro fodido!-, gritou Sete Encruzilhadas e riu aquela gargalhada.

A loira olhou para o Antônio com cara de ódio e o italiano teve medo de que a mulher fosse fazer uma macumba contra ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

14.

 

 

Quando Antônio decidiu entrar no terreiro, a ansiedade diminuiu e ele começou a se sentir mais seguro.

Ingressou um ano antes da festa de Exu e Carminda não o seguiu. Antônio não tinha entendido por quê, sendo que fora ela que o levara no Preto Velho do alto do morro, na casinha bonitinha.

O Vovô tinha dito, Carminda precisava desenvolver sua mediunidade. Precisava de uma ajuda para firmar sua fé. Mas, depois do nascimento do primeiro filho, ela tinha mudado. Estava sempre mais feliz com o filho e mais nervosa com ele. Assim, quando Antônio sugeriu que ela o seguisse no caminho da Umbanda, ela respondeu que não e pediu para não insistir.

Antônio achou o centro de Francisco graças a Janaina.

O italiano, depois do nascimento do primeiro filho e de ter descoberto que Carminda já estava grávida do segundo, tinha pensado em seguir os conselhos do Preto Velho de Cicero, Vovô Cipriano das Encruzilhadas.

Pesquisara no morro e não foi difícil; apesar de os evangélicos terem avançado, ainda havia terreiros de macumba dentro e fora do Urubu. Havia até evangélicos que, durante a semana, batiam no tambor. Havia católicos macumbeiros, espíritas macumbeiros e até candomblecistas macumbeiros!

Janaína trabalhava numa casa de família em Botafogo. Dormia no morro só nos fins de semana, de segunda a sexta ficava no quarto de empregada dos patrões. Antônio estava sentado na beirinha do morro, entre os moto-táxis, tomando seu refrigerante. Fazia a hora aguardando em frente à escola de arte da prefeitura. Tocou o celular. Era Carminda.

“O teste deu positivo… Vai ser pai pela segunda vez!”, gritara a mulher ao telefone e Antônio acreditou que todo mundo tivesse escutado e estivesse participando de sua felicidade.

Carminda estava no boteco da mãe. Tinha aplicado o teste no banheiro. Antônio pensou logo no Preto Velho que tinha falado com eles. E sentiu que lhe devia alguma coisa.

Olhou à sua direita e, de repente, disse: “Cê conhece um terreiro aqui perto?”.

Depois riu por ter falado com uma moça que não conhecia.

Por ter falado só por falar.

Ele era doido mesmo, sempre fora doido, acalmou-se depois de encontrar a Carminda, mas a segunda paternidade estava despertando o gérmen da loucura, de novo.

Janaína o encarou com seu rosto de índia. Cabelo curto, pele lisa. Vestia uma camisa branca, bermuda bege. Tinha uma mochila nas costas.

-Me desculpa-, disse Antônio, – Acabei de receber a notícia que vou ser pai pela segunda vez e pensei num Preto Velho que me disse pra procurar um terreiro, cê nem deve saber o que é um Preto Velho! -.

Antônio reparou na seriedade da menina e só depois de várias sessões no Francisco entendeu que aquela atitude vinha da energia verde dos caboclos. Porque os caboclos não choravam nem riam com facilidade.

Janaína não ficou surpresa, aliás, mostrou-se feliz por ele ter feito a pergunta. Disse que conhecia um centro logo depois da descida do morro, que tinha trinta anos de atividade e esta era uma garantia.

 

Antônio chegou animadíssimo ao boteco da Tônia, viu a mulher dele atrás do balcão. Beijou-a com todo o amor que tinha no coração. Eles iriam ser pais pela segunda vez e, mesmo não tendo dinheiro, era isso que queriam. Ele logo disse que iria fazer um empréstimo com o banco para comprar uma casinha na entrada do morro, longe dos esgotos. A mãe da Carminda, em pé, de braços cruzados, o escutava com atenção. Antônio disse que iria pedir mais aulas na escola, trabalharia mais para dar uma vida melhor à sua família, se esforçaria para pintar quadros maravilhosos que, mais cedo ou mais tarde, lhe renderiam algo.

“Hoje também encontrei o terreiro para nós. Cê lembra do preto velho?”, acrescentou o rapaz.

“Ouça esta”, exclamou a Tônia, “ele até acredita em bobagens!”.

 

Antônio tinha se distraído, de novo. Pensar na mãe das filhas do Francisco tinha-lhe feito lembrar a Carminda em casa com os três filhos dele, o último de dois meses. Antônio teria gostado que a esposa compartilhasse a experiência da Umbanda com ele. Mas não teve jeito, a sogra demonstrou total intolerância e a filha acabou não fazendo as vontades de ninguém. Ela não foi para a igreja evangélica que a mãe frequentava e não foi para o terreiro que Antônio descobrira, graças a Janaína.

-Italiano-, disse o Sete.

-Cê fica de pé!-.

 

Fazia tempo que tinha passado da meia noite. No instante da virada, os Exus e os médiuns tinham-se ajoelhado e saudado o novo dia em que o galo ia cantar. Era um momento do qual eles gostavam muito; Sete Encruzilhadas tinha observado o céu e dito: “A lua é do diabo”. Depois tinha perambulado por mais de uma hora pelo pátio e pelo terreiro conversando com todo mundo, deixando que o Sete Palmos bebesse do copo dele, escutando o que Sete Palmos tinha para lhe falar. Isso não era comum, o Sete dar tamanha atenção ao outro Exu e significava que o humor dele era dos melhores.

Exu Sete Palmos tinha incorporado num médium novo, o Saulo, que morava perto do terreiro e aguardava o nascimento de dois filhos de duas mulheres diferentes. Parecia que o Exu dono do terreiro queria agradar ao Sete Palmos para que aconselhasse o burro dele.

“Bebe!”, disse Sete Encruzilhadas deixando Antônio de lado, “Hoje é pra esquecer que amanhã tu tá ferrado!”. O Sete Palmos permaneceu curvo, uma mão segurando o copo, a outra atrás, acima das nádegas… Pediu um cigarro para o Antônio, mas o italiano tinha ido até a mesa do churrasco, foi o Zé que lhe acendeu dizendo: “Olha quantos filhos não tão fazendo nada!”. E, de fato, havia alguns médiuns não incorporados que não estavam cambonando e só ficavam em pé, sem servir ninguém.

“Seu burro vai ter que mudar pra não acabar na vala!”, disse Sete Encruzilhadas.

Sete Palmos tragou do charuto que segurava com a mesma mão do copo. A outra continuava nas costas, curva como a de um réptil.

Sete Encruzilhadas voltou a perambular, Sete Palmos e Zé atrás dele.

Frente ao Meia Noite, o dono do terreiro parou e escutou a conversa do Exu com a Pomba Gira da Silvinha.

 

-Que noite!-, disse Meia Noite.

A Pomba-Gira riu, exclamou: “Noite tão bonita!” e o envolveu com a saia compridíssima.

-Com quantos homens cê ficou?-, perguntou Meia Noite.

A Pomba-Gira enrubesceu. “Perdi a conta!”, disse.

Deu uma gargalhada e Meia Noite também riu, naquele jeito sufocado que parecia estar doente.

– O meu burro tá ciumento-, disse Meia Noite.

-Minha cavala também-, respondeu a Pomba-Gira.

Depois, – Eles não entendem porra nenhuma! -, comentou a mulher e riu ainda mais forte.

Meia Noite tossiu, virou, segurando a bengala, e viu que o Sete Encruzilhadas estava atrás dele. “Não entendem porra nenhuma!”, repetiu e continuou sua caminhada.

 

Exu Sete Encruzilhadas olhou para a lua que resplendia, lindíssima, no céu, e era perfeitamente visível, do pátio. “Tu é do diabo mesmo!”, disse e Zé ficou surpreso de achar nele um trato sentimental. Parecia pensativo e menos durão, menos sarcástico do que de costume.

“O meu vinho!”, disse e Zé encheu o copo. Exu bebeu, tragou do charuto, olhou Sete Palmos na cara. “Diga pro seu burro que um dos filhos ele tem que cuidar, outro não. Se não fizer eu não me responsabilizo… Porra!”.

Agora Zé o reconhecia. Mas, mesmo tendo xingado, Exu Sete Encruzilhadas continuava pensativo. Bebeu, de novo. “Seu Zé…”, disse, “a lua é do diabo mesmo!”.

Um cara de óculos e bem vestido pediu para conversarem ele e o Sete Encruzilhadas, a sós.

Exu adentrou sua casa junto com o consulente.

Zé ficou do lado de fora observando Sete Encruzilhadas em pé, de braços cruzados, frente ao homem bem vestido, que estava falando.

Zé segurava o copo e o charuto e Sete Palmos pediu mais bebida. “Só o Sete pode me autorizar a te dar mais vinho da garrafa dele”, respondeu Zé. Sete Palmos fechou a cara. Entregou copo e charuto para Zé e tomou a direção do terreiro, olhando para seus próprios pés que continuavam descobertos graças à bainha altíssima, feita pelo Antônio.

Zé ficou com dois copos e dois charutos na mão. Apoiou o copo do Sete Palmos em cima da Cantina da Amizade. Apagou o charuto no cinzeiro que estava no balcão.

“Muito trabalho, Zé?”, disse Júnior.

“Alguém deve trabalhar, não deve?”, disse Zé.

“Deve sim”, respondeu Júnior, sorrindo.

“Do que tá falando o Sete com o cara?”, perguntou o marido da Sofia.

“Curiosidade mata, não sabia?”, disse Zé.

Júnior se calou e continuou observando o Sete Encruzilhadas de braços cruzados dentro de sua própria casa e o consulente preto, careca, de cara inteligente, bonito até, que não parava de falar. Exu parecia interessado no assunto.

O filho do Plínio, ao lado da casa do Sete, tinha acabado de trabalhar.

Alguns ainda se atreviam a pedir um pouco mais de carne e um gole de vinho ou cerveja e os cambonos os serviam.

“Seu Zé!”, gritou Sete Encruzilhadas.

Zé correu até ele.

“Papel e lápis!”, disse Exu e Zé foi até o camarim, atrás do terreiro.

Passando pelos Exu e Pombas-Giras reparou que a maioria dos consulentes já tinha saído e os Exus dançavam, fumavam e bebiam, sem mais trabalhar.

Pegou a prancha com papel e lápis na estante do corredor, atrás do altar. Voltou pelo corredor lateral e, em frente à casa do Boiadeiro, viu Sofia, em pé, não incorporada.

“Cadê a Maria Padilha?”, perguntou.

“Ela foi embora”, disse a mulher, com o semblante triste.

Zé pensou que a Mãe Pequena também era preguiçosa porque, já que não estava incorporada, podia cambonar em vez de refletir sobre a vida. Se ele tivesse parado para refletir a cada acontecimento estranho, não chegaria aos setenta e cinco anos.

 

Zé entregou lápis e papel na mão do Exu que os passou a o consulente.

“Tem que ir na Calunga, perto de uma vala recente. Deixar a garrafa de água limpa na vala e passar sete dias depois pra buscar. Sete dias de Calunga pra irradiar a água dos eflúvios do cemitério. Perto da vala quero bife, ovo, tomate e farofa. Quatro velas vermelhas e preta de sete dias e três velas pretas, também de sete dias. No sétimo dia tu pega a água e despacha o trabalho. Com a água cozinha uma galinha do teu quintal. Depois come”.

O preto anotou.

“Obrigado, Seu Sete”, disse.

E saiu da casa.

O dono do terreiro ficou pensativo, em pé, de braços cruzados. Depois andou até o pátio. Fitou a lua, brilhante.

–Tá na hora dos Exus embora-, disse. –Depois os médiuns e o meu burro podem comer… -.

A mulher loira já estava saindo do terreiro, de cara fechada.

A mulher de cabelo de agulhas se aproximou do portão.

-Até logo Seu Sete… Até logo Zé-, disse.

-Não tem nada pra me dizer?-, perguntou Sete Encruzilhadas.

-A vida melhorou, Seu Sete, graças ao senhor também!-, disse a mulher.

-Quer que continue assim?-, perguntou Exu.

A mulher o fitou, o portão estava aberto, ela já tinha um pé fora do Centro.

-Sabe o que deve fazer, não sabe?-, disse Exu.

-Sei-, respondeu a mulher engolindo uma boa dose de saliva.

 

Sete Encruzilhadas, acompanhado pelo Zé, entrou no terreiro. Tinha uma leve penumbra. O único Exu que ainda dava consulta era a Maria Bispo, no lado direito do altar. A Pomba-Gira estava conversando com uma mulher baixa, negra, de cabelo liso.

As outras Pombas Giras, os outros Exus dançavam no meio do terreiro ao som dos tambores. Seu Meia Noite tinha acabado de passar na frente deles.

Exu Sete Encruzilhadas cantou:

 

“É hora… É hora…

De todos os Exus embora.

É hora, é hora…

 

É hora… É hora…

De todos os Exus embora.

É hora, é hora!”.

Os Exus prestaram atenção às palavras e tomaram a direção da casa do Sete Encruzilhadas.

Maria Bispo terminou sua consulta, deu uma volta ao redor da consulente e seguiu os outros espíritos.

A consulente também seguiu o grupo.

 

Um dos tambores tinha sido levado até o pátio.

Agora os médiuns cantaram:

 

“Ogum mandou

Chuva de prata pra Exu embora

Ogum mandou

É sinal que está na hora

 

Ogum mandou

Chuva de prata pra Exu embora

Ogum mandou

É sinal que está na hora!”.

Os Exus alcançaram o casa do Sete, que estava aberta. Zé levantou o tridente do chão e o colocou de volta nas mãos da estátua.

Exu Sete Encruzilhadas, como um bom porteiro, ficou do lado de fora e aguardou a entrada do primeiro Exu em sua casa. Os espíritos iriam embora em frente a sua estatua, os olhos marrons, a perna humana e a de bicho.

Os umbandistas são adoradores do demônio?, pensou Antônio em pé, do lado da mesa do churrasco. Ele também batia as mãos e cantava:

“Ogum mandou

Chuva de prata pra Exu embora

Ogum mandou

É sinal que está na hora!”.

 

Antônio imaginou outra pintura: uma parada do metrô, uma fila de executivos de terno e gravata. Uma fila imensa no centro da cidade do Rio Janeiro, na parada do metrô em frente ao cinema Odeon. Todos os homens de terno e gravata, as mulheres de vestido ou de saia e casaco preto. Maquiadas, saltos altos nos pés. Os homens com os cabelos cortadinhos de um lado, a maioria com óculos. As mulheres de unhas feitas, cabelos recém-tratados pelas mãos de uns cabeleireiros. Não dava para perceber onde a fila acabava. “Onde cês vão?”, perguntou Antônio que, estranhamente, protagonizava uma pintura sua (isso nunca acontecia). “Vamos encontrar o Seu Sete”, respondeu uma mulher bonita de cabelos até as costas, castanhos, olhos brilhantes, sobrancelhas pintadas, era a Sofia! Antônio a reconheceu. “Mãe Pequena, cê tá aqui?”, disse, surpreso.

“Não só eu… Olha!”, disse Sofia e indicou Enzo, de terno, elegantíssimo, Ramon, Janaina… Ágata risonha… O corpo mediúnico inteiro fazia a fila bem vestido, e tinha outros sujeitos dos dois sexos, talvez outros médiuns que iam descer em baixo da terra para encontrar o Seu Sete. “Cê não vem?”, perguntou a Sofia.

Antônio vestia roupa branca, nunca na vida tinha colocado roupa de “escritório”, ele a chamava assim; Carminda também a chamava assim.

“Eu tô de branco, a cor de Oxalá”, respondeu Antônio.

“No Odeon eles tão vendo um filme bonito, um filme de Oxalá… Cê vai e depois volta”, disse Sofia.

Os médiuns do Centro Espírita Filhos de Xangô desceram juntos com os outros e as outras de terno ou de saia e jaqueta. Antônio permaneceu imóvel, fora do metrô. Aguardou a fila toda baixar nas entranhas da terra. E tomou a direção do Odeon.

O cinema estava cheio de homens e mulheres de branco. Saias espaçosas, calças apertadas e jalecos. Antônio foi até o caixa para comprar o ingresso, mas, atrás do balcão, não tinha ninguém. O filme era grátis.

Antônio entrou na sala, sentou, o ar condicionado estava gostoso, não estava frio. O filme começou e ele adormeceu. Sonhou com um terreiro em que, quase no fim da gira, os Exus estavam indo embora.

Antônio fitou os Exus e viu que eles eram Sofia, Enzo, Pai Francisco, ou seja, Maria Padilha, Meia Noite, Sete Encruzilhadas, que se despediam dele. “O que é que têm a ver os Exus com um filme sobre Oxalá?”, pensou Antônio, e logo acordou. A sala já estava vazia. Havia só um menino, em frente à tela. “Antônio”, disse o menino. Antônio levantou, curtindo ainda o fresquinho do ar condicionado, e dirigiu-se até ele. “Eu sou Oxalá”, disse o menino e sorriu com uma cara fantástica. Ingênua, sincera. “Pode ir até o fim do mundo; se você me levar contigo, nada de mal vai te acontecer”, acrescentou.

A pintura estava feita.

Antônio podia estar satisfeito, pois tinha muitas telas para pintar quando voltasse para casa: Maria Padilha pequena, as três crianças falando com Exu Sete Encruzilhadas e agora esse quadro, em que caberiam o cinema, o metrô, a fila, os médiuns e o menino, como numa história de quadrinhos, alias, ele pintaria quadrinhos mesmo.

 

“Ogum mandou…

Chuva de prata pra Exu embora

Ogum mandou…

É sinal que está na hora!”.

 

Enquanto os médiuns cantavam, a última consulente saiu do Centro.

O careca de terno e gravata aproximou-se do Sete. “Muito obrigado, Sete Encruzilhadas!”, disse. Exu o fitou e não respondeu. Aguardou que ele colocasse ambos os pés fora da porta e deu a permissão para a Maria Bispo entrar na casa dele.

Maria, sorrindo feito uma louca, ficou parada no pequeno espaço entre a estátua de olhos satíricos e os dois móveis, o com a bebida e o outro, com os charutos e as duas velas.

Maria Bispo balançou, tremeu; jogou-se para trás e Zé a segurou. Da casa saiu a Sara de cabelo branco, lisinho, o rosto cansado, os olhos alucinados. Antônio foi buscar uma água para ela.

Quando o italiano voltou, presenciou a desincorporação da Silvinha que vibrou da cabeça aos pés, os cabelos cobriram o rosto e se movimentaram como ondas do mar. Os braços tremeram, ela balançou, quase caiu e voltou a si.

O penúltimo Exu a ir embora foi Meia Noite que tirou cartola, manta e bengala e as deixou com o Ramon que iria colocar de volta no quartinho da casa do Sete. Despediu-se do chefe do terreiro que acenou para ele com respeito. Entrou e tremeu em frente à estatua com uma perna de bicho.

O italiano observou a cena com atenção. O jeito cabeça baixa do Meia Noite parecia refletir uns segredos da alma do Enzo, homem das profundezas, filho de Xangô e então dominador ou filho de Oxalá, então justo entre os justos, puro.

Enzo levantou a cabeça. O olhar dele não estava alucinado, mas voltava devagar a lucida atenção de cada dia. Silvinha o amparou enquanto ele saía e os dois se beijaram sob os olhos satisfeitos do Sete Encruzilhadas, o único espírito ainda na terra.

Seu Sete visava à união do casal e não queria de forma alguma uma separação. Já tinha feito ou mandado fazer rituais e trabalhos que reforçassem a união, estreitassem os laços.

“Eu vou embora”, disse.

Zé desamarrou a manta dele, pegou a cartola e as colocou de volta, na casa. Os médiuns cantavam: “É hora… É hora… De todos os Exus embora!”.

Sete Encruzilhadas entrou na casa dele. Zé, de cabelo branco, negro, descalço, tinha as mãos abertas para abençoar o Pai de Santo e o Exu e também para segurá-los, se fosse o caso.

Exu tremeu, as mãos principalmente. O ombro. O pescoço. Sete Encruzilhadas curvou-se sobre os joelhos. Vibrou, curvou-se mais, tremeu mais e se foi, de repente, como tivesse passado uma ventania para apanhá-lo e levá-lo para outros lugares e outras almas, outros encarnados e desencarnados que precisavam de Exu Sete Encruzilhadas.

Pai Francisco levantou a cabeça. Suspirou; olhou para os médiuns com a cara cansada. “Tudo bem?”, perguntou Zé, enquanto o Pai de Santo pisava fora da casa dos Exus. Francisco fez que sim com a cabeça e Zé correu até a geladeira da cozinha para pegar a limonada do Pai.

15.

 

Todos os médiuns comeram, e já eram duas horas da madrugada.

Pai Francisco, um prato cheio de carne, linguiça, arroz, feijão e molho de azeite com vinagre e tomate.

Os médiuns esperaram que o Pai fizesse seu prato e fizeram os deles.

Enzo se encheu de frango, não estava comendo carne e linguiça por causa da dieta. Era magro, mas tinha problemas de colesterol.

Zé preparou o prato dele e da Sara; os dois juntaram-se na mesa e conversaram, baixinho. Sara estava tão feliz pela bisneta ter nascido e não tinha outro assunto.

 

Antônio sentou-se ao lado de Plínio e de Ramon e ficou quieto, pensando no churrasco de peixe que tinha prometido ao Sete Encruzilhadas, na parcela mensal que devia ao banco e em suas pinturas. Não tinha jeito, para melhorar a vida dele e de sua família deveria vender os quadros. Iria completar os que tinha em casa, cujo tema era o dia a dia dos trabalhadores, dos traficantes, das pessoas normais e das que não eram normais;  também pintaria as telas sobre a realidade do terreiro. Depois iria até Copacabana, à banca do Seu Afonso, e as deixaria lá para o amigo vender, esperando que o milagre acontecesse.

De milagre era Carminda que precisava. A sua doce metade não estava desenvolvendo o lado espiritual. E isso era um problema porque a mãe dela a puxava para os evangélicos, ele pelos macumbeiros e Carminda, obstinada como nunca, não queria tomar direção alguma, sem entender que não decidir era, de fato, escolher o materialismo. Ela, todos os dias, se lamentava por morar na favela, queria sair, ter uma vida melhor da que vivia em casa, cuidando dos filhos. E, vez ou outra, pedia a Antônio que comprasse um celular novo para ela e as crianças; quando não era um celular, ela queria um computador.

Antônio olhou para o relógio e se deu conta de que já estava tarde, Carminda iria reclamar e talvez até ficar com ciúmes por causa da Janaína. As duas tinham se conhecido e a sua preta deveria entender que entre ele e a médium do centro não havia nada, além de uma parceria religiosa… O italiano pensou que este também iria ser um bom quadro: ele, Plínio, Enzo e Sara olhando para os relógios, aguardando que o Pai de Santo terminasse de comer.

Pai Francisco percebeu o que estava acontecendo. Era comum que os médiuns estivessem com pressa de voltar para suas casas, e quando ele não estava de bom humor, reclamava da atitude.

Ou atrasava a saída do terreiro.

“Terça-feira retomaremos nossas palestras…”, disse.

“Enzo”, continuou, “você vem?”.

Enzo levantou a mão da mesa, engoliu o ultimo pedaço de frango. “Conte comigo”, respondeu.

O Pai Pequeno não estava seguro nem totalmente convencido por Francisco, pelo centro do Francisco, pela Umbanda do Francisco, mas sentia que queria continuar junto com ele.

Silvinha sorriu, aliviada.

“Posso contar com os outros também?”, perguntou o Pai.

Antônio, tímido, levantou o rosto e disse: “Carminda me libera uma vez por semana, se eu for na terça, não poderei na sexta”.

Plínio riu.

Ramon também.

Pai Francisco comentou: “Então vem na sexta”.

A seriedade do Pai de Santo cortou a ironia dos demais. Francisco não costumava estar sempre sério, mas, depois de uma gira de Exu, às duas da madrugada, não tinha outro jeito.

“O churrasco estava ótimo”, disse o Pai, e atmosfera ficou mais leve.

“Comprei a carne em outro açougue, naquele perto do cemitério”, comentou Plínio, com o tom de sempre.

“Açougue do cemitério é carne de primeira!”, frisou Ramon.

 

Francisco levantou da cadeira. A esposa tinha ficado em casa gripada e ele deveria acordar cedo para encontrar o cara do leite.

“Tudo bem, então… Podem ir!”, disse e dirigiu-se, através das escadas, para seu quarto, no segundo andar. Enzo o parou. “Pai Francisco”, disse, “preciso falar com o senhor, pessoalmente”.

“Vem na terça… Eu jogo os búzios às sete, a palestra é às oito e meia, a gente fala às oito”.

“Então tá”, disse Enzo tomando a direção do vestiário dos médiuns.

Todos se levantaram e começaram a arrumar a mesa. Os homens carregaram a louça até a cozinha. Sara e Ágata tomaram conta da pia.

Os médiuns limparam o terreiro, arrumaram o pátio. Jogaram o lixo nos sacos e colocaram os sacos na rua. Depois foram até o vestiário para se trocar.

A primeira a sair foi Maria a preta. O namorado a esperava, de moto, na rua. “Tchau, pessoal!”, ela disse, de roupa comum, na porta do terreiro. O Plínio, que ainda varria, fez tchau com a mão. Maria saiu, beijou o namorado, que lhe passou o capacete. Ela o enfiou, sentou na moto e o namorado pisou no acelerador.

No pátio apareceram Enzo e Silvia, de mãos dadas.

Não disseram nada para ninguém, mas Ramon pediu a benção e Enzo a deu. Ramon beijou as mãos do Pai Pequeno que comentou: “Oxalá te proteja”. Enzo pegou de volta a mão da Silvinha, os dois cruzaram a porta do terreiro e foram para a esquerda.

Saindo, Enzo sorriu para o Exu da portaria, uma pequena estátua, à direita do terreiro, cheia de velas vermelhas e pretas aos seus pés. O Pai Pequeno tinha uma relação conflituosa para com os Exus e a risada dele parecia afirmar: “Apesar de tudo superei essa, também!”.

Ágata e Janaína chegaram abafadas, quase correndo. Janaina, já na porta, virou-se e gritou: “Antônio, cê não vem?”.

Mas o italiano ainda estava no vestiário. Não tendo resposta, a índia passou a porta fazendo o sinal da cruz e começou a subir pela direita, na direção do morro.

Júnior, antes de fechar a cantina, cobrou as velas e os salgados que dois filhos de santo tinham pegado e deixado para pagar no fim da gira.

Natália procurou o dinheiro no bolso, arranjou cinco moedas e deu para o marido da Sofia.

Ele colocou na gaveta e saiu do terreiro de calça jeans, camisa branca. Cabelos cor de prata, olhos azuis. O ar descontraído e brincalhão de sempre.

Entrou no carro estacionado em frente ao portão, do lado do carro do Francisco.

Ligou o rádio junto com o ar condicionado e aguardou a Mãe Pequena, que costumava ser a última.

Pai Francisco voltou às escadas e Zé, que o tinha esperado em frente à casa do Sete, sentiu-se aliviado.

Francisco agora vestia bermuda marrom e a camisa amarela que o faziam parecer o dono de um pequeno comércio, o que, de fato, ele era.

Mas o feiticeiro ia viver nas memórias, nos sonhos, nas reflexões dos médiuns.

Era difícil entender que Francisco não era Seu Sete, não era Rei Congo, não era o Caboclo, não era a Criancinha que carregava. Ele era um simples médium, como todos os outros e só emprestava o corpo e a mente aos espíritos, às entidades, aos Orixás. E, claro, aproveitava o conhecimento, a poesia, os benefícios que isso lhe dava. Mas não eram só prazeres, eram  cobranças também e obrigações.

-Pai-, disse Zé, – Seu Sete pediu para eu lhe passar esta mensagem: o senhor vai tomar muita porrada, enfrentar problemas, perigos e o cansaço. Mas não precisa se preocupar, nem pedir a ajuda de macumba nenhuma, porque sua coroa espiritual é bonita, seus guias são formosos e o senhor vai conseguir chegar lá-.

-Ele disse isso mesmo?-, perguntou Francisco.

-Não lembro exatamente as palavras, mas o sentido… -.

-Obrigado-, disse Francisco e pensou no sonho, nele de bermuda implorando a ele mesmo de branco com os guias no pescoço para abrir-lhe os caminhos. Não adiantava macumba nenhuma, e o fato de ele ter sonhado com a possibilidade de pedir a um pai de santo para fazer um trabalho para ele, mostrava o quanto estava fragilizado. Não podia continuar desta forma. Devia confiar mais em seus guias, em suas entidades…

Se o Sete tinha dito que ele iria aguentar, era isso mesmo que iria acontecer.

Ligou o celular e viu que havia cinco chamadas do pai dele.

Preocupado, digitou o numero da casa dos pais.

O telefone de casa estava chamando.

João respondeu.

O filho perguntou o que tinha acontecido.

-Esqueci que cê tava no terreiro, Francisco, queria te pedir pra comprar uns pãezinhos pra mim-, disse João.

-Hoje tinha festa de Exu… Mamãe tá bem?-, perguntou o Pai de Santo.

-Tá na mesma, filho-.

 

–Saí hoje da casa dele falando da gira de Exu e ele agora não lembra!-, disse Francisco, em voz alta.

-Fazer o quê, Pai-, comentou Ramon, em pé, ao lado de Plínio, em frente ao portão e à estatua do Malandro com o cigarro apagado na mão e a lata de cerveja aos pés, cheia pela metade.

-Fazer o quê-, repetiu Francisco, pensativo.

-Boa noite… Boa noite-, continuou e cruzou a porta do terreiro. Entrou no carro e logo foi embora.

 

Antônio desceu as escadas, correndo.

-Tava com medo que cê fechasse a porta sem eu ter saído-, disse para Zé.

-Italiano… -, comentou o baiano, – Toma juízo!-.

O marido da Carminda sorriu e pensou que Zé era uma figura.

Talvez o baiano merecesse uma pintura só para ele.

Um quadro realista. Zé no centro da tela, os cabelos brancos nas têmporas, os pés pequenos, fininhos. Os dedinhos como os de uma criança.

Zé resmungava o tempo todo. Mas ninguém no terreiro conhecia o ritual da Umbanda, as necessidades das Entidades e do Pai de Santo tão bem quanto ele.

– Podem sair que eu fecho, disse o baiano.

Antônio, Plinio e Ramon ultrapassaram a porta, de costas, com a cabeça e os olhos na direção do pátio e do terreiro. Antônio fez o sinal da cruz e subiu a estrada para o morro do Urubu, preocupado com a Carminda e os filhos. Ele queria continuar desse jeito, nesse equilíbrio feito de família, pinturas e macumba. Ele gostava desse equilíbrio, mesmo tendo que organizar o próximo churrasco de peixe. Estava até orgulhoso dos pedidos do Sete porque significava que não lhe era indiferente, significava que tinha uma função no terreiro, apesar de não conhecê-la ainda. E também tinha suas telas umbandistas que pintaria com o maior prazer. Era só continuar nesse equilíbrio, achar o tempo para as aulas e para as pinturas. Para as crianças e para a sua esposa. E lidar com a sogra, sem raiva. Sem briga. Sem falar de religião ou de dinheiro. Ou de futuro… Estava sempre mais difícil conversar com a mãe da Carminda, sentar na mesma mesa para almoçar… “Sogrinha”, pensou, “se tu continuar desse jeito, eu vou te macumbar!”, disse entre si e riu, sozinho, subindo a ladeira.

Ramon e Plínio tomaram a direção da rua principal, cheia de carros, apesar da hora.

“Tu comprou a carne no açougue ou tu pegou no cemitério?”, comentou Ramon. “Tinha um sabor esquisito…”.

“Vá tomar no cu, rapaz!”, respondeu o Plínio.

“Cara, cuidado com a carne que tu compra…”, continuou Ramon, tomando a direção do ônibus.

Plínio o encarou grave. “Tomar no cu…”, repetiu e entrou na viela em que ficava sua casinha.

Ramon agitou a mão e Plínio também, pensando em todos os trabalhos que tinha feito no cemitério. “Deviam colocar o açougue logo na esquina da Calunga?”, pensou.

Ramon cruzou a rua e desapareceu da vista.

“Tomar no cu…”, repetiu Plinio e verificou com a mão esquerda se as chaves estavam no bolso.

 

Natália, Zé e a Sara estavam ainda no pátio quando a Mãe Pequena apareceu em cima da escada. Sofia carregava duas bolsas, vestia uma roupa branca, grande. Estava penteada e perfumada.

-Ninguém me ajuda?-, disse.

Natalia subiu e pegou uma das bolsas.

-Obrigada-, disse Sofia.

As duas mulheres desceram até o pátio.

Zé verificou mais uma vez se todas as casas de santo estavam fechadas, se havia velas acesas ou trabalhos mal feitos.

Estava tudo em ordem, havia sim um trabalho feito em baixo da estátua do pequeno Exu, o “Setinho”, um prato de farofa com ovo, tomate e bife. Sete cigarros e sete velas já apagadas. E havia duas garrafas de vinho branco nos dois lados da estátua, mas isso era o que devia ser. O Sete teria ficado no terreiro enquanto espírito e cheirado o perfume do vinho, saboreado o aroma da carne e isso o teria ajudado. Ele continuaria experimentando antigos sabores, nunca esquecidos. Assim os médiuns tinham a possibilidade de se comunicar com ele, mesmo não estando presentes.

Sofia e Natalia saíram e repararam em Junior dentro do carro, cantando.

– Parece criança, não parece?-, disse Sofia.

Zé aguardou a saída de Sara e fechou a porta.

-Licença, Sete!-, disse, empunhando o cadeado.

Sara carregava três sacolas amarelas. Uma estava cheia de flores secas que iria jogar no rio.

– Tô com saudade da netinha!-, disse.

-De mim não sente saudade-, comentou Zé, com a chave do cadeado na mão.

-Cê também é importante pra mim!-.

-Eu acho bonito-, comentou Sofia, – Estão casados há quarenta anos e ainda se querem bem… -.

 

O casal de baianos tomou a direção da única rua trafegada. Zé e Sara caminharam devagar até a esquina quando a mulher fez tchau com mão por ter lembrado não ter se despedido do Júnior, da Natalia e da Sofia. Era culpa da neta, que ocupava todos os seus pensamentos… Ela nem tinha curtido a gira de Exu!

 

-Natalia vem com a gente!-, disse Sofia, abrindo a porta do carro.

Júnior permaneceu sentado, escutando o rádio.

-Cê não me ajuda, gato?-, perguntou a Mãe Pequena.

Júnior desligou o som. Abriu a porta, saiu, pegou as bolsas das mãos das meninas, abriu o porta malas… “Assim tá bom?”.

“Cê não tinha vontade de ficar, só ficou por minha causa!”, disse Sofia.

“Tô cansado”, respondeu o marido.

“Cansado que nada! Eu e Natalia queremos dançar, depois ela dorme lá em casa”.

“Quando? Amanhã?”.

“Gato, são só duas e meia…”, disse Sofia, irônica.

Natalia riu.

“Hoje é um dia especial pra mim”, comentou a garota de cabelo preto, bochecha avermelhada e olhos castanhos.

“Deixei o chato do Alexandre e quero festejar!”.

“Deixou?”, perguntou o Júnior.

“Deixei mesmo, ele era muito chato!”.

“Não só chato”, comentou Sofia, “era insuportável… Lembra quando te esperou até três da madrugada porque estava com ciúmes e quando você saiu do terreiro ele disse que estava proibida de ficar sozinha na rua até essa hora?”.

“Cê não sabe de muitas coisas”.

“Não sei”, disse Sofia, “então conte!”.

“E o Júnior?”, perguntou Natalia.

“Ele não fala pra ninguém… Né, gato?”

Júnior fez que sim com a cabeça e decidiu levar a situação na esportiva.

Abriu a porta de trás e pediu a Natalia que levantasse o objeto que estava no chão. Natalia entrou, pegou o computador e o entregou para ele, que estava sentado ao volante. O marido de Sofia o segurou e colocou entre as pernas.

Sofia também se sentou, no outro banco.

“Dançar não quero, mas a gente pode tomar cerveja”, disse Júnior.

“Onde?”, perguntou Sofia.

“Abriram um barzinho novo na Lapa, se chama… Como é que se chama?”, disse Júnior.

“Tem que ser na Lapa?”, comentou Natalia, “Alexandre costuma andar por lá e não quero encontrá-lo”.

“Vamos pra Copacabana, gato, assim se você bebe demais, não precisa pegar o carro e eu te levo direto pra cama”, disse Sofia.

“Pra cama?”, perguntou Júnior.

“Pra cama… O que é que tem?”.

“Na cama eu sou perigoso!”.

Sofia beijou o marido na boca e Natalia ficou com ciúmes dela, no banco de trás.   Para Natália, a Sofia era como uma mãe e não queria compartilhá-la com ninguém. Mas Júnior era um companheiro tão legal… “Então vamos pro barzinho?”, perguntou a moça.

-Claro, né!-, respondeu o marido de Sofia.

Assim, Júnior ligou o motor e foram embora. No fim da rua havia três carros transitando e eles aguardaram meio minuto. Depois tomaram a direita, na direção da Zona Sul.

Agora em frente ao Centro Espírita Filhos de Xangô não havia mais ninguém. Dentro, os espíritos, as entidades, continuavam seus trabalhos, suas conversas.

O porteiro do terreiro, Exu Sete Encruzilhadas, iria vigiar a noite inteira, no dia seguinte e no outro dia também, mesmo tendo viajado para socorrer outras almas, mesmo marcando sua presença em outros terreiros, também. Ele era um espírito solidário e desdobrava-se de trabalho. Incansável mensageiro do conforto espiritual, inflexível porteiro, literalmente: policial do terreiro. Ele, que nem gosta de polícia! Mas Deus dá pra quem pode aguentar… Exu, o anjo decaído, o mais temido, Exu, o diabo, Exu, o demônio; o mais falado!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“La figlia di Almir”, cap. 15

assempleia

 

15.

 

Ora l´attendeva la ricerca di Júlio e chissà se l´avrebbe trovato, mentre pensava queste cose l´uomo che lo aveva aiutato prestandogli un vestito, delle scarpe e soprattutto permettendogli di fare una doccia gli diede una leggera gomitata nel costato per indicargli che era arrivato il momento di pagare. I fedeli intonarono un canto: “Gloria a Dio, Dio io ti lodo con tutta la mia anima, senza paura, senza tentennamenti, adesso che sono nel cammino della fede, non ho più timore delle tenebre, non ho più timore della malattia, perché tu sei con me, mio Dio” e, mentre lo dicevano, si battevano sulla testa con una busta nella quale avevano inserito i cinquanta soldi, che ognuno di loro dava in offerta alla Chiesa Evangelica di Porto Seguro.

Almir non sapeva se ognuno offrisse proprio cinquanta soldi, ma il confratello gli aveva detto così e lui nella busta ne aveva messi cinquanta. Anche Almir si mise a recitare il suo gloria a Dio con devozione e un poco di risentimento a causa della preziosità di quel denaro per lui, per Gracinha, per il nascituro, per i suoi undici figli… espresse con devozione la sua fiducia e fede, si battè la busta contro la testa come facevano gli altri dicendo “grazie Padre mio” e poi “Dio sono un peccatore, perdonami” e poi ancora “Signore mio, vicino a te sono dentro a una fortezza”. Queste ripetizioni gli provocavano una piacevole sensazione di ebetudine, che durò finché un fratello in giacca e cravatta passò con un cestino a raccogliere le offerte. La riunione era conclusa, potevano andarsene in pace.

Il capo carismatico intonò una ultima canzone di gratitudine, rivolgendosi al nostro Signore Gesù così benevolo da accogliere nella sua chiesa tanti peccatori che finalmente avevano scelto la giusta strada. Almir condivideva, è chiaro, le parole del pastore, cioè riteneva sinceramente che la chiesa l´avesse aiutato ad uscire dal tortuoso cammino nel quale si era avventurato dopo la fuga della bella Jasmine dai capelli di seta. Il confratello avvicinò la bocca al suo orecchio destro, gli disse “piacere Henrique”, lui rispose “Almir”, i due si strinsero la mano e Henrique invitò il baiano di Una a cambiarsi d´abito. Doveva riporre i vestiti dove li aveva presi, infilarsi di nuovo i pantaloncini sporchi, la maglietta già l´aveva sostituita con una pulita, era stato previdente a portarsela da casa e quindi non aveva bisogno che Henrique gliela prestasse, il confratello gli avrebbe però lasciato i suoi sandali, perché questi sì gli erano necessari, ma lui doveva ricordarsi di tornare a visitarli nella loro assemblea, per pregare insieme a loro e fare un´altra offerta. Almir non rispose niente, soltanto deglutì con forza al pensiero di dover spendere altri cinquanta soldi per una doccia. L`amico gli porse un paio di ciabatte bianche con le suole rovinate, la marca cancellata e l´attaccatura plastificata che separava il pollice dall´alluce, quasi distrutta.

– I miei amati sandali… – disse l´evangelico – con loro ho camminato e faticato, ho sofferto cercando Dio e fuggendo il demonio, ora li lascio a te, perché tu possa camminare per le strade del Signore.

– Grazie fratello – replicò il marito di Gracinha, ma sentiva una punta di angoscia dentro al cuore.

 

– Mi accompagneresti da Júlio? – fece la richiesta dopo essersi svestito di camicia e pantaloni ed essersi presentato nella sua solita tenuta da uomo tropicale.

– Júlio chi?

– Júlio, quello che abita vicino al mare, che ha un cane grosso, lavora per un fazendeiro, è stato in Una per l´Unaca, che mi hanno detto che è un ente del governo che aiuta la natura a sopravvivere.

– Ah, Júlio!

– Sí proprio lui, mi ci accompagnerai?

– Non credo di sapere dove abita, tu mi perdonerai fratello, ma devo visitare alcuni confratelli in difficoltà e devo parlare col pastore, dobbiamo organizzare l´assemblea di questa sera, oggi è giorno di preghiere.

 

Il baiano lo guardò sconsolato mentre scompariva dietro la porticina verde, nella quale lui stesso era entrato per farsi un bagno e cambiarsi due volte d´abito.

Si infilò i sandali bianchi semidistrutti e prese la direzione della spiaggia che, se non si ingannava, doveva essere alla destra del ponte, da quella parte erano andati i turisti assieme alle donne. Aveva voglia di bere una cachaça come ai vecchi tempi e la voglia aumentò quando la plastica infradito del sandalo destro si ruppe e lui se lo tolse, lo prese in mano e lo gettò via. Di nuovo scalzo, anche se di un piede solo, pensò che in quel momento Henrique e il pastore stavano contando il denaro raccolto nell´ultima assemblea; gli parve assurdo procedere in quel modo mentre loro pensavano a questioni economiche, allora abbandonò anche l´altra ciabatta tra la polvere della strada. Era più leggero adesso e non aveva paura. Il fatto di aver speso cinquanta soldi con la Chiesa Evangelica di Porto Seguro in fondo lo faceva sentire più tranquillo, con meno impegni, meno doveri, perché la ricchezza impone degli obblighi, un pensiero intorno a come spendere o a come non spendere, l´assenza di denaro alle volte è una benedizione, non si pensa più a niente, ci si lascia vivere. Sorridendo raggiunse la fine della strada asfaltata dove cominciava la foresta, lui amava tutta quella vegetazione, ci era nato dentro; sentì una fitta nello stomaco ed era la fame, aveva ancora cinquanta, forse cento soldi, erano abbastanza per un abbondante pasto, anzi erano sufficienti per dieci abbondanti pasti, ma lui non aveva voglia di pensare a certe cose. Quando si è pieni di angosciose questioni che vagano come cellule dentro la testa spesso si giunge alla conclusione che non c´è una soluzione e allora il cuore si fa più leggero e la testa sperimenta un´ebrezza simile all´ubriachezza. L´unico vero problema era il morso della fame che prendeva lo stomaco di Almir. Lui avrebbe potuto decidere di spendere qualche soldo o qualche moneta che si era portati da Una nascosti dentro le mutande, camminando tra gli alberi poi si ricordò che quel giorno non aveva telefonato a Gracinha… la foresta si infittì… come teleguidato, Almir attraversò un palmeto. Vide gli alberi da cocco e si ricordò di Maria Bethânia che con le palme dei piedi appoggiate al tronco era capace di salire fino in cima e far cadere il cocco giù.  Il baiano di Una arrivò fino al mare che era a poche centinaia di metri dalla foresta. Le palme in controluce disturbavano l´oceano che segnava placido la linea dell´orizzonte, lo disturbavano nel senso che il mare da solo avrebbe disegnato con maggiore perfezione la linea dell´orizzonte di quanta ne raggiungesse così frastagliato di palme. La fame si fece spasmodica, Almir quasi sbavava, però aveva deciso di non spendere altri soldi, sarebbe morto piuttosto di sprecare altro denaro, dopo averne sperperato tanto per arricchire la Chiesa di Porto Seguro, che era molto più esosa di quella di Una. Il sole sembrava una bestia feroce pronta a morderti alla gola e questo era normale nell´estate baiana, ma Almir sudava come aveva sudato poche altre volte in vita sua, forse come quando ancora era un robusto e forte negro senza moglie e si incontrava con quelle cagnette baiane, che appena vedono un uomo vero si bagnano tutte. La testa cominciò a girare, le orecchie a ronzare, il cervello a martellare dal di dentro come il motore di una Fiat Palio quando gli abitanti di Una ci mettevano dentro una miscela di benzina adulterata, che inquinava il doppio rispetto a quella normale.

Il baiano si appoggiò alla sabbia, perso in una riflessione intorno all´inquinamento prodotto dai gas di scarico delle automobili; una delle ultime trasmissioni che aveva assistito alla televisione con Gracinha aveva parlato del problema del disboscamento della Amazzonia e del buco nella fascia di ozono che favoriva l´aumento della temperatura, forse era a causa del buco che in quel pomeriggio faceva così caldo… la feroce bestia baiana lo morse alla gola, il sudore aveva reso la sua seconda maglietta più sporca di quella con cui aveva viaggiato in autobus… “devo telefonare a Gracinha” pensò sdraiandosi a terra. Si era addormentato o forse era svenuto. Era difficile dirlo per i giovani turisti che, impegnati nel corteggiamento delle mulatte, non fecero caso al malore e alla stanchezza di quell´uomo e lo considerarono un abitante del luogo che, abituato ai pigri ritmi locali, si concedeva un riposo pomeridiano.

 

 

 

 

 

 

 

Il titolo “Una, Bahia” sta cambiando per “La figlia di Almir” – questo è il capitolo n. 14

porto s.

 

14.

 

 

Almir si svegliò sui gradini della sua amata chiesa evangelica. I gomiti gli facevano male, come la schiena e il sedere, ma non era uomo di lamentele, era uomo di preghiere: “Dio ti ringrazio per questo risveglio, per questo giorno di sole e per tutti i giorni che mi dai, ti ringrazio per quelli che ho vissuto fino adesso nella gioia e nel dolore, nella speranza e nella disperazione, e per quelli che vivrò… non ti chiedo niente per me, solo ti imploro di aiutare Gracinha e il figlio che ha in grembo e gli altri che mi hai mandato perché io li accudissi e li crescessi”. Recitò un Padre Nostro, poi si rese conto che aveva bisogno di un bagno, nessuno l´avrebbe scambiato per un padre di famiglia così sporco e cencioso, senza sandali, a petto nudo, con un semplice zaino sulle spalle. La piazza stava riempiendosi di gente che andava al lavoro caricando sacchi e sacchetti, passarono alcuni uomini seduti su un carretto trainato da un asino, ancora girovagavano i turisti che ridevano al lato di donne avvenenti, “sono un bel ridere le loro vacanze” pensò Almir e subito si pentì di averli giudicati senza conoscerli. Si passò la mano destra sul corpo come per spolverarsi, poi decise di telefonare a Gracinha, la cabina a forma di orecchio era sempre nello stesso posto e nella tessera gli erano rimaste delle unità… Il telefono là in Una suonò, suonò, ma nessuno venne a rispondere. Lui provò un´altra volta e la cornetta fu alzata dal vicino.

– Chi parla?

– Sono Jorge.

– Amico mio! Come stai?

– Bene, dove sei?

– Sono in viaggio, sto cercando un lavoro, purtroppo quelle persone malvage di cui ci hai parlato mi hanno costretto a prendere questa decisione.

– Vuoi che chiamo tua moglie? – chiese l´uomo che pensava: “Sei un povero idiota, se ti raccontavo che cercavano coltivatori sulla luna che facevi, partivi per la luna?”.

– Non ho più credito! Dille tu per favore di passare dal mio padrone e di chiedergli di darle quello che mi spetta come buonuscita, dille di spiegargli che me ne sono dovuto andare a causa di gravi problemi personali, ma di non raccontargli il vero motivo della mia partenza, hai capito?

– Farò quello che mi hai chiesto.

– Grazie, vicino! Ci fossero più persone come te e il mondo sarebbe migliore.

Il credito si esaurì di colpo e la conversazione fu interrotta. “Queste unità finiscono subito” pensò l´evangelico, “Non ha i soldi per chiamare la moglie e parlarle per cinque minuti” si disse compiaciuto Jorge e subito andò a riferire a Gracinha.

 

Mentre i turisti abbandonavano la piazza per raggiungere la spiaggia, a Porto Seguro era cominciata la prima riunione giornaliera della Chiesa Evangelica. Almir pensò fosse arrivato il momento buono per andare in chiesa a meditare e per chiedere a un fratello come poteva raggiungere la casa del suo conoscente Júlio. I fedeli parlottavano abbracciandosi calorosamente, sicuramente si salutavano così tutte le volte che si incontravano. Vestivano cravatte dai colori forti, camicie bianche e doppiopetto nero, la maggioranza era di pelle scura, c´erano prevalentemente maschi. Il baiano di Una si avvicinò a un devoto.

– Dio ti benedica fratello, io sono Almir di Una, sono qui per incontrare un amico di Porto Seguro, come vedi sono sporco e scalzo, avrei bisogno di fare una doccia e di un paio di sandali, sono pieno di problemi e di figli e ho deciso di costruire una nuova vita per me e per la mia famiglia a Porto Seguro.

– Chi è il tuo amico di qui?

– Si chiama Júlio, ha lavorato in Una, è un uomo alto di pelle chiara, conosce un fazendeiro.

– Non sai il suo cognome?

– No, ma so che abita vicino al mare in una piccola casa e che ha un cane grosso dal pelo rosso, me ne parlava sempre…

– Forse ho capito chi è… Dopo la funzione ti porterò da lui.

– Dio ti benedica fratello, ma Gesù non ha detto chiedi e ti sarà dato? Io ti sto chiedendo aiuto perché sto passando un momento difficile: potresti trovare il modo di farmi fare un bagno e di darmi un paio di scarpe o di sandali?

 

Il fedele dalla cravatta rossa, gli occhiali neri, le scarpe lustre e le calze bianche osservò meglio il baiano di Una e si rese conto che davanti a sè aveva un uomo impolverato che aveva dormito fuori casa per una o due notti. Poteva essere un mendicante, uno sbandato o un drogato, ma aveva detto di far parte della Chiesa…

– Ti posso trovare dei sandali e un bagno dove lavarti, ma tu, fratello in difficoltà, ti ricordi ogni mese di onorare la Chiesa e di offrire un po´ dei tuoi guadagni, anche se sono pochi?

– Ogni mese dò cinquanta soldi alla Unione Evangelica di Una… Tutti i giorni prego e leggo la Bibbia!

– Allora vai nella nostra congregazione, entra dalla porticina, fatti un bagno, infila il paio di pantaloni che troverai nel primo cassetto accanto alla porta, calza le scarpe che sono vicino al comodino, poi prepara il cuore, purificalo per fare la tua offerta di questo mese!

– Grazie fratello – disse Almir, contento di potersi lavare, non contento di dover fare un´offerta anche a Porto Seguro, lui infatti era abituato a contribuire alla prosperità e alla sopravvivenza della chiesa di Una… Ma decise di non protestare.

Si pulì ed era un altro uomo. Aveva indossato la maglietta bianca che era nello zaino, aveva calzato le scarpe e vestito i pantaloni che aveva trovato nel cassetto. Gli stavano un po´ larghi, ma dovette adattarsi… A Porto Seguro non c´era Gracinha a rammendargli e accorciargli i vestiti! Entrò in chiesa assieme al correligioso. Le finestrone di vetro erano uguali a quelle di Una, gli abiti, le cravatte, il modo di rivolgersi anche e lui si sentì a casa. Un negro dai baffi duri e ispidi stava nel centro di un cerchio idealmente disegnato dai fedeli e gridava infervorato: “Gesù è grande, fratelli, Gesù vi ama, amiamo Gesù, non c´è niente di meglio di amare Gesù. Quando incontrate qualcuno che non lo segue voi cercate di farlo entrare nel cammino del Signore, quando conoscete qualcuno che adora il diavolo e si perde nel bere e nel vizio, voi abbracciatelo e gridategli “vattene Satana, vai via!” e lui sarà liberato. Provate adesso fratelli, provate, abbracciatevi e ditevi che Gesù vi ama e ordinate al diavolo di andarsene, che se per caso è arrivato fino a qui, ora saprà che questo non è il suo posto”.

 

I fratelli si strinsero ognuno nelle braccia dell´altro dicendo “Gesù ti ama” poi si separarono e si riabbracciarono esclamando “Vattene Satana”. Batterono ognuno il petto contro il petto del compagno e si osservarono in tono di sfida, ma chi sfidavano realmente era il diavolo che forse si nascondeva tra di loro.

– Ora che avete imparato come si fa, potrete ripetere questo gesto fuori dalla chiesa quando incontrerete il demonio nelle persone che non seguono il cammino evangelico e adesso cantiamo.

– Ho incontrato Gesù – intonò il pastore – ero caduto nel vizio, accogliendo il demonio, grazie a Gesù sono salvo!

 

Almir sorrise con dolcezza all´amico di cui non sapeva il nome, dichiarò il suo amore per il bene, per Gesù, e l´odio per il male. Cantò il ritornello della canzone che recitava “vincerò il nemico” e seguì tutto con attenzione, riconoscente per le scarpe e i pantaloni, pronto, anche se un po´ triste per questo, a sborsare i cinquanta soldi che aveva promesso alla Chiesa Evangelica di Porto Seguro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Una, Bahia” – Capitolo 13.

Una -

13.

 

Jorge non stava in sè dalla gioia e raccattava la spazzatura sorridendo ai turisti dell´hotel Transamerica. Poi tentava di produrre qualche suono in inglese, lingua che gli era ostica e gli stranieri lo guardavano e pensavano che era un povero mentecatto, ma lui sosteneva il loro sguardo con un forte sentimento di sfida, come ad affermare “tanto io cambio vita”. Anche in casa le cose erano cambiate, la moglie non gli provocava più quel senso di afflizione e di disgusto, la sporcizia e la maleducazione dei figli non gli sembravano il peggiore dei mali che potessero colpire un uomo maschio, adulto e sano di mente. Perché gli bastava sbirciare nella direzione della casa del vicino, sentire i pianti dei bimbi, ascoltare le grida indiavolate e isteriche della padrona, di quell´insopportabile donna che era Gracinha che aveva sempre riservato a lui e sua moglie un´espressione mal camuffata di sufficienza. Gli bastava immaginare o ricordare Almir in fuga e lui lo aveva visto sgattaiolare via da Una come un furfante, aveva atteso per alcune notti e giorni alla finestra, aveva rinunciato a due giorni di salario e si era finto malato pur di non perdersi la scena del vicino che abbandonava la casa e i figli per rivederli chissà quando… Gli bastava immaginarsi le sofferenze che Almir doveva passare in quel momento per sentirsi parzialmente felice, non era completamente felice perché per esserlo mancava ancora una parte del piano.

Si vestì coi pantaloni migliori che aveva, indossò quella camicia a righe azzurre e bianche che la moglie gli aveva regalato cinque anni prima e che lui aveva messo una, forse due volte, si pettinò meticolosamente disegnando quella riga verso sinistra che piaceva tanto a sua madre e uscì di casa. Dopo mezz´ora di cammino si trovava davanti alla tenuta del fazendeiro per cui lavorava il suo vicino.

Gonzalo faceva la ronda come sempre, Jorge gli si rivolse in tono familiare: – Ti ricordi di me?

– Chi sei?

– Quello che è venuto tempo fa a chiedere se c´era lavoro.

– Quello della spazzatura e della moglie grassa?

– Sono tornato perché mi hanno detto che Almir se ne è andato e si è liberato un posto.

– Tu sai dove è andato?

– No, cioè lui è mio vicino e la moglie dice che hanno deciso di costruirsi una vita da un´altra parte.

– È strano che è partito senza dire nulla.

– È vero.

– Come ti chiami?

– Jorge

– Vieni che il padrone già mi aveva detto di chiamarti.

Prima di incontrare quello che lui sperava sarebbe diventato il suo nuovo datore di lavoro, si sistemò la camicia e si stirò i capelli con un rapido movimento delle mani.

– Signore… c´è quello della spazzatura che dice di voler lavorare al posto di Almir!

 

-Fallo entrare!

Il suono della voce uscì dalla casupola di legno costruita al centro della coltivazione del grano, nella quale il fazendeiro si ritirava per fare i conti e controllare le ricevute che gli venivano presentate dai suoi impiegati, relative alle spese del concime, dei prodotti insetticidi e della manutenzione dei macchinari. Jorge pensò che finalmente era giunta la sua occasione. Con facilità e leggerezza d´animo si sarebbe licenziato dai suoi tre lavori per assumerne uno solo, che lo avrebbe maggiormente gratificato. Per quanto riguardava Almir, non si sentiva in colpa e credeva che il baiano color ebano si fosse dimostrato un po´ stupido, credendo immediatamente alla storia che lui gli aveva raccontato. Avrebbe dovuto fare domande, verificare, in fondo chi gli garantiva che lui gli stesse dicendo la verità? Si era dimostrato un sempliciotto e, come si dice, “chi è causa del suo male pianga se stesso…”. Quella sera festeggiò l´assunzione con la moglie e i quattro figli. Tornare stanco e trovarli sporchi di polvere e di caffè non gli diede il solito fastidio, anzi, come un padre premuroso bagnò un asciugamano e lo passò sulle mani e sui piedi dei bambini.

– Oggi sei di buon umore – disse la donna che stava seguendo i momenti finali della telenovela delle sette.

– È un giorno speciale e io sento che d´ora in poi le cose miglioreranno!

– Però ora calmati che lo sai che se ti emozioni troppo diventi euforico e l´euforia ti fa cadere in depressione – puntualizzò la signora che non era così stupida come sembrava.

 

 

 

 

“Una, Bahia” cap. 12

deserto

 

12.

Donna Gracinha si recò nella casa di Conceição che era mattino presto. Un caldo afoso nonostante l´ora rendeva difficili i movimenti, il sudore cadeva come il pianto dei processanti che inseguono l´idolo ginocchioni in una domenica di Pasqua o in un Venerdì Santo.

Vestiva un abito lungo che non le nascondeva il pancione.

– È maschio o femmina? – chiese Conceição.

– Non sono ancora andata dal medico.

– E cosa aspetti?

– Che ritorni Almir!

– Dov´è?

– È per questo che sono venuta, volevo parlare con Maria Bethânia, volevo dirle che il padre è dovuto fuggire perché hanno minacciato di ucciderlo, posso entrare?

– Sono sola, i bambini sono al fiume con Wilson, ma adesso entra, entra pure.

 

La casetta era accogliente, il colore tendeva al rosso, le stanze erano decorose, pulite. La moglie di Almir riconobbe la mano di Maria Bethânia che aveva lavorato, pulendo, anche quando aveva vissuto con loro, in verità lei l´aveva obbligata a farlo, aveva preteso che si rendesse utile perché non ne sopportava l´arroganza.

– Almir è scappato perché è stato minacciato di morte. È una vecchia storia accaduta a Ilheus molti anni fa, ancora prima che nascesse Maria, una sera lui uscì con un amico a bere, il giorno dopo trovarono l´amico morto ammazzato e sospettarono di mio marito, che invece non c´entra niente. I figli del defunto però ancora credono che sia stato lui a ucciderlo, hanno saputo dove vive e hanno detto che si vendicheranno, a noi l´ha detto Jorge, il nostro vicino, a lui l´ha detto un poliziotto di Ilheus.

– E Almir dov´è?

– È scappato, abbiamo deciso di costruirci una nuova vita lontani da Una, io sono venuta per avvisare Maria, perché se lo viene a sapere da qualcun altro è peggio…

– Come farà la bambina a rivedere il padre?

– Appena lui avrà trovato un lavoro e sarà più tranquillo le farà sapere come raggiungerlo.

– Gracinha – Conceição le strinse la mano – ce la fai con tutti quei figli in casa, non vuoi che te ne tengo uno io?

– C´è una cosa che potresti fare… Vieni a trovarci con Maria così Nivea rivede la sorella e si calma… Chiede sempre di lei e dice che vuole fuggire!

 

La moglie di Wilson osservò la donna incinta mentre trascinava le gambe, lungo la strada… Non c´era una nuvola e gli alberi non parevano produrre strisce d´ombra. La nuova matrigna della primogenita di Almir contemplò quella figura che camminava sotto un sole insopportabile, con un altro figlio in grembo; si chiese come potesse reggere le gravidanze, il marito poi era dovuto scappare, accusato di un omicidio che non aveva commesso, è proprio vero che il cielo non ha pietà dei più poveri… Dall´altro lato della strada apparvero i suoi familiari cantarellando. Walace reggeva un grosso pesce, forse una Piaba, che pareva ancora vivo, perché apriva e chiudeva gli occhi, Wilson sorrideva tra i baffi, mano nella mano con le figlie… La sagoma di Gracinha era ormai scomparsa dalla linea dell´orizzonte, liquefatta sotto il sole.

 

– Come è andata? – chiese la moglie, la madre.

– Il papà ne ha presi tre, uno grossissimo, poi ne ha lasciati andare due, perché ha detto che non si possono uccidere troppi animali in un giorno solo e noi li abbiamo rincorsi nell´acqua, ma l´acqua è diventata profonda e le ginocchia affondavano!

 

Conceição si fece coraggio:  “Maria devo parlarti” disse alla piccola Bethânia che deglutì di un colpo solo tutta la saliva che aveva in gola. Wilson appoggiò sul tavolo il pesce e l´erba che aveva raccolto; si trattava di una pianta medicinale, gli avevano detto che era ottima per il mal di cuore.

– Il tuo babbo è partito, per un po´ di tempo non potrà tornare in Una, non è andato lontano e ha detto che tu lo potrai visitare appena troverà un lavoro…

– Dove è andato?

– Non so, ha lasciato Gracinha, i tuoi fratelli e le sorelline nella loro casa così si possono organizzare per raggiungerlo e non devono fare tutto in fretta, in una volta sola.

– Perché è partito? – lo sguardo di Maria si stava intristendo e riempiendo di quel liquido che il cuore produce quando ha bisogno di sfogarsi e di non rimanere incastrato nel petto.

– Due persone che lo accusano di un omicidio che non ha commesso vogliono ucciderlo!

– Come ucciderlo?

– Loro vogliono ucciderlo ma non lo faranno perché lui è scappato e adesso lavora da un´altra parte, è lui che ha chiesto a Gracinha di avvisarti, lei è passata, ha detto di dirti che Almir ti ama e che sei la preferita!

La matrigna strinse la mano della figliastra.

– Se mio padre muore io rimarrò sola!

– Non è vero perché tu sei figlia mia e anche di Wilson…

La ragazzina non fece altre domande. Priscilla la osservava ed era al tempo stesso invidiosa e amica… Le davano fastidio tutte le attenzioni che Conceição le riservava, però capiva quanto fosse complicata l´esistenza di Maria. I baffi di Wilson ora nascondevano la solita espressione malinconica… “Cuciniamo il pesce” esclamò, Walace si diresse ai fornelli, Conceição si preparò a tagliuzzare aglio e cipolla e anche Priscilla dimenticò velocemente i problemi di Almir. L´unica che per parecchio ricordò tutte le parole pronunciate in quel pomeriggio fu Bethânia. Lei inoltre pensò: “Se mio padre non ha fatto male a nessuno, perché vogliono ucciderlo?”.

 

 

 

 

 

 

 

“Una, Bahia” cap. 9, 10 e 11

negro lavoura

9.

Intanto Maria Bethânia cresceva nella famiglia di Wilson e Conceição e già aveva più di undici anni. Frequentava svogliatamente la scuola elementare, imparava a leggere e a scrivere navigando in un mare di imperfezioni linguistiche, dovute forse alla sua difficile situazione e al sovraffollamento scolastico. Già era diventata una bambina grandicella, quasi una ragazzina, le stava cominciando a crescere il petto, lei sognava di avere un seno prosperoso come alcune compagne di tredici anni, e ogni giorno davanti allo specchio diceva: “È grosso, lo vedo, tra poco sarà come quello di Joana, Marize, di Jussara” ma era solo un´impressione, in realtà le sue tette erano quelle di una undicenne, era l´immaginazione che la proiettava in avanti, la trasportava tra le braccia dei giovani più attraenti dalle spalle forti, dallo sguardo intelligente e di pelle chiara, come Wilson. A lei piacevano gli uomini bianchi, i bambini, i ragazzi e gli adolescenti del suo stesso colore non le interessavano. Wilson lavorava seduto sulla sua sedia, saltuariamente tentava la sorte e giocava a quello stesso gioco clandestino che dava riso, carne e fagioli a tutta la famiglia. Sognò una notte che un amico gli consegnava un assegno del valore di cinquecentoottantacinquemila e gli diceva “vallo a ritirare subito, è per te”. Il giorno dopo giocò il cinque, l´ottantacinque, il cinquecentoottantacinque e il cinquantotto, cioè il gorilla, il serpente, la capra (nel bicho si usavano solo numeri di due cifre, ma lui fece mentalmente un contro strano e si decise per la capra) e l´elefante. Tornò a casa soddisfatto, convinto che avrebbe vinto, perché i sogni non mentono ed era la prima volta che sognava dei numeri. Conceição lo accolse raggiante nel vederlo finalmente sorridere, era preoccupata infatti perché la faccia del marito si era riempita di rughe, lo sguardo era sempre stato un poco triste… Ultimamente però, di mattina presto, Wilson si era svegliato gridando “mi fa male il petto”, sentiva dolore vicino al polmone e gli doleva il braccio, tremava, aveva tremato per dieci minuti buoni. La moglie era riuscita a convincerlo a farsi vedere da un medico e adesso lui stava facendo gli accertamenti.

– Ho sognato il cinquecentoottantacinque, l´ho giocato, questa volta vinciamo e costruiamo il secondo piano della nostra casa.

– E come lo costruiamo?

– Facciamo tre stanze, una per Maria Bethânia, una per Walace e una per Priscilla, così noi ce ne stiamo tranquilli al piano terra e se riusciamo, affittiamo una camera e avremo una piccola rendita.

– Va bene Wilson, però una parte dei soldi me li devi dare che Ester ha bisogno del mio aiuto, il marito l´ha picchiata ancora e lei deve finire di pagare il poliziotto Pedro!

– Non ho ancora vinto niente e tu già stai buttando via i soldi!

– Come buttando via? Wilson, io sto aiutando Ester poverina, il marito la picchia, ti immagini se tu mi picchiassi, come potrei difendermi, dovrei anche io pagare qualcuno e qui in Una l´unico che fa questo tipo di lavori è Pedro…

– Pedro un caralho! Conceição tu butti via il mio denaro, prima decidi di adottare una bambina sapendo che la nostra situazione è difficile, poi aiuti tutti quelli che bussano alla nostra porta e non capisci che ti stanno fregando!

– Non dire così amore mio, non essere ingiusto con Ester, lei non mi sta fregando, ha bisogno del mio aiuto, se io fossi al suo posto farei la stessa cosa…

Era una partita persa quella con Conceição, era uno sforzo insostenibile cercare di convincerla della furbizia degli altri. Ed in fondo anche Wilson sfruttava l´ingenuità della moglie, che mai avrebbe sospettato che il compagno avesse un´amante e lui invece si incontrava con Angelica, alle volte da lei, mentre il marito lavorava, oppure al fiume o nel bosco. Gli veniva un gran mal di testa quando pensava ad Angelica, la pelle bruciata dal sole, la fighettina tenera e profumata come una fragola, il desiderio gli cresceva dentro, la sognava, cominciava a possederla nell´immaginazione e già la stava cercando o aspettava febbrile l´ora e il giorno dell´incontro. Lui si sentiva colpevole, perché Conceição gli credeva, si fidava, perché era il papà di Walace e Priscilla e ora di Maria Bethânia e voleva essere responsabile. Ma il corpo di Angelica era irresistibile, quelle cosce scultoree, i peli corti, rasati, l´olio che si spargeva dappertutto, da lei non voleva nient´altro, non avrebbe mai lasciato sua moglie per l´amante, ma non credeva di poter rinunciare a quell´orgasmo che lo lasciava triste e soddisfatto.

 

10.

Una mattina alle cinque fu Walace che svegliò la madre: “Papà sta male!”. Il babbo stava gridando, gli occhi semichiusi come se fosse un attacco epilettico e magari lo era, il medico gli aveva detto che gli esami erano a posto, solo doveva prendere delle pastiglie prima di addormentarsi e lui le prendeva. Priscilla pianse mentre il padre allungava le braccia penzolanti nel vuoto, incosciente o semicosciente, gridolini soffocati gli uscivano dalla gola. Poi avrebbe raccontato a Maria Bethânia, che tutto osservava con grande angoscia, che lui capiva perfettamente quello che gli succedeva, osservava e interpretava le reazioni di chi gli stava intorno, ma non riusciva a fare niente, sentiva quel forte dolore al petto che lo lacerava e il fatto che percepisse, che intendesse tutto, lo rendeva triste. Quando si riprendeva dagli attacchi, era spossato e depresso. Il medico continuava a dirgli che gli esami del sangue erano nella norma, Wilson non aveva denaro sufficiente per permettersi un dottore privato e si doveva accontentare di quello che passava il governo. Era sempre preoccupato, la malinconia, che fin da piccolo lo aveva accompagnato, si era impadronita di lui, adesso vedeva nei volti delle persone solo difficoltà e rassegnazione. Era arrivato ad odiare Celinho il barista, che gli aveva ribadito che Maria Bethânia stava crescendo bene e che entro pochi anni lui avrebbe potuto trarne piacere. Il baiano era infastidito da queste chiacchiere, col tempo aveva imparato ad apprezzare Maria e a volerle bene, non perché fosse una buona studentessa, lei era una pessima alunna come i suoi figli, ma perché era una ragazzina cosciente della propria situazione, che cercava di approfittare delle occasioni che la vita le offriva, collaborava ai lavori domestici e non si lamentava mai. Anche Maria Bethânia ora lo rispettava, lo ringraziava, nelle sue preghiere serali, per il riso, la carne, i fagioli, le salsicce, per i vestiti, le scarpe, il sapone, i profumi che le comprava permettendole di essere quell´adorabile mulattina che era diventata. Quando lo vide rivoltarsi nel letto come un appestato, lamentarsi come un moribondo, affossare gli occhi come un epilettico, si spaventò quasi come quando aveva capito che la madre l´aveva abbandonata. Come avrebbe fatto senza il suo papà adottivo, come avrebbe potuto Conceição mantenere la famiglia con il solo lavoro alla mensa dell´asilo? Lei sarebbe forse tornata da babbo Almir, avrebbe dormito ancora dividendo il letto con Nivea, Telma e Judite? Non poteva pensarlo, non lo voleva nemmeno immaginare, se Wilson fosse morto e Conceição fosse stata costretta ad abbandonarla al suo destino, si sarebbe cercata un´altra famiglia o sarebbe andata a lavorare, già i vicini di casa le avevano chiesto di pulire le loro stanze in cambio di qualche soldo e le avevano proposto di accudire i bambini più piccoli, se Wilson fosse morto e Conceição fosse stata costretta ad abbandonarla, lei si sarebbe arrangiata! I due, Wilson e Maria, al momento andavano d´amore e d´accordo, il patrigno non si lamentava in eccesso del denaro speso da Conceição per il mantenimento della figliastra e stava cercando di contenersi nelle lagnanze anche intorno al denaro speso dalla moglie in altro modo. E ci riusciva nonostante il suo cuore fosse costantemente afflitto e i pensieri vagassero in zone lugubri, piene di cattivi presagi. Non  lo rallegrò nemmeno la vincita al gioco del bicho, quando uscì l´ottantacinque, il gorilla, solo commentò con Celinho: “Lo dicevo io che le scimmie mi portano fortuna!”. Ritirò i soldi assieme allo stipendio, glieli consegnò l´uomo delle schede e del denaro, che passava, un pomeriggio sì uno no, a visitarlo mentre, seduto, lavorava… “Sorridi almeno oggi, che è il tuo giorno fortunato!” commentò quello, “Se fosse il mio giorno fortunato, non sentirei l´angoscia che sento” replicò lui. Affidò poi il denaro alla moglie, “Fanne quello che vuoi”  disse, “ma non dimenticare di far ristrutturare le stanze dei bambini”. Conceição separò subito i mille che voleva dare a Ester e si sentì al settimo cielo perché poteva aiutare un´amica a cui voleva tanto bene.

 

11.

Almir stava preparando i bagagli, se ne andava, sbaraccava. Dona Gracinha lo aiutava, gli undici figli, compresa la piccola Jaqueline Maria, facevano quello che potevano, raccattavano una cosa qui, l´appoggiavano là, poi arrivava un altro ragazzino che raccoglieva l´oggetto lasciato incustodito in un angolo da un fratello o da una sorella e lo spostava da un´altra parte. Così quando l´uomo chiese alla donna: – Dove hai messo il mio spazzolino da denti?

– L´ho appoggiato sul tavolo – rispose la mamma incinta, affaticata, ma il grande padre era accanto al tavolo, lo spazzolino non lo scorgeva nemmeno di sbieco e si infuriò: – Chi diavolo lo ha spostato?

Nivea amava fare la spia, soprattutto quando si trattava di denunciare uno dei figli di Gracinha, “È stato Binho” disse, “l´ho visto io”.

– Non sono stato io a rubare lo spazzolino, io l´ho solo preso e l´ho messo sulla sedia!

– E chi l´ha toccato poi? – gridò Almir.

– Poi l´ha preso Ana, l´ho vista io – aggiunse Gracinha che non sopportava di osservare il suo uomo con l´espressione del volto tanto triste,  – e se adesso non mi dice dov´è, questa volta la picchio!

– Io non l´ho preso! – rispose la vocina di Ana.

– Ah… non l´hai preso tu e non hai visto chi l´ha preso? E io invece sono sicura che è qui da qualche parte, forse fra le tue calze, che ti piace sempre fare confusione fra le calze, e infatti eccolo qui! Guarda! Lo spazzolino del papà! Questa la paghi Ana, perché oltre ad esserti immischiata nelle cose degli adulti, hai mentito, e non si può mentire né ai bambini né agli adulti!

 

La madre era tesa e scaricò la tensione sul fondoschiena e sulle gambe di Ana, che si mise a piangere come stesse per morire, allora Nivea non riuscì a trattenere il commento “I figli di Gracinha sono delle pappemolli”.

Sfortuna sua, la matrigna percepì nitidamente il suono e il significato di quelle parole.

– Cos´hai detto?

– Niente!

– Ti ho sentita sai, e se non hai il coraggio di ripeterlo ad alta voce davanti a tutti, ci sarà anche per te una buona razione di botte!

– Non ho detto niente!

– Ti ordino di ripetere quello che hai detto adesso!

Il tono della donna era minaccioso ma la figliastra era una dura: – E se non lo ripeto cosa fai?

 

Questo per lei era troppo. Prese Nivea per le spalle, la sdraiò sul letto, dove di solito dormiva con Telma, Judite e Jaqueline Maria, che si trovava in un angolo della sala nella quale tutte le figlie trascorrevano la notte, gli unici ad avere un proprio spazio erano i maschietti, frutto del precedente matrimonio della grande madre. Le gambe della figliastra sbatacchiarono contro gli infissi in legno, Gracinha la alzò per guardarla dal basso verso l´alto e la bambina sbattè la testa contro il soffitto mentre l´uomo osservava impotente. L´educazione della prole era ormai prerogativa della moglie.

Nivea fu appoggiata al materasso, di schiena, le vennero abbassati i calzoncini corti e le mutandine; Gracinha si tolse la cintura, “Adesso, peste, o mi ripeti cosa hai detto e ti prenderai dieci cinghiate o te ne rimani in silenzio e di cinghiate ne prendi trenta!”.

– Ho detto che i figli tuoi sono delle pappemolli, Gracinha!

– E perché lo hai detto?

– Perché Ana quando l´hai picchiata si è messa ad urlare come se la stessi ammazzando, noi figlie di Almir non gridiamo mai!

Le diede solo dieci cinghiate e lo fece controvoglia perché quella risposta l´aveva resa consapevole del motivo della confusione, cioè l´imminente partenza del marito e poi le doleva il ventre, era incinta infatti e se lo scordava…

Il grande padre nel frattempo aveva preso lo spazzolino e l´aveva messo tra le cose che si sarebbe portato via. Avevano deciso che sarebbe partito da solo per Porto Seguro, là avrebbe incontrato un suo conoscente e avrebbe valutato la possibilità di lavorare per il fazendeiro che aveva bisogno di un tuttofare.

Gli pesavano la testa e le spalle, gli pareva impossibile che, dopo tanti anni, ancora dovesse scappare a causa di una storia che lui considerava chiusa. Cosa volevano da lui i figli di Alexandre, non l´aveva ammazzato lui il loro padre e, anche se l´avesse ammazzato, era acqua passata!

La moglie gli si avvicinò e lo aiutò a preparare il bagaglio.

– Almir… tu adesso vai, parla col fazendeiro e noi poi ti raggiungeremo… ricordati che siamo la tua famiglia, Dio ci ha scelto per formare questa grande unione e adesso sta mettendo alla prova le nostre convinzioni, la nostra fede…

Lui avrebbe voluto rincuorarla, avrebbe voluto crederle, ma si sentiva svuotato, oltraggiato dalla sorte, dal destino e forse anche da Dio.

– Amore mio, ricostruiremo la nostra casa a Porto Seguro -, affermò con le lacrime agli occhi

– Non piangere Almir -, gli rispose Gracinha.

– Non sto piangendo…

 

Il giorno dopo il baiano abbandonò Una come un ladro. Il sole splendeva incerto e qualche nuvola annunciatrice di pioggia gli dava la speranza di un viaggio piacevole e non troppo sudato. Calzava dei sandali mezzi rotti, che gli si sfilavano dai piedi quasi ad ogni passo, dopo un po´ si decise e li abbandonò per strada. Poi però pensò che quei sandali avrebbero costituito una traccia in più per i suoi inseguitori o chissà erano soltanto il segnale del passaggio di un uomo impaurito, che si lascia alle spalle tutto ciò che può…

Arrivò a Porto Seguro che era quasi notte. Nella stazione dell´autobus c´erano due o tre soggetti dai visi duri, le guance rosse, il naso paonazzo, che aspettavano i turisti più sprovveduti, quelli che approdano ai luoghi di villeggiatura nelle ore peggiori, per tentare di carpirgli qualche soldo offrendosi come guide turistiche o, in mancanza di una risposta, per cercare di derubarli. Il baiano passò inosservato, nessuno avrebbe creduto che fosse un turista o che avesse del denaro con sé, lui in realtà aveva qualche soldo che era ben nascosto nelle mutande. A tracolla portava uno zaino verde tipo militare, scalzo, non indossava maglietta alcuna. La pelle emanava un odore forte. Prima di andare dal proprietario terriero pensò di passare dalla casa dell´amico che si chiamava Júlio, aveva più o meno la sua età… Si erano conosciuti anni addietro a Una dove quello aveva lavorato per l´Unaca, l´ente che cura l´abbattimento degli alberi e la successiva ricostituzione delle foreste, che stimola lo sfruttamento della terra e delle piante secondo criteri ritenuti sostenibili e promuove esperimenti di innesto o di crescita indotta, che possano portare a nuove scoperte alimentari. Júlio aveva già dato lavoro a Almir in Una per tre giorni ed era rimasto impressionato dall´indefesso faticatore baiano. Lui lo aveva ricambiato con una buona mangiata di pesce. Il baiano sapeva che l´amico abitava sulla costa, vicino alla parte turistica della città e che la fazenda dove forse sarebbe andato ad installarsi era invece nell´entroterra, vicino alle colline. Attraversò un ponte e dopo mezz´ora di cammino si trovò nella via principale di Porto Seguro. C´erano molti locali notturni, turisti di varie nazionalità erano portati a passeggio da mulatte ridacchianti, “Dio fai che le mie figlie non finiscano così” recitò, ma poi si ricredette perché, se una delle figlie avesse sposato un turista straniero, forse si sarebbe salvata… Camminò a vanvera, chiese a un signore che se ne stava seduto sui gradini di una chiesa se sapesse dove abitava Júlio.

– Júlio chi?

– Quello che lavorava in Una per l`Unaca, adesso vive a Porto Seguro, lavora per un fazendeiro là nella foresta!

Il tizio non lo conosceva e se per caso lo conosceva, in quel momento non gli veniva in mente chi potesse essere.

– Vuoi venire a bere una cachaça? – gli propose

– No grazie, sono evangelico.

Aveva con sé una tessera telefonica, si avvicinò alla cabina azzurra a forma di grande orecchia, digitò il numero della cabina posta davanti alle due case, la sua e quella di Jorge, ma l´apparecchio non sembrava funzionare; estrasse la carta e la reintrodusse, segnava quaranta unità nel display; fece il numero, questa volta il telefono suonò. Gracinha stava aspettando notizie del suo uomo e rispose dopo pochi squilli…

– Sto bene, sono qui, adesso vado a casa di Júlio, l´ho già incontrato certo, è venuto a prendermi alla stazione, come stanno le bimbe?

Mi raccomando, va domani da Conceição, spiega a Maria Bethânia quello che è successo, che se lo verrà a sapere da altri starà male, va bene Gracinha?

Ti richiamo.

 

Estrasse la carta, adesso segnava undici unità, erano rapide a diminuire… Nel bar dell´angolo scintillavano mille luci, c´era un uomo che suonava una chitarra, gli sarebbe piaciuto restare ad ascoltarlo, ma non sapeva dove passare la notte. Aveva fame ma era meglio risparmiare il denaro per l´indomani.

– Scusate – chiese a un tipo seduto al tavolo – sapete dov´è la chiesa evangelica di Porto Seguro?

Il signore gli indicò una struttura bianca nell´angolo della piazza, vicino alle panchine. Il baiano la raggiunse quasi correndo, era impaziente di vedere quelli che chiamava i suoi fratelli, magari avrebbe ascoltato un sermone, ma il tempio era chiuso, il culto della sera doveva essere terminato da poco.

Non l´avrebbe fatto in altri luoghi perché non avrebbe sopportato di immaginare Gracinha osservandolo in quella situazione; sarebbe stato imbarazzante se lei lo avesse trovato sdraiato, dormendo per terra come un ubriaco, ma davanti alla chiesa evangelica lo fece, appoggiò lo zaino sotto la testa e tentò di dormire il sonno dei giusti, sui gradini.

Sognò Jasmine dai capelli lanosi, sopra di lui come una cavallerizza. La possedeva da sotto. Lei gridava, lui ricordò le frasi: “O mio bel negrone dove vai? Quanti chilometri farai?”.

Era una porca Jasmine… Lui le fece sentire la sua terga dura che lei glielo diceva che le piacevano i negri perché erano ben forniti e così fu una notte agitata la prima che trascorse a Porto Seguro!

 

 

 

 

 

 

“Una, Bahia” cap 6, 7 e 8

6.

 

Jorge faceva pensieri tristi mentre l´acquazzone gli tormentava le caviglie zuppe di fango, non aveva creduto che sarebbe stato così faticoso raggiungere la casa del poliziotto suo amico. Camminava e malediceva la pioggia, anche se per portare a compimento i suoi propositi non era poi tanto differente se pioveva o c´era il sole, solo sarebbe cambiata la forma, col sole le caviglie sarebbero rimaste pulite, i pantaloncini corti non si sarebbero inzuppati. Lui aveva l´ombrello sì, ma il temporale era insistente, il vento tormentato quasi quanto l´animo di Wilson e l´ombrello volò via. Senza copertura e col solo cappello in testa, si presentò nella casa del gendarme di Ilheus, sofferente, claudicante, la stanchezza e l´improvviso malumore quasi lo fecero desistere dai suoi piani. Invece bussò.

– Chi è? – gridarono da dentro.

– Sono Jorge, sono venuto a parlarti, ti ho telefonato ieri!

– Sei bagnato?

“Domanda idiota” pensò lui che era zuppo, stanco, irritato, ma con l´intelligenza in fibrillazione, il cuore in subbuglio, desideroso di fare tutto il male possibile a quel negro del suo vicino che era stato così volenteroso e risparmiatore da meritare un castigo. Il poliziotto era pardo, cioè un miscuglio chiaro di nero e bianco, mostrava una discreta pancetta dovuta al benessere conseguente i guadagni, certo più illeciti che leciti. Come quasi ogni poliziotto baiano, oltre al normale servizio di ordinanza, esercitava lavori extra in aggiunta al tedioso e poco remunerativo impiego quotidiano. Da queste attività, per lo più minacce, estorsioni, assassinii, talvolta vigilanze notturne, protezioni personali,  dipendeva la parte più cospicua delle sue entrate. La moglie era seduta davanti alla televisione a godersi un noiosissimo film, ottimo per un terribile giorno di pioggia, nel quale uscire di casa sarebbe stata la peggiore delle follie. Il baiano di Una fu fatto sedere sul sofà giallognolo. La moglie del padrone di casa abbandonò la televisione per preparare il caffè.

– Cosa vuoi? – chiese, un po´ rudemente, il poliziotto.

– Sono venuto a chiederti di ricambiare il favore che ti ho fatto quando tuo figlio violentò quella ragazzina là in Una e io parlai con Pedro e lo convinsi a lasciar perdere…

– Sei stato un amico, davvero… Domanda quello che vuoi…

– Ti ricordi di Almir, il negro che abitava qui a Ilheus, che rimase coinvolto in un fatto di sangue e poi venne a vivere in Una?

– Ricordo.

– Voglio che tu ritrovi i documenti che parlano di quell´episodio e li utilizzi per fotterlo un ´altra volta o li dai a una persona che possa farlo al posto tuo.

– Con questo siamo pari?

– Con questo siamo pari.

 

La moglie portò il caffè. Jorge bevve due tazze piene, lo fece per scaldarsi, perché in realtà a lui il caffè non piaceva, avrebbe sorseggiato con più godimento un bicchiere di birra o di cachaça… Lui e l´amico chiacchierarono per una mezzoretta mentre la signora rassettava la casa… Poi l´uomo invidioso se ne andò che ancora pioveva a dirotto, non aveva fatto in tempo ad asciugarsi che già si bagnava di nuovo… Maledisse in quel suo portoghese con pochi congiuntivi il dio della pioggia, che nella sua testa era un dio diverso da quello del sole. C´era un dio per la primavera e un dio per l´inverno, un dio del vento e un dio delle stelle, ogni elemento naturale, ogni giorno e stagione erano prodotti da dei differenti. Concezione opposta a quella di Almir, che nelle differenze cercava l´unità. Forse era per questo che Jorge aveva deciso di fare del male al suo vicino, perché inconsciamente odiava la continua ed implacabile unità dell´universo e amava la differenziazione, la separazione. Secondo lui, ogni cosa doveva stare al proprio posto, ogni posto era diverso da un altro e aveva un nome differente. Jorge non riusciva ad accettare che avrebbe potuto esistere un nome, un giorno, che li avrebbe riassunti tutti… Arrivò alla stazione degli autobus di Ilheus con i calcagni e le dita marroni. Starnutiva e malediceva il dio della pioggia che l´avrebbe lasciato a letto con l´influenza, ma allo stesso tempo era contento, perché l´amico gli aveva assicurato che avrebbe chiamato in una delle prossime sere nel telefono pubblico che si trovava davanti alle due case di legno, la sua e quella di Almir.

 

7.

 

Passò i giorni successivi osservando la cabina azzurra come fosse un feticcio. Si era convinto che da quella telefonata, da quel poliziotto di Ilheus dipendesse il suo futuro. Trascorse due mattine a letto con un po´ di febbre, solo si alzava per controllare che la moglie stesse bene, seduta davanti alla televisione, sempre più grassa, lo sguardo perso nelle telenovelas, “Ieri Bruno ha baciato Cintia che lo tradiva con Rafael” gli disse in uno di quei pomeriggi cercando di interessarlo e lui la guardò come si osserva un soprammobile. Gli faceva un po´ pena e un po´ schifo, ma era la madre dei suoi quattro figli che seminudi sedevano per terra mentre il grasso del burro che mangiavano in continuazione gli colava dalle bocche. Jorge trovava macchie di burro, di latte e caffè in qualunque angolo della casa. Sua moglie puliva una volta alla settimana, lui lavorava come uno schiavo e, quando poteva, andava al bar ad ascoltare cosa si raccontava e a rendersi dolorosamente conto che era diventato uno dei tanti bersagli dell´ironia popolare. Nessuno però osava calunniarlo oltre un certo limite quando lui era presente, tutti consapevoli che in Una se ci si spinge lontani nell´insinuare si può finire accoltellati. Le malelingue si scatenavano quando lui non c´era e dicevano che la moglie obesa era handicappata, i figli erano putridi e sgradevoli e lui, quando raccattava la spazzatura, odorava di gatto morto. In molti ridevano, sorseggiando cachaça e parlando delle sue sfortune, alcuni poi si pentivano e provavano pena, altri continuavano la conversazione a casa con le mogli, i figli, i fratelli e i parenti tutti.

Pochi giorni dopo il suo breve viaggio il telefono suonò e fu lui a rispondere per primo, probabilmente la famiglia vicina nemmeno si era accorta dello squillo. Venne così a sapere cosa aveva combinato Almir a Ilheus anni prima. Un sorriso cattivo e cinico gli si dipinse sul viso, gli occhi brillarono, per un attimo si sentì felice. Il poliziotto di Ilheus era stato di parola, gli aveva fornito l´informazione di cui aveva bisogno, adesso toccava a lui. Pensò che d´ora in poi, quando fosse andato al bar, non avrebbe dovuto sopportare le continue allusioni di quegli idioti che passavano le giornate a bere birra e nessuno che avesse il coraggio di dirgli cosa pensasse, tutti che chiedevano come stava la moglie, come stavano i figli, sapendo che vivevano in uno stato deplorevole e lui non riusciva a fare nulla per cambiare la situazione! Avrebbe potuto andarsene certo, ma non era una sua caratteristica, quella della fuga, preferiva affrontare la realtà con l´odio negli occhi! Ripose la cornetta nel gancio e si recò nella fazenda del proprietario terriero; la raggiunse dopo mezz´ora di cammino. L´entrata della tenuta era segnata da due statue di legno a forma di toro, con due grosse paia di corna dalle quali cadevano intrecciate alcune corone di fiori, che potevano apparire folcloristiche ma che in realtà erano lì per portare fortuna e garantire prosperità. Chiese a Gonzalo, l´assassino su commissione che gironzolava per i campi con la funzione di guardiano, se il fazendeiro poteva riceverlo.

– Cosa vuoi da lui?

– Voglio solo dirgli che se ha bisogno di un uomo che organizzi la raccolta e la triturazione, può pensare a me.

– Al momento non abbiamo bisogno di nessuno!

– Ma se per caso avrete necessità di qualcuno pensate a me, che ho già lavorato in una tenuta a Ilheus, mi potete mettere alla prova quando volete…

Gonzalo gli rispose che avrebbe riferito al proprietario che adesso era molto occupato.

– Con chi devo dirgli che ho avuto il piacere di parlare?

– Digli che hai parlato con Jorge, quello della spazzatura e della moglie obesa!

Il killer (col cappello da cow boy) lo guardò allontanarsi e non gli si spegneva il sorriso che quell´ammissione di debolezza aveva causato… ma anche Jorge sorrideva del piacere che gli dava immaginare Almir sofferente e in fuga, con tutti i dieci, undici figli che si tenevano per mano, piangendo e lamentandosi per il fango sulle ginocchia e sulle caviglie e per la fame.

 

8.

 

La parte più difficile del piano stava per arrivare, mentre il sole cadeva perpendicolare e Almir era andato al fiume per controllare se le esche avessero funzionato e i pesci abboccato. Gracinha stava cucinando il pesce del giorno prima, la famiglia avrebbe consumato un pranzo prelibato. Nivea, Telma e Judite osservavano la madre tagliare le erbette, preparare il sugo ed avevano l´acquolina in bocca, i fratelli adottivi giocavano a rincorrersi nel cortile, quando bussarono alla porta. Gracinha smise di cucinare e andò ad aprire.

– Chi è? – gridò il baiano muscoloso che era appena rientrato con due trairas in mano da poggiare vicino ai gamberetti, donati dal fazendeiro.

– È il signor Jorge, il nostro vicino!

“Che diavolo vorrà il signor Jorge, che in tanti anni mi ha rivolto due o tre volte la parola?” pensò Almir lavandosi le mani poi: – Arrivo! – gridò.

– Entrate, entrate pure… Gracinha invitò il vicino a farsi avanti e così i due uomini si incontrarono. Si sedettero sul divano giallognolo, il padrone di casa chiese alla moglie di preparare un caffè.

– Sono venuto per parlarti di una cosa delicata, che mi hanno rivelato in un viaggio che recentemente ho fatto ad Ilheus.

– Ditemi Jorge, dite pure.

Jorge gli dava del tu mentre il padre di Maria, così abituato in chiesa e, da piccolo, dalla severa madre fervente cattolica, si rivolgeva con umiltà e discrezione alle persone che non conosceva bene.

– Sono stato a Ilheus ad incontrare un amico e alcune persone mi hanno riferito delle cose sul tuo conto che penso sia meglio che tu sai… Mi hanno detto che i due figli dell´uomo che tu hai ucciso venti anni fa hanno scoperto dove abiti e vogliono vendicarsi, mi ha detto un amico poliziotto che sa che io sono tuo vicino, che venti anni fa tu sei uscito di sera con un collega di lavoro, dopo che avete ricevuto il salario avete bevuto assieme in un bar, poi ve ne siete andati, il giorno dopo il tuo collega è stato trovato sgozzato, col portafogli pieno di soldi, senza graffi sul corpo e con un coltello affianco. La polizia ha pensato che tu fossi il colpevole, ma quando ha ritrovato l´intero stipendio nelle sue tasche ti ha lasciato stare. I due figli del morto non ti hanno ancora perdonato e il mio amico ha saputo che vogliono vendicarsi e mi ha chiesto di avvisarti, perché lui pensa che sei innocente.

Almir rimase a bocca aperta. Credeva che quella storia fosse stata sepolta assieme al suo collega, sentirsela raccontare con quella naturalezza dalla bocca di Jorge lo sconvolse, gli sembrò fosse diventata di nuovo di pubblico dominio… Sentì una specie di fremito mentre si guardava intorno, insicuro.

– Grazie per avermi informato, sei stato un amico!

– Di niente Almir… se non ci diamo una mano tra noi, chi penserà ai poveri diavoli?

 

Jorge uscì di casa fingendo tristezza e partecipazione al dolore di quell´uomo così ingenuo, ma in cuor suo esultava e si compiaceva delle sue capacità teatrali. Almir era piombato in una zona oscura e inquieta del proprio animo, era come imploso dentro se stesso, di nuovo davanti a questioni e pericoli che credeva di aver superato, ma era inutile recriminare, la sua vita fin da ragazzino era stata una lotta e proseguiva nella stessa forma.

– Gracinha – gridò.

– Un attimo e il caffè è pronto!

– Non lo vogliamo più, Jorge se ne è andato, vieni Gracinha che ti devo parlare!

– Arrivo Almir – rispose lei un poco preoccupata ma non troppo, perché c´era una parte dell´animo di quella donna che era inguaribilmente ottimista.

 

– Jorge mi ha dato una pessima notizia.

Lei si sedette sul divano.

– Mamma c´è il caffè fatto sulla credenza! – gridò Nivea, la più sveglia del gruppo. Lei non replicò.

– Vent´anni fa, amore mio, io abitavo a Ilheus, ero giovane, non ero sposato e non avevo figli, lavoravo nei campi e nella foresta, come ora, assieme a amici e colleghi, non tutti erano amici, tutti però lottavamo per guadagnare il nostro pane  quotidiano che anche allora non mancava, grazie a Dio… una sera, dopo aver ricevuto lo stipendio, io e altri del paese siamo andati a bere birra, io bevevo molto, ma non mi ubriacavo tutte le sere, esageravo solo il sabato e la domenica, tutti i giorni però non mi mancava la voglia di un bel bicchiere o di una cachaçinha, ancora adesso a pensarci mi viene…

– Almir! – lo riprese la moglie.

– Scusa amore, è il ricordo… ti dicevo che ero uscito di sera, era un venerdì credo, il padrone ci pagava ogni venerdì, abbiamo bevuto in quattro o cinque, seduti in un bar, poi ce ne siamo andati, cioè siamo rimasti solo in due e ci siamo alzati dal tavolo, eravamo io e un collega alto, forte, non ricordo il nome, doveva essere Alan o Alexandre, eravamo  claudicanti per la birra e per la cachaça, ci siamo salutati vicino a un albero, era un banano, uno dei banani più grandi di Ilheus, io ho continuato solo fino alla casa della mia vecchia. Il giorno dopo hanno trovato Alan o Alexandre, forse Alexandre, con la gola spezzata, lo stipendio ancora in tasca e il coltello insanguinato in mano, hanno saputo che io ero stato l´ultimo a salutarlo, ci hanno visti mentre ci allontanavamo dal bar, un uomo in bicicletta ci ha notati accanto al banano, la polizia ha sospettato di me, mi ha portato in caserma, mi ha interrogato, io ho detto e ripetuto che lo avevo lasciato accanto all´albero e poi non sapevo dove era andato, come fosse morto, mi hanno trattenuto per due giorni. Il terzo giorno mi hanno rilasciato perché era evidente che non avevo rubato niente, i soldi erano rimasti nelle tasche del morto, il coltello Alexandre, sì Alexandre, ce l´aveva in mano, forse si era suicidato, per me poteva anche essersi suicidato, anche se non era triste, ma solo ubriaco… Purtroppo i due figli del mio collega hanno creduto e continuano a pensare che io sono l´assassino di loro padre, qualcuno deve averglielo ripetuto e deve riperterglielo anche oggi, sapevo già che avevano minacciato di vendicarsi, Jorge l´ha confermato, mi ha detto che un amico di Ilheus gli ha spifferato che i due figli di Alexandre ora hanno scoperto dove vivo, sanno cosa faccio qui e vogliono venire ad ammazzarmi… tu sai che io non ho i soldi per pagare qualcuno per difendermi, Pedro è caro e io non mi voglio immischiare in queste cose, allora penso che sia meglio andarcene a Porto Seguro, conosco una persona che ci vive, potrebbe aiutarci, già mi aveva proposto di lavorare per un fazendeiro di là, forse è meglio accettare.

– E come faremo con la casa che stiamo costruendo? – chiese lei, perplessa.

– L´abbandoneremo così come è, senza terminarla, chissà un giorno con l´aiuto del buon Dio riusciremo a tornare e a finirla o chissà ne costruiremo un´altra a Porto Seguro.

– Sia fatta la volontà del Signore, Almir… io ti seguirei in capo al mondo – rispose la grande madre che gli credette e non mise in dubbio la sua innocenza; Almir d´altronde non cercò di giustificarsi, raccontò però solo quello che voleva raccontare o che gli faceva comodo che lei sapesse… La verità, se lui cioè avesse o meno ammazzato il collega di lavoro, vi confesso che nemmeno io la conosco (anche se, a conti fatti, credo fosse innocente).